Seus lábios, pintados de um vermelho vibrante, formaram um arco de desprezo e escárnio. Ela mexia a colher na xícara, distraída.
“Clara, quanto tempo.”
Dito isso, ela ergueu a xícara de café, fazendo um gesto de brinde em direção a Clara.
Clara ficou paralisada, seu cérebro lento a impedia de processar que Sabrina estava provocando-a. Ela apenas assentiu com o olhar vazio: “Você voltou. Quer comer?”
Antigamente, quando as duas se preparavam para o vestibular, Sabrina sempre alegava estar estudando muito e exigia que Clara cozinhasse para ela. Se Clara não seguisse suas ordens, ela distorcia os fatos ao se queixar para Ricardo.
O resultado era sempre a repreensão de Ricardo:
“Você é uma inútil e ainda quer atrapalhar o progresso dos outros? O mais importante para a Xiao Rou agora é estudar. Não pode fazer um pouco mais das tarefas de casa? Ou está fazendo isso de propósito para prejudicá-la?”
Clara balançou a cabeça, tentando afastar as alucinações de sua mente.
“Não precisa.” Sabrina franziu o nariz, com um ar de repugnância que não poderia ser mais óbvio.
“Quem iria querer comer algo feito por você?”
Clara ficou rígida, suas mãos puxando inutilmente a bainha desbotada de sua roupa, com a cabeça baixa, parecendo sem vida.
“O irmão He mencionou o divórcio, não foi? Faz sentido. Afinal, agora que voltei, é hora de você abrir mão da identidade de nora da família He. Deve estar feliz por ter aproveitado as regalias por três anos, não é?”
Seus nervos entorpecidos deram um salto; Clara percebeu que ela estava zombando, mas seus olhos permaneciam obscuros e sem brilho ao encará-la.
Sabrina franziu a testa; parecia insatisfeita com a falta de reação, como se estivesse dando um soco em algodão.
“Quando sua mãe morreu, você também ficou com essa cara de paisagem?”
Os olhos de Clara se arregalaram levemente, como se tivesse levado muito tempo para entender: “Mamãe... morreu?”
Ela repetiu lentamente. De repente, sentiu uma pontada no coração. Ela se encolheu, agachando-se enquanto lágrimas grossas caíam no chão.
“Como isso pôde acontecer...”
Ao vê-la assim, Sabrina apenas soltou um “tsc”, virou-se, sentou-se novamente no sofá e cruzou as pernas.
“Você combina mesmo com aquele filho do Wang Qiang. Um idiota e uma boba, um par perfeito.”
“Como mais sua mãe poderia morrer?” Antes de completar, ela mudou de tom ao notar algo: “Morreu de doença, oras. Ninguém te avisou? Você também é muito ingrata.”
“Mas agora que você já sabe, não pretende voltar para dar uma olhada?”
As palavras de Sabrina despertaram Clara. Ela se levantou às pressas, tropeçando até o quarto, e pegou todo o dinheiro que Ricardo lhe dera nos últimos três anos.
Era uma pilha grossa enrolada em um lenço: dezenas de notas de cem, centenas de notas de dez, misturadas com moedas espalhadas. Os olhos de Sabrina brilharam ao ver.
“Você, que não faz nada em casa, tem mais dinheiro de pensão do que eu, que estou estudando.”
Ela mordeu os dentes e arrancou o dinheiro das mãos de Clara, deixando apenas um punhado de moedas para trás, como se estivesse dando esmola.
“Esse dinheiro basta para você voltar para casa. É perigoso para uma camarada viajar com tanto dinheiro; vou guardar o restante para você e te entrego quando voltar.”
Clara não duvidou e, apertando as moedas na mão, correu para a estação e comprou uma passagem para casa, ignorando o olhar de desprezo da bilheteira.
Ricardo tentou acompanhá-la, mas foi barrado por uma parede invisível.
Capítulo 36
“Clara! Clara!”
Ricardo gritava desesperado, socando a parede invisível com os punhos fechados, com o coração em chamas.
Ele sempre soube que Clara se importava muito com a mãe.
Agora, ela parecia tranquila, sem nenhum traço de tristeza aparente, mas eram as correntes submersas sob aquelas águas estagnadas que mais preocupavam.
Mesmo em um sonho, ele queria acompanhá-la.
Ou melhor, somente em sonhos ele podia estar ao lado dela.
Contudo, a silhueta de Clara desapareceu gradualmente de sua vista. Ele virou-se com desolação ao ver Sabrina colocando o dinheiro que roubara em sua bolsa.
Seu olhar escureceu, mas ele não ficou surpreso; afinal, ele já sabia quem era Sabrina.
Mas o Ricardo do sonho era diferente.
Ao voltar e ver Sabrina, ele não pareceu surpreso; pelo contrário, perguntou com preocupação: “Por que não avisou que voltava? Eu teria ido te buscar.”
Depois, olhou em volta da casa e perguntou franzindo a testa: “Onde está Clara?”
Sabrina escondeu as mãos nas costas e enrolou na resposta.
Ricardo apertou os punhos inconscientemente, soltou um suspiro e sorriu amargamente: “Ela foi embora?”
“Sim.” Sabrina suspirou com uma ponta de remorso fingido.
“Sinto muito, irmão He. Pan ela não ouviu meus conselhos. Assim que ouviu você falar em divórcio, arrumou suas coisas e saiu. Tentei convencê-la a reconsiderar, mas ela disse... ela disse...”
Ricardo respirou fundo e perguntou: “O que ela disse?”
“Ela disse que, de qualquer forma, não conseguiria um homem melhor que você na capital, então seria melhor voltar para a aldeia e ficar com o irmão Wang. Depois que disse isso, ela... ela pegou o dinheiro e fugiu.”
Ricardo não disse nada, apenas acendeu um cigarro em silêncio.
“Você acreditou assim tão fácil?” Ricardo, observando a si mesmo sentado no sofá, deixou escapar um bufo frio, sentindo uma frustração profunda.
A brasa vermelha queimou até o filtro, e o Ricardo do sonho apagou o cigarro, como se despertasse de um devaneio.
“Se ela quer ir, que vá.”
Ao ouvir isso, um brilho de triunfo passou pelo rosto de Sabrina.
Pouco depois de Ricardo sair, ela arrumou suas coisas e partiu. Desta vez, a barreira de ar na porta desapareceu.
Ao vê-la também comprar uma passagem para a aldeia na estação, Ricardo franziu as sobrancelhas. Ele não achava que a presença de Sabrina fosse algo bom.
E ele estava certo.
Quando chegaram à aldeia, Ricardo encontrou Clara na adega.
Ela estava amarrada, inconsciente, com um ferimento visível na testa. O coração dele disparou; ele tentou desesperadamente acordá-la, mas, não importava o que fizesse, ela não podia senti-lo.
Ele só podia ser um espectador impotente, assistindo a tudo acontecer.
Sabrina olhou de cima para baixo para Wang Qiang, que estava agachado no chão fumando.
“Onde ela está?”
Wang Qiang apontou com o cigarro em direção à adega, indiferente: “Está lá dentro, quase morta.”
“Aquele sujeito chamado He realmente não se importa mais com ela?”
Wang Qiang olhou de lado para Sabrina, com olhos maliciosos brilhando.
“Eu sempre disse a ele que essa Clara é uma mulher promíscua e interesseira, e que ela ainda tem um amante de infância na aldeia.”
“Uma mulher tão calculista e sem vergonha, mesmo que Ricardo gostasse dela, ele nunca admitiria.”
“Além disso, a mãe dela não foi morta por você? Ninguém mais a protege, faça o que quiser com ela.”
“Certo!” Wang Qiang deu um sorriso, mostrando os dentes amarelados, e levantou-se.
Ele mal começou a caminhar em direção à adega quando foi puxado por Sabrina.
“Ei, tio Wang, não tenha tanta pressa. Onde estão os quinhentos reais de gratificação que você prometeu?”
“Gratificação?” Wang Qiang sacudiu a mão dela, com os olhos injetados: “Quando foi que eu prometi te dar uma gratificação!”
“Há três anos! Você disse que, se eu trouxesse Clara para você, me daria quinhentos reais. Você não pode negar essa dívida agora!”
“Vai se danar! Isso foi há três anos! Agora ela já foi casada, é uma mercadoria usada por outro! Quinhentos reais? Ela não vale nem um centavo!”
Capítulo 37
A conversa do lado de fora despertou Clara. Ela abriu os olhos, grogue, bem no momento em que Wang Qiang entrava na adega.
Seus olhos clarearam num instante, e ela começou a arrastar-se para trás, mexendo os braços e pernas rígidos, mas naquele porão estreito, ela não tinha para onde escapar.
“Rasga——”
Sua roupa foi arrancada, expondo uma grande parte de sua pele alva.
Clara chorava loucamente, implorando e lutando, mas era inútil. Irritado com seus gritos, Wang Qiang deu-lhe um tapa violento. Seu rosto virou para o lado imediatamente, e o canto de sua boca começou a sangrar.
Ricardo sentia-se em brasas, mas não conseguia ajudar em nada.
Afoito, Wang Qiang desamarrou a corda das pernas de Clara e suas mãos sujas tocaram a cintura dela. Clara, porém, não se sabe de onde tirou forças, empurrou Wang Qiang e começou a subir a escada.
“Maldita!” Wang Qiang praguejou e avançou para agarrar o tornozelo dela, mas levou um chute em resposta.
Ela conseguiu subir!
Justo quando Clara reencontrava a luz do dia, um golpe de porrete atingiu suas costas. Quem o desferiu era Sabrina.
Clara caiu no chão imediatamente, arrastando-se para a porta, com lágrimas escorrendo profusamente, balbuciando sem parar: “Mamãe... mamãe...”
Sabrina, furiosa, chutou as costas de Clara e agarrou seu cabelo com ferocidade. Ao ver aquele estado deplorável, ela finalmente sorriu com sinceridade.
“Você não sabe por que Ricardo te odeia tanto?”
Ela encarava fixamente os olhos de Clara, como uma serpente com a língua de fora, mas a visão de Clara estava envolta em uma névoa de sangue; ela não via nada.