Agradeço aos céus pela segunda chance, agradeço ao destino por me fazer encontrar pessoas tão boas. Tudo o que recebi aqui se tornará o auge do verão que acompanhará toda a minha vida, sustentando-me através dos invernos rigorosos do passado e do futuro.
“Trim—”
“O tempo de exame terminou. Por favor, parem de escrever.”
Fechei a caneta, encerrando os dois dias de batalha.
Capítulo 24
Ao sair da sala de exame.
Avistei Fu Jinxing na multidão de imediato. Alto, com traços marcantes, ele se destacava como uma garça entre os patos.
Muitos pais esperando pelos filhos o cercavam, perguntando sobre sua vida pessoal.
Ao encontrar meu sorriso, ele brilhou o rosto e acenou para mim.
“Clara, aqui!”
Atravessei a multidão e cheguei com dificuldade ao lado de Fu Jinxing, sendo empurrada por alguém e tropeçando em seus braços.
Fu Jinxing aproveitou para me abraçar, protegendo-me com o braço enquanto caminhávamos devagar.
Ricardo estava coberto de neve. A multidão agitada passava por ele enquanto ele permanecia parado, observando as costas deles dois se afastarem abraçados por um longo, longuíssimo tempo.
“Camarada, você está esperando alguém? Não há mais candidatos lá dentro.”
Ao ouvir o porteiro, ele moveu seus membros rígidos e caminhou devagar para o carro.
Do outro lado.
Caminhávamos lado a lado na neve.
Flocos de neve caíam sobre nossos ombros. À frente, o branco sem fim; atrás, duas filas de pegadas, uma grande e uma pequena.
“Por que você veio sozinho hoje?”
Coloquei as mãos perto da boca e soprei para aquecê-las. Meu rosto estava vermelho de frio, mas o sorriso não parava, uma sensação de alívio sem precedentes.
“Imaginei que você talvez quisesse caminhar um pouco, então não vim de carro. Estão preparando comida em casa para comemorar.”
Fu Jinxing dizia isso enquanto tirava suas luvas de couro e as colocava em minhas mãos.
A neve caía em meus cílios curvos, refletindo as estrelas em meus olhos, piscando de uma forma que fazia o coração disparar.
“Você... me deu suas luvas, não está com frio?”
Os olhos de raposa de Fu Jinxing se curvaram, sua voz não era alta, mas clara o suficiente para eu ouvir.
“Tenho um método para que nenhum de nós fique com frio.”
Pisquei e inclinei a cabeça para olhá-lo.
“Esta luva na sua mão esquerda, esta luva na minha mão direita.”
Enquanto falava, ele ajustou as luvas em mim.
Olhei para minha mão direita vazia e para a mão esquerda de Fu Jinxing. Quando ia perguntar o que faríamos com as outras mãos, ele segurou a minha e fez menção de colocá-la dentro de seu bolso.
Foi nesse momento que um par de luvas surgiu ao lado.
O rosto fechado de Ricardo apareceu de repente.
“Use as minhas, tenho dois pares.”
Dito isso, antes que Fu Jinxing pudesse reagir, ele puxou minha mão e, em um piscar de olhos, trocou minhas luvas por um par novo que servia perfeitamente.
A luva grande de Fu Jinxing foi empurrada de volta para o bolso dele.
Fu Jinxing, recuperando-se do choque, explodiu de raiva e, apontando para Ricardo, gritou: “Você está doente ou o quê?”
Ricardo, com o rosto sombrio, lançou-lhe um olhar desdenhoso: “Falta de vigilância. Algumas pessoas têm o raciocínio lento mesmo sem beber.”
Os punhos de Fu Jinxing estalaram, e o olhar de Ricardo era frio como uma lâmina.
Vendo que a situação estava esquentando, intervi rapidamente entre os dois e balancei a manga de Fu Jinxing.
Fu Jinxing olhou em meus olhos, e a raiva dissipou-se pela metade. Ignorando Ricardo, ele me abraçou pelos ombros e começou a caminhar.
Ricardo, contudo, não desistiu; deu um passo à frente, bloqueando nosso caminho.
“Está frio, vou levar vocês.”
Antes que Fu Jinxing pudesse responder, recusei prontamente: “Não precisa, queremos caminhar e espairecer.”
Ricardo assentiu sem expressão e não disse mais nada, apenas passou a nos seguir silenciosamente.
O que fez com que nós dois sentíssemos um calafrio na espinha, apesar do inverno.
Fu Jinxing, rangendo os dentes de raiva, não aguentou mais. Virou-se e desferiu um soco, forçando Ricardo a desviar e se afastar.
“Seu He, o que você afinal quer fazer!”
Capítulo 25
Ricardo não mudou a expressão, e seu tom permaneceu calmo: “Apenas caminhar, espairecer.”
“Não, você é um imitador agora? Se quer caminhar, vá para outro lugar. O que significa nos seguir? Está bancando o fantasma?”
Ricardo lançou-lhe um olhar, sério como um velho burocrata aposentado.
“Promovendo superstição feudal, isso é ilegal.”
“Você está fazendo isso de propósito, não está? O que foi? Quer brigar?” Fu Jinxing estava furioso. Se não fosse por mim, ele provavelmente já teria dado dois socos nele.
“Sem organização, sem disciplina”, continuou Ricardo, subindo o nível.
Um conflito era inevitável, e perdi a paciência como raramente acontece.
“Chega! Não vai acabar nunca? Você é uma criança para ficar implicando desse jeito?”
A expressão de Ricardo finalmente mudou. Um vislumbre de mágoa surgiu em seus olhos, e ele baixou a cabeça, derrotado, com a voz bem baixa: “Eu só achei que o tempo estava frio e queria te levar para casa.”
“Se Clara quisesse ir para casa, eu não poderia levá-la? Você está querendo aparecer. Ela terminou a prova hoje, queríamos apenas caminhar e relaxar, você tem que vir aqui para estragar tudo?”
“Você é um cafajeste.”
Fu Jinxing não aguentou e revirou os olhos. Se não fosse pela minha presença, ele teria partido para a briga. Esse jeito dele, bancando o coitado, era irritante demais.
“Esquece, irmão Jinxing, não quero mais caminhar.”
Segurei a manga de Fu Jinxing, com a cabeça baixa e desanimada. Meu bom humor tinha ido por água abaixo.
Meio minuto depois.
Fu Jinxing e eu sentamos no banco de trás do jipe de Ricardo, mas ele demorava a dar a partida.
Percebendo que eu o observava, ele finalmente disse: “Clara, você costumava sentar na frente.”
Fu Jinxing perdeu a paciência e deu um chute no banco do motorista: “Dá para dirigir ou não? Se não dá, eu dirijo!”
“Está bem, dirija você.”
Ricardo saiu do carro com agilidade e abriu a porta traseira, com a clara intenção de fazer Fu Jinxing ceder o lugar.
“Bom, bom, bom.”
Fu Jinxing sibilou entre os dentes.
Ao preparar-se para sair, ele viu que Ricardo não tinha fechado a porta. Seus olhos giraram e ele começou a suspeitar.
Aquele sujeito é ardiloso desde pequeno. Ele não estaria tentando enganá-lo para sair, entrar no banco do motorista e levar Clara embora à força?
Ele olhou para Ricardo, cada vez mais certo de sua suposição.
De fato, quem melhor te conhece é o seu rival.
Quando Fu Jinxing, com suas pernas longas, atravessou do banco de trás para o do motorista, Ricardo soube que seu plano falhara. Ficou um pouco desapontado, mas consolou-se pensando que, pelo menos, poderia sentar atrás comigo.
Infelizmente, sob o olhar dele, eu abri a porta e sentei no banco do passageiro.
No banco de trás, só ficou aquele par de luvas que eu deixara para trás de propósito.
Fu Jinxing deixou escapar um sorriso frio. Com uma mão no volante, olhou para trás e perguntou com ar triunfante: “Vai ou não?”
No entanto, assim que Ricardo se preparava para subir, Fu Jinxing pisou no acelerador e disparou.
“Ainda querendo me enganar? Precisa comer mais arroz para aprender! Hoje vou te mostrar o que significa sair perdendo por todos os lados!”
A força da arrancada me assustou. Olhei para trás e vi Ricardo correndo atrás do carro, até que sua silhueta se tornou um ponto minúsculo.
Virei-me e, de repente, achei a situação engraçada.
“Irmão Jinxing, não imaginava que você fosse tão infantil.”
Ele sorriu sem responder, diminuindo a velocidade e dirigindo com suavidade.
Apoiei-me na porta e, observando a paisagem recuando, soltei um suspiro longo.
Para mim, quando decido deixar algo para trás, não há volta. Comparado ao Ricardo de agora, prefiro que ele continue sendo aquele homem que me tratava com desprezo.
Este novo Ricardo, ao contrário, só me deixa desconcertada.
Fechei os olhos e pensei: o vestibular acabou, preciso encontrar um emprego em tempo integral, economizar dinheiro e quitar essa dívida o quanto antes.
Capítulo 26
Pensei que minha indiferença faria Ricardo desistir.
Para minha surpresa, no dia seguinte, ao chegar ao hospital, vi na frente da cama de Helena alguém que eu não queria ver.
“Nossa, irmã Helena, que sorte a sua! O rapaz que sempre vem com a Clara é de uma família muito boa, e este rapaz aqui é um oficial que veio da capital, impressionante!”
“Clara é bonita, é normal ter vários pretendentes. Hoje em dia, tudo se baseia nesse tal de amor livre!”
Helena, recostada na cama, ria sem jeito.
Se minhas pernas não estivessem em um estado complicado, eu teria corrido mais rápido do que qualquer um. Ao vê-lo, senti como se visse um salvador.
“Clara, você chegou.”
Helena olhava para mim, mas seus olhos insistiam em lançar olhares para Ricardo, piscando freneticamente.
Respirei fundo, caminhei até ele com dignidade e lancei-lhe um sorriso. Em seguida, sob seu olhar esperançoso, fiz uma reverência.