“Há dois anos, agradeço imensamente ao camarada Ricardo pela generosidade de pagar a conta do hospital da minha mãe. Sempre guardei essa gratidão. Já economizei quase todo o valor; basta um telefonema ou um telegrama e eu enviarei para você. Não precisa vir pessoalmente.”
Dito isso, a imagem de Ricardo mudou instantaneamente de candidato a genro para cobrador de dívidas que viajou milhares de quilômetros para cobrar o que lhe deviam.
As tias que antes o elogiavam mudaram o tom.
“Nossa, que quantia seria essa para precisar vir da capital?”
“Rapaz, que trabalho desnecessário. Já conhecemos bem a Clara, ela não é de dever dinheiro.”
“É verdade. Ela é uma moça sozinha cuidando da mãe, não é fácil. Se ela tivesse o dinheiro, teria pago. Você está... pressionando demais.”
Todos falavam ao mesmo tempo. Ricardo fechou a cara e me puxou para fora.
Na curva da escada.
“Clara, temos que chegar a esse ponto?”
Ricardo olhava para mim com os olhos trêmulos, mas minha atitude era fria e distante. Empurrei sua mão e dei um passo atrás para manter distância.
“Ricardo, você sabe que esse seu comportamento irracional me incomoda muito?”
Meu tom foi severamente rígido, sem dar a ele chance de rebater, como ele mesmo fazia antigamente.
“Eu disse que pagaria o dinheiro, e na última vez já devolvi uma parte, mas você não aceitou. Agora vem ao hospital da minha mãe causar cena, não acha que está passando dos limites?”
“Sim, na sua mente sempre fui uma mulher interesseira e leviana, então, por favor, fique longe de mim, pode ser? Não só não tenho intenções ocultas com você, como, se você não aparecer, eu nem lembro que você existe.”
“Não é isso... Clara, não foi o que eu quis dizer.”
Desta vez, quem ficou sem argumentos foi Ricardo.
“Ricardo, o que você está fazendo é totalmente desnecessário. Prefiro aquele Ricardo que me rejeitava sem piedade e me repreendia; pelo menos isso não me trazia esse peso.”
“Não como agora, onde parece que a pessoa errada sou eu.”
Minhas palavras foram cruéis.
Ricardo sentiu pela primeira vez a dor de não ser confiável, a incapacidade de se defender e a rejeição constante.
Seus olhos ficaram vermelhos, e seu olhar para mim carregava até uma ponta de súplica.
“Clara, sei que você ainda está com raiva de mim. Diga o que quiser, me bata, me xingue, mas, por favor, me dê uma chance de compensar, sim?”
Enquanto falava, ele tentou segurar minha mão, mas foi rejeitado com frieza.
Franzi a testa: “Ricardo, você é patético.”
Dito isso, virei as costas e saí da escada.
Ricardo deu um soco violento na parede; suas juntas sangraram instantaneamente.
Ele se sentia louco por amar alguém com tanta humildade, a ponto de querer voltar mesmo sendo rejeitado repetidamente.
Não que ele não tivesse pensado em desistir; aquele sentimento que tirava sua razão era perigoso demais. Ele suportou um ano sem ver, sem pensar, tentando arrancar Clara do coração.
Mas, por mais que a ferida sangrasse e doesse, ele não conseguia realmente desistir.
Era como se uma voz na sua cabeça repetisse sem parar:
Você não pode perder a Clara, caso contrário, passará o resto da sua vida em remorso.
Capítulo 27
Ao sair da escadaria.
Só então relaxei os punhos cerrados.
Eu não queria usar palavras tão afiadas para ferir Ricardo, mas não tenho forças para arcar com os riscos que o nosso convívio pode trazer. Só quero ficar longe dele e viver uma vida em paz.
“Ricardo, sinto muito.”
Depois de dizer isso, virei as costas e voltei para o quarto.
Apenas uma porta nos separava.
Ricardo ouviu meus passos se afastarem e baixou a cabeça em silêncio. Ele não entende por que sou tão resistente a ele, preferindo dizer palavras que não vêm do coração para afastá-lo do que dar uma nova chance a nós dois.
O som dos passos sumiu aos poucos. Ricardo soltou um suspiro preso no peito e disse com a voz rouca: “Não precisa pedir desculpas. Você não deve nada a ninguém.”
Quando voltei ao quarto, o ambiente estava silencioso.
Fu Jinxing estava sentado ao lado da cama de Helena, descascando uma maçã com uma pequena faca, transformando a casca em uma tira fina e contínua. Seus movimentos eram lentos, com um sorriso quase imperceptível no canto dos lábios, demonstrando uma paciência infinita.
“Clara, você voltou.”
Helena me chamou com um sorriso para sentar e, em seguida, olhou para Fu Jinxing com ternura e aprovação: “Jinxing é realmente cuidadoso. Quem se casar com você no futuro terá muita sorte.”
Fu Jinxing sorriu sem responder, apenas me lançou um olhar que não era exatamente inocente.
Nesse um ano e pouco de convivência, qualquer um perceberia que Fu Jinxing tem interesse em mim, mas como nunca oficializamos nada, Helena também se preocupa.
Especialmente agora, com o aparecimento de Ricardo.
Minha impressão sobre Ricardo não é nada boa.
Olhei para Fu Jinxing; ele estava concentrado em suas mãos. A luz do sol entrava pela janela, banhando seu perfil firme com uma aura dourada suave.
Ele é, de fato, um homem maravilhoso.
Baixei a cabeça e suspirei silenciosamente. No entanto, não consigo superar meus próprios obstáculos internos e não posso prejudicá-lo.
Enquanto pensava, vi Fu Jinxing levantar-se, oferecer o prato de maçãs picadas a Helena e dizer com bom humor: “A sorte de se casar comigo, só Clara pode desfrutar.”
Ao ouvir isso, Helena esqueceu-se de mastigar e olhou para ele, atônita.
“Vocês... estão namorando?”
Fu Jinxing sorriu e assentiu: “Sim, tia. Estamos namorando. Pretendíamos contar à senhora quando saísse o resultado do vestibular de Clara, para comemorar em dose dupla.”
Ele envolveu meus ombros com um pouco mais de firmeza. Entendi o recado e, com o canto do olho, olhei para o corredor, encontrando o vulto sombrio que observava através do vidro.
Mordi os lábios e não contestei.
Do lado de fora.
Ricardo encostou-se na parede fria do hospital, sentindo uma dor profunda no peito, como se tivesse levado um soco.
Então, Clara e Fu Jinxing já estavam namorando.
Porque ela não gosta dele, o que aconteceu no passado perdeu a importância, e é por isso que ela tinha tanta pressa em se desvincular dele.
Ele inclinou a cabeça para trás contra a parede e fechou os olhos lentamente.
“Clara, o que eu devo fazer...”
As risadas no quarto demoraram a cessar.
Quando Fu Jinxing me levou para fora, Ricardo já havia ido embora.
Retirei minha mão discretamente e segui em silêncio ao lado de Fu Jinxing até entrarmos no carro: “Irmão Jinxing, na verdade, você não precisava ter feito isso.”
Minha voz era baixa, carregada de uma culpa contida, como uma criança que cometeu um erro, torcendo os dedos com impotência.
Fu Jinxing riu levemente: “Você nem acha que estou me aproveitando de você.”
Ele brincava, mas logo seu sorriso desapareceu. Seus olhos escuros estavam sombrios, e sua garganta mexeu, como se quisesse dizer algo mas hesitasse.
No fim, a única coisa que saiu foi:
“Apenas finja. É melhor do que tê-lo te perseguindo o tempo todo.”
Capítulo 28
Na verdade, Fu Jinxing sabia muito bem.
Ele era quem mais queria manter aquela farsa, mas o que aconteceu entre mim e Ricardo talvez fosse muito mais complexo do que ele imaginava.
Esse desconhecido o deixava inquieto, a ponto de forçar Ricardo a desistir dessa maneira.
Olhei para a paisagem lá fora e não disse mais nada.
“Está tudo bem. Quando Ricardo for embora, explicarei tudo à tia. Você não precisa se sentir pressionada.”
Não respondi. Após um tempo, respirei fundo e disse: “Irmão Jinxing, eu...”
As palavras de desculpa e rejeição não chegaram a sair, pois foram interrompidas por Fu Jinxing.
“Eu sei, Clara. Não estou te forçando a tomar uma decisão, nem precisa ter pressa para me rejeitar. Eu posso esperar, o tempo que for necessário. Gosto de você porque você é incrível, não precisa se desculpar.”
Mordi os lábios e baixei o olhar.
Fu Jinxing é sempre assim; parece brincar com um ar desleixado, mas cuida de tudo discretamente. Aquelas emoções e hesitações que nunca pronunciei, ele percebe e compreende.
“Irmão Jinxing, obrigada.”
Levantei a cabeça e agradeci sinceramente.
Os dias foram passando.
Num piscar de olhos, o ano novo se aproximava.
Minha pequena varanda estava coberta de neve, e as flores que floresceram no verão haviam adormecido.
“Toc, toc-toc.”
Bateram na porta. Enquanto trançava o cabelo, caminhei rapidamente para abrir.
No momento em que a porta se abriu, Fu Jinxing sorriu e fez um gesto com a mão.
“Você está pronta rápido. Sente-se um pouco, já vou.”
Disse às pressas, virei a cabeça e corri para a penteadeira, trançando o cabelo ainda mais rápido.
Fu Jinxing sentou-se no sofá, com as pernas cruzadas, e pegou o jornal que eu tinha visto de manhã — dizia que mulheres sem-teto apareciam em vários pontos da cidade do Sul.
Ele dizia “não tenha pressa”, mas seu olhar não desviava de mim.
Minha silhueta se movia diante do espelho, com uma sensação de felicidade e estabilidade.