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《A Voz no Caixão》PARTE 14

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O amanhecer em Guarujá não trouxe paz. O céu continuava cinzento, pesado, como se a própria cidade estivesse segurando a respiração após tudo o que havia acontecido dentro daquela propriedade isolada dos Vasconcelos.

O mar ao longe batia com força contra as pedras, mas dentro da sala médica secreta, o som parecia distante, quase inexistente.

Isabela Vasconcelos permanecia sentada na cama hospitalar improvisada, os sensores ainda ligados ao seu corpo.

Os monitores piscavam em ritmo irregular, como se não conseguissem decidir se aquilo era vida estável ou instabilidade iminente.

Sua respiração era mais forte do que antes, mas seus olhos carregavam uma confusão profunda, como se cada segundo fosse um esforço para reconstruir algo que havia sido quebrado por inteiro.

Ricardo estava ao lado dela.

Ele não se movia.

Não piscava.

Apenas observava.

Como se qualquer gesto pudesse quebrar novamente aquilo que mal havia retornado.

Dr. Augusto Menezes permanecia alguns passos atrás, encostado em um dos equipamentos médicos. Ele não interferia. Apenas observava o resultado de algo que parecia ter saído do controle, mesmo para ele.

No corredor externo, Ana Clara Nascimento estava parada, imóvel, olhando através do vidro da porta.

Ninguém a havia mandado entrar.

Mas ela também não precisava mais de permissão.

Isabela piscou lentamente.

Como alguém tentando lembrar como se faz isso.

Ela virou o rosto devagar, primeiro para o teto, depois para os lados, até finalmente encontrar Ricardo.

Houve um silêncio estranho.

Não era apenas ausência de som.

Era ausência de reconhecimento.

Ricardo deu um passo à frente.

“Isabela… sou eu.”

A voz dele estava quebrada.

Ela o encarou por alguns segundos.

E então falou.

“Você…”

Silêncio.

Ela tentou organizar o pensamento.

Mas algo dentro dela parecia fragmentado.

Como peças fora de ordem.

Ricardo segurou a mão dela com cuidado.

“Está tudo bem agora. Você está em casa.”

Mas Isabela não reagiu como esperado.

Ela olhou para a própria mão.

Como se não tivesse certeza de que aquilo lhe pertencia.

Atrás dela, os monitores começaram a emitir pequenos sinais de instabilidade.

Dr. Augusto observou.

E murmurou:

“Ela não está completamente integrada.”

Ricardo virou o rosto imediatamente.

“Integrada com o quê?”

O médico não respondeu de imediato.

Isabela fechou os olhos por um segundo.

E quando abriu novamente, algo havia mudado.

A respiração ficou mais curta.

A expressão mais pesada.

E então ela falou de forma mais firme.

“Eu lembro de estar… em outro lugar.”

Ricardo ficou imóvel.

Ela continuou, lentamente.

“Escuro… mas não vazio.”

Silêncio.

“Alguém me chamava… mas não era só uma voz.”

Ela apertou a própria cabeça.

“Era como se tivesse outra presença comigo.”

Ana Clara, do outro lado do vidro, deu um passo à frente.

Ricardo percebeu.

“Fique aí,” ele disse sem virar o rosto.

Mas Ana não respondeu.

Ela apenas observava.

Isabela abriu os olhos novamente.

E dessa vez, olhou diretamente para Ricardo.

Por mais tempo.

Mais profundo.

E então a frase veio.

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“Você me enterrou viva.”

Silêncio imediato.

Ricardo congelou.

A cor saiu do rosto dele.

“Eu… eu não…”

Mas Isabela não terminou de olhar para ele.

Ela desviou o olhar lentamente.

Como se algo mais importante chamasse sua atenção.

Ela virou o rosto para o vidro.

Para Ana Clara.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

Ana Clara não se mexeu.

Isabela a encarou por alguns segundos longos demais.

E então falou.

“Você me salvou… ou me condenou?”

Ana Clara respirou fundo.

Mas não respondeu.

Dr. Augusto deu um passo à frente.

“Ela está recuperando memórias fragmentadas,” ele disse baixo.

Ricardo virou-se imediatamente.

“Fragmentadas de quê?”

O médico hesitou.

“Do processo de desconexão.”

Isabela fechou os olhos novamente.

E então o corpo dela pareceu reagir de forma involuntária.

Um leve tremor.

Os monitores começaram a acelerar.

“Não…” ela sussurrou.

Ricardo segurou mais forte a mão dela.

“Olhe para mim.”

Ela olhou.

Mas havia algo diferente agora.

Como se estivesse vendo mais do que apenas ele.

“Tem algo… faltando,” ela disse.

Silêncio.

Dr. Augusto observou os monitores.

E murmurou:

“Isso está acelerando.”

Ana Clara deu mais um passo.

E desta vez, falou.

“Isabela…”

A voz dela estava quebrada.

Isabela virou o rosto lentamente.

Houve um segundo de silêncio absoluto.

E então Isabela sussurrou:

“Agora eu lembro de tudo…”

Ricardo ficou completamente imóvel.

Ela respirou fundo.

E continuou:

“…e isso é pior do que morrer.”

Os monitores começaram a emitir alerta contínuo.

BIP.

BIP.

BIP.

Dr. Augusto se aproximou rapidamente dos equipamentos.

“Isso não deveria estar acontecendo assim,” ele disse.

Ricardo virou-se para ele.

“O que você quer dizer?”

Mas o médico não respondeu.

Isabela levou a mão ao peito.

E fechou os olhos.

Por um instante, tudo pareceu estabilizar.

O som do mar ao longe voltou a ser perceptível.

Mas então…

os monitores mudaram novamente.

Um novo padrão apareceu.

Não individual.

Não isolado.

Algo no sistema começou a sincronizar.

Não apenas com ela.

Mas com outro ponto desconhecido fora da sala.

Isabela abriu os olhos uma última vez.

E olhou diretamente para Ricardo.

Mas não parecia mais olhar apenas para ele.

Era como se estivesse vendo outra coisa.

Outro lugar.

Outra presença.

E então ela sussurrou, quase sem voz:

“Ele também está acordando…”

Ricardo franziu a testa.

“Quem?”

Isabela não respondeu.

O monitor ao lado dela disparou um novo sinal.

E pela primeira vez desde o início de tudo, o sistema inteiro da clínica em Guarujá começou a emitir uma sincronização simultânea com um ponto externo que ninguém ali ainda tinha identificado completamente.

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