Não se pode buscar a felicidade em alguém que não te ama. Devemos nos agarrar àqueles que dedicam carinho a nós; assim, mesmo que passemos por dificuldades, não será tão doloroso.
Pensei que, uma vez que tivesse entendido isso, me sentiria em paz. Mas, parada do lado de fora, uma inquietação inexplicável tomava conta de mim.
Nesse momento, vi a atendente do hotel correr desesperadamente em minha direção: "Senhorita Clara! Vá para o hospital! Sua mãe foi espancada e está sem sinais vitais!"
Capítulo 3
Minha mãe é a única pessoa neste mundo que me ama incondicionalmente.
Corri para a sala de emergência com o peito doendo como se fosse explodir.
O barulho agitado do hospital se transformou em um zumbido nos meus ouvidos. Respirando com dificuldade, parei um médico: "Mé... médico, como está a minha mãe?"
Um vislumbre de compaixão passou pelos olhos do médico: "Você é da família de Helena? Não se preocupe, a paciente ainda está sendo operada."
Minhas pernas vacilaram, mas me apoiei na parede para não cair.
O pessoal da pousada disse que ela saiu de manhã e foi arrastada para um beco deserto, onde foi espancada.
Ninguém viu quem foi. Eles já avisaram à polícia e disseram que, quando pegarem o culpado, ele será punido severamente.
Eu não conseguia entender como as coisas chegaram a esse ponto.
Nós duas tínhamos acabado de chegar ao Rio de Janeiro e não tínhamos dinheiro algum; quem tentaria matar minha mãe?
Por que tinham que perseguir justamente a mim?
O tempo passava segundo a segundo, e a porta da sala de cirurgia não se abria.
Ricardo, ao saber da notícia, correu para a emergência. Assim que chegou, viu a figura frágil encostada na parede, com o corpo tenso e imóvel, fixada na porta da cirurgia.
Seu rosto frio e duro suavizou de repente: "Clara."
Uma sombra imensa me cobriu. Ergui a cabeça, e meus olhos vermelhos fizeram o coração de Ricardo suavizar por um instante.
Mas, antes que ele pudesse falar, dei um passo para trás: "Capitão, se o senhor veio aqui para me alertar de novo, não precisa dizer nada. Por favor, fique tranquilo: não tenho a menor intenção de ter segundas intenções com o senhor."
Essa atitude era o que Ricardo desejava, mas, por algum motivo, o gosto daquilo em seu coração não era nada bom.
"Ouvi sobre o que aconteceu com sua mãe. A instituição me enviou para colaborar com a polícia na investigação. Você precisa me contar com quem vocês tiveram contato nos últimos dias."
Assenti, com a voz embargada: "Está bem."
Eu ainda mantinha o corpo tenso, meus pés tremiam, mas me recusava teimosamente a demonstrar qualquer fraqueza, como um bambu atingido pela tempestade, mas que permanecia ereto.
Essa versão de mim era completamente diferente da mulher estúpida que ele pensava que tentava seduzi-lo.
Talvez o livro que ele me deu tenha me despertado?
Mas, agindo assim, eu me parecia mais com uma descendente de militar.
"Aqui não é lugar para conversar. Venha comigo."
Não dei um passo, mantendo meus olhos na sala de cirurgia.
Eu estava preocupada.
Ricardo me encarou por alguns segundos e, de repente, segurou meu pulso com um gesto quase reconfortante: "Fique tranquila, há pessoas cuidando daqui."
"Se esclarecermos a situação logo e pegarmos o suspeito, sua mãe estará segura mais cedo."
Sem dar espaço para recusas, ele me levou para a sala de descanso.
Antes de me interrogar, Ricardo serviu um copo de água morna para mim. Provavelmente, essa foi a primeira vez, em duas vidas, que ele demonstrou alguma gentileza.
Mas eu não sentia nada em relação a isso.
Minha mente estava ocupada com Helena, na sala de emergência. Aqueles poucos minutos foram extremamente angustiantes.
Assim que o interrogatório terminou, saí apressadamente da sala.
Ao chegar ao corredor, fui informada por um enfermeiro: "Senhorita Clara, a cirurgia da sua mãe terminou. Ela não corre mais perigo e foi transferida para o quarto 302, no setor B deste mesmo andar."
Agradeci mil vezes e me dirigi ao quarto.
Mas, quando eu estava prestes a chegar à porta do 302, alguém surgiu da escada e me puxou.
Ao virar, encontrei um olhar carregado de maldade.
Não era outro senão Beto, meu padrasto, que deveria estar no interior!
Antes que eu pudesse falar, Beto apontou o dedo para o meu nariz e gritou: "Sua garota desgraçada! Você me abandonou para vir para a cidade grande! Por sua causa, meu filho tentou se suicidar!"
Capítulo 4
Ele me puxava sem soltar e, aproveitando que Helena ainda não tinha acordado, começou a inventar mentiras.
"O que meu filho te fez de mal? Ele sempre te tratava com o que tinha de melhor, e você? Você quer matá-lo!"
"Você vive ouvindo os conselhos daquela sua mãe desgraçada. Olhe para você, uma mulher que já se deitou com meu filho, você acha mesmo que o filho de um Comandante olharia para você?"
"Venha comigo! Vamos voltar para a vila!"
As pessoas ao redor, que antes pretendiam me ajudar, recuaram.
Eu tremia de raiva.
Aquele filho idiota de trinta anos que ainda fazia xixi na cama... ele tinha a audácia de usar isso para espalhar boatos?
Se eu não entendesse quem tinha batido na minha mãe até agora, teria vivido as duas vidas em vão.
"Beto! Vamos embora sim! Vamos para a delegacia. Você espancou minha mãe até ela parar na UTI, é tentativa de homicídio e difamação! Vou te processar até você apodrecer na cadeia!"
Eu parei de lutar, e Beto, sentindo-se culpado, soltou meu braço.
Nesse momento, Sabrina apareceu no final do corredor e começou a falar com falsidade: "Clara, você está sendo grosseira demais. Nem eu, que sou da mesma vila, consigo suportar ouvir isso."
"Seu padrasto te criou com tanto esforço, te tratou melhor do que o próprio filho, como você pode dizer que quer mandá-lo para a prisão?"
Atrás de Sabrina, Ricardo a seguia.
A posição de Sabrina confirmou as acusações de Beto.
E, claro, Ricardo, que antes parecia disposto a ajudar, agora não tinha a menor intenção de intervir a meu favor.
Diante de Sabrina, quer fosse verdade ou mentira, eu não tinha a menor chance de vencer.
Eu ri com escárnio: "Sabrina, você não tem medo de ser castigada pelo que diz?"
Todos na vila sabiam que, depois que minha mãe se casou com Beto, ela não teve um único dia de paz.
"Sua garota desgraçada, venha logo comigo!"
Ao ver que Ricardo não me ajudava, Beto arregaçou as mangas e me puxou à força.
"Solte suas mãos sujas!"
Dito isso, houve um som de tecido rasgando. Beto tinha rasgado minha blusa.
Uma grande parte da minha pele branca ficou exposta, e Beto arregalou os olhos.
Ricardo, com reflexos rápidos, tirou o casaco, cobriu meu corpo, me abraçou e lançou um olhar cortante para Beto.
Beto, intimidado pelo olhar de Ricardo, recuou instintivamente e não ousou avançar.
Aquele puxão de Beto despertou o pesadelo da minha vida passada.
Na vida anterior, depois que Ricardo se divorciou de mim, fui forçada a me casar com o filho idiota de Beto.
Pai e filho rasgaram minhas roupas com a mesma brutalidade, e quando resisti, fui espancada até a morte.
A raiva e a repulsa de duas vidas se transformaram em uma força incontrolável. Avancei loucamente contra Beto: "Beto! Seu animal!"
"Você batia na minha mãe dia sim, dia não, e agora vem criar confusão no hospital! Tenho certeza que foi você quem a feriu! Eu vou fazer você pagar com sua vida!"
Mas Ricardo me segurou com força: "Tenha calma!"
"Me solte! Não preciso da sua ajuda!"
Minha aparência insana fez com que todos se afastassem. Sem opção, Ricardo me pegou nos braços e me levou à força de volta para a sala de descanso, fechando a porta com o pé.
Dentro da sala.
Ricardo me pressionou contra a cama de repouso dos médicos enquanto eu lutava, e despejou um copo de água fria em meu rosto.
Um calafrio me percorreu e parei de lutar.
"Se acalmou?"
Estávamos muito próximos, sentindo a respiração quente um do outro.
Não tive nenhum pensamento romântico; com o rosto frio, empurrei-o: "Não se preocupe com meus assuntos, Capitão."
Ricardo franziu a testa, os lábios apertados com irritação.
Levantei-me para sair, mas o ombro da farda dele enganchou na alça da minha blusa; com um puxão seco, a alça arrebentou!
Capítulo 5
Eu estava com a parte da frente do corpo completamente exposta.
Ricardo desviou o olhar imediatamente e virou-se de costas.
No entanto, a cena que acabara de presenciar parecia gravada em sua mente, forçando-o a lembrar daquele dia e daquela noite no trem.
Naquela época, para evitar um escândalo, ele não podia pedir ajuda, então me manteve pressionada contra o cobertor até que eu me acalmasse. Mesmo que eu estivesse vestida, no atrito, ele ainda conseguia sentir a maciez diferente da de um homem...
De costas para mim, ele pigarreou: "Fique com meu casaco. Vista-se direito antes de sair."
Dito isso, ele abriu a porta e saiu, com os passos um tanto irregulares.