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《A Voz no Caixão》PARTE 8

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A noite em São Paulo não tinha mais a mesma sensação de normalidade desde o caso do caixão.

As ruas de Jardim Europa estavam silenciosas demais, como se a cidade tivesse aprendido a falar baixo para não chamar atenção do que estava acontecendo nos bastidores.

Ricardo Vasconcelos não havia dormido.

Ele dirigia sozinho.

Sem motorista.

Sem segurança.

O destino era um endereço que tinha aparecido duas vezes em relatórios diferentes, sempre com anotações apagadas: Clínica São Lucas – unidade privada de neuroobservação.

O GPS do carro falhou duas vezes no caminho.

Como se a própria cidade estivesse tentando impedir que ele chegasse.

Ao mesmo tempo, no Hospital Santa Cecília, o técnico Bruno Almeida observava novamente os logs do sistema.

A tela piscava intermitentemente.

Um alerta antigo tinha reaparecido:

“ATIVIDADE NÃO AUTORIZADA – PROJETO PR-07”

Bruno respirou fundo.

“Isso não acabou…” ele murmurou.

Mas naquele momento, outro registro surgiu automaticamente.

LOCAL EXTERNO DETECTADO:

Clínica São Lucas.

Ele congelou.

“Por que esse lugar de novo…”

Ricardo estacionou em frente à clínica.

A fachada era discreta, moderna, quase luxuosa demais para um centro médico. Não havia placas chamativas. Apenas vidro escuro e segurança privada na entrada.

Ele saiu do carro.

Um segurança tentou interceptá-lo.

“Senhor, não pode entrar sem autorização.”

Ricardo nem diminuiu o passo.

“Eu sou o dono do nome que está nos relatórios que vocês tentam esconder.”

O segurança hesitou.

Ricardo passou.

No interior da clínica, tudo parecia normal na superfície. Recepção silenciosa, iluminação branca, pacientes caminhando lentamente pelos corredores. Mas havia algo estranho no ritmo daquele lugar. Nenhuma conversa espontânea. Nenhum som fora de protocolo.

Ricardo caminhou até o balcão.

“Quero acesso aos registros internos,” ele disse.

A recepcionista sorriu de forma mecânica.

“Sem agendamento, não é possível.”

Ricardo inclinou o corpo para frente.

“Minha filha morreu ligada a este sistema.”

O sorriso dela não mudou.

“Senhor, isso não está no nosso banco de dados.”

Ele bateu a mão no balcão.

“Então atualizem.”

Silêncio.

No mesmo instante, em outro andar, um médico interno olhou para o monitor de segurança.

“Temos um Vasconcelos na recepção,” ele disse baixo.

Outro médico ao lado dele franziu a testa.

“Não deveria acontecer isso agora.”

O primeiro médico respirou fundo.

“Ele não deveria ter chegado aqui.”

Ricardo foi conduzido, sem permissão real, até um elevador lateral.

A recepcionista digitou um código.

“Apenas nível um,” ela disse.

Mas o elevador desceu.

E continuou descendo.

Muito além do nível um.

Ricardo olhou para os números.

“Isso não estava no mapa da clínica.”

A recepcionista não respondeu.

O elevador abriu.

E o ar mudou.

Frio.

Artificial.

O som da cidade desapareceu completamente.

Ricardo deu um passo para fora.

E viu.

Um corredor subterrâneo.

Luzes brancas contínuas.

Portas metálicas com códigos numéricos.

IS-01.

IS-02.

IS-03.

Ele parou imediatamente.

“Que lugar é esse…” ele murmurou.

Atrás dele, o elevador fechou.

Sem botão de retorno.

Sem painel visível.

Ele estava dentro.

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Do outro lado da cidade, Júlia Ribeiro também tinha recebido um acesso inesperado no sistema hospitalar.

Um arquivo apareceu sozinho na tela dela:

“CLÍNICA SÃO LUCAS – EXTENSÃO PR-07”

Ela engoliu seco.

“Isso não deveria estar aberto…”

Ricardo caminhou pelo corredor.

Cada porta tinha uma pequena janela de vidro escuro.

Ele se aproximou da primeira.

IS-01.

Olhou dentro.

Vazio.

Mas com marcas.

Equipamentos médicos.

Como se alguém tivesse sido retirado às pressas.

Ele passou para a segunda.

IS-02.

Mais sinais.

Mais sensores.

Mais registros apagados.

Ele começou a respirar mais rápido.

“Isso não é uma clínica…” ele disse.

Na terceira porta, algo diferente.

IS-03.

A luz interna estava acesa.

Ele se aproximou lentamente.

E olhou.

Leitos.

Três.

Mas apenas dois vazios.

O terceiro tinha fios conectados ainda ativos.

Um monitor apagado… mas ligado em standby.

Ricardo franziu a testa.

“Tem alguém aqui…”

Naquele momento, um alarme discreto soou no corredor.

Não alto.

Controlado.

Como se fosse interno.

Uma voz feminina automatizada ecoou:

“ATIVAÇÃO NÃO AUTORIZADA NO SETOR IS”

Portas começaram a travar automaticamente.

Ricardo virou-se.

“Ei! O que está acontecendo?”

No andar superior da clínica, médicos começaram a se mover rapidamente.

“Travar o subsolo!” alguém gritou.

Outro respondeu:

“Já está tarde.”

Ricardo tentou voltar ao elevador.

Bloqueado.

Tentou a escada.

Fechada por segurança eletrônica.

Ele respirou forte.

“Eles sabiam que alguém viria…”

No corredor IS, as luzes começaram a piscar.

IS-03 começou a emitir som baixo.

Um bip irregular.

O monitor interno acendeu sozinho.

Ricardo se aproximou.

“Isso não está desligado…”

Ele olhou para a tela.

E viu uma linha de dados aparecer lentamente.

IDENTIFICAÇÃO:

ISABELA VASCONCELOS

STATUS:

ATIVA

Ricardo congelou.

“Não…”

Ele deu um passo para trás.

Mas o sistema continuou atualizando sozinho.

Frequência cardíaca instável.

Resposta neurológica parcial.

E um último campo começou a carregar.

“LOCALIZAÇÃO DO SUJEITO: PRESENTE NO SETOR”

Ele virou lentamente o rosto para a porta IS-03.

O vidro escuro agora refletia apenas ele.

Mas atrás do vidro…

algo pareceu se mover levemente dentro do quarto que não deveria ter ninguém ativo há muito tempo.

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