Fiquei paralisada por um segundo.
"De quem foi o fígado?"
"O sistema de transplante de órgãos encontrou um doador compatível. A cirurgia de emergência foi realizada pela manhã, ocorreu tudo bem e a paciente já foi transferida para a ala de cuidados pós-operatórios."
"Você quer dizer que... chegou a vez dela na fila?"
"Sim. Foi antes do previsto; dois pacientes que estavam à frente desistiram por vários motivos, e a prioridade da sua mãe subiu."
Eu estava de pé na terra batida do canteiro de obras, rodeada pelo barulho das máquinas.
Ela sobreviveu.
Não por minha causa.
Não foi por causa do meu fígado.
Foi graças ao doador de um estranho no sistema.
"Quanto tempo levará a recuperação pós-operatória?"
"Se tudo correr bem, de três a seis meses. Mas o estado de saúde base dela não é bom, precisará de medicação de longo prazo."
"Certo. Entendido."
Desliguei o telefone e guardei o celular no bolso.
O mestre de obras esperava ao lado: "Srta. Clara, o que decidimos sobre a drenagem?"
"Mova vinte centímetros para o leste."
"Entendido."
Continuei analisando a planta.
Minhas mãos não tremiam.
Meu coração também não sentia nada em especial.
Apenas recebi uma notícia.
Ela sobreviveu.
Ao chegar em casa à noite, a Dona Helena já tinha preparado o jantar.
Uma tigela de costelinhas ao molho vermelho, um prato de vegetais salteados e uma sopa de ovo.
Sentei-me para comer e só falei algo na metade da refeição.
"Vovó, ela fez a cirurgia. Encontraram um doador."
Dona Helena colocou uma costelinha na minha tigela: "Sobreviveu?"
"Sobreviveu."
"Que bom."
"Que bom?"
"O que importa é viver. Não importa quem seja, viver é sempre melhor do que morrer."
Mastiguei a carne em silêncio.
"Você se sentiu aliviada, não foi?"
"Não."
"Sentiu, sim." Dona Helena me observou. "Você se sentiu aliviada porque não precisa mais encarar a possibilidade de que 'ela morreu por sua causa'."
Pousei os palitinhos.
"Vovó, eu realmente não me sinto assim. Nunca achei que a morte dela tivesse algo a ver comigo."
"Você tem razão, não tem nada a ver com você. Mas você é uma criança bondosa. Pessoas bondosas não conseguem ser completamente indiferentes."
Tomei um gole da sopa de ovo.
"Aqueles 50 mil foram pagos por você, não foram?" Dona Helena perguntou de repente.
Engasguei.
"Como você sabe?"
"Achou que por estar velha, eu estou senil? Aquela garota, Lúcia, não tem língua presa, ela me contou."
"Eu disse a ela que era anônimo..."
"Ela contou para mim, não para outra pessoa. Eu não conto como 'outra pessoa', conto?"
Suspirei.
Dona Helena sorriu e deu tapinhas nas minhas mãos.
"Clara, você fez o que era certo. Não porque ela merece, mas porque você merece. Você merece ser alguém que não tem remorsos."
Abaixei a cabeça para continuar comendo.
Depois do jantar, lavei a louça e fui ficar um pouco na varanda.
A vista noturna da cidade se estendia diante de mim, com luzes densamente espalhadas.
O celular tocou; era Gustavo.
"Já soube?"
"Sim."
"Como se sente?"
"Não sinto nada."
"Mentirosa."
"... Me sinto aliviada. Satisfeito?"
Ele riu do outro lado da linha.
"Clara."
"Hum?"
"Isso significa que acabou?"
Pensei por um momento.
"Quase."
"E quanto ao jantar que te devo?"
"Quando foi que você me deveu um jantar? Você come no meu restaurante todos os dias."
"Eu disse, um jantar diferente."
Apoiei-me na grade da varanda; o vento soprava lá do alto.
"Sábado à noite."
"Combinado. Eu irei te buscar."
Desliguei o telefone e fiquei um tempo encarando a tela.
Meu rosto refletia na tela.
Não era bonito, não era deslumbrante.
Mas era resistente.
Era um rosto que sabia suportar as coisas.
Capítulo 26
A recuperação pós-operatória de Beatriz foi mais lenta do que o esperado.
Três meses se passaram e ela ainda estava hospitalizada.
O custo dos medicamentos imunossupressores era muito alto e, como a saúde base dela era precária, várias complicações surgiram uma após a outra.
As despesas médicas continuavam a subir.
Ricardo desapareceu.
Desapareceu completamente.
Desde que o tribunal ordenou a devolução do imóvel e as cartas de cobrança do banco chegaram às mãos dele, ele nunca mais foi visto nesta cidade.
Dizem que voltou para o campo, outros dizem que foi trabalhar no sul.
Ninguém se importa.
Lúcia trabalhou na "Nuan Shi Ji" por dois meses e foi promovida de lavadora de vegetais a auxiliar de preparo.
Suas habilidades não eram lá essas coisas, mas sua atitude era séria e ela nunca fazia corpo mole; a avaliação de Aze sobre ela mudou de "inútil" para "quebra um galho".
Uma noite, depois do expediente, ela estava passando pano no chão da cozinha enquanto eu passava por lá saindo do escritório.
"Clara." ela me chamou.
"Hum."
"Você sabe como minha mãe está?"
"Sei."
"Ela... ela pergunta por você depois da cirurgia. O enfermeiro disse que às vezes ela chama seu nome no meio da noite."
Parei por um momento.
"Ela não me chama. Ela chama a pessoa que pode resolver os problemas dela."
"Não." Lúcia largou o rodo e olhou-me seriamente.
"Da última vez que ela esteve lúcida, ela me disse uma coisa."
"O quê?"
"Ela disse: 'Lúcia, sua irmã adorava costelinha agridoce que eu fazia quando era pequena. Pergunte a ela se ela ainda gosta'."
Fiquei parada no corredor, com a luz refletindo intensamente no chão.
Costelinha agridoce.
Eu já não lembrava que ela tinha feito costelinha agridoce.
Do que eu me lembrava era do rolo de massa, do atiçador de fogo, do depósito de bagunça e daquele bolinho de massa.
"Eu não gosto." respondi.
Lúcia não disse mais nada.
Caminhei alguns passos e voltei.
"Mas pode dizer a ela que no meu restaurante existe um prato de costelinha agridoce que é uma receita de minha própria criação. É mais gostoso do que o dela."
Não voltei ao hospital.
Não por medo, mas porque não era mais necessário.
O que precisava ser dito já foi dito, o que precisava ser recuperado foi resgatado, e os laços que precisavam ser cortados já estavam praticamente rompidos.
Os 348 mil que Beatriz me deve estão sendo executados judicialmente, com desconto de dois mil mensais de sua pensão.
Nesse ritmo, levará quatorze anos para quitar.
Mas isso não importa.
O que importa é que aquela sentença está lá, escrita em preto no branco.
A dívida de 300 mil de Ricardo com o banco é como uma pedra de moinho em seu pescoço, e o banco o incluiu na lista de devedores inadimplentes.
Ele não pode comprar passagens de trem de alta velocidade, não pode viajar de avião, não pode abrir empresas.
Ele carregará o rótulo de "caloteiro" pelo resto da vida.
Meu segundo tio, Zhao Jianguo, depois que o projeto de demolição de Zhou Dafu fracassou — já que o conjunto habitacional do exército foi tombado como bairro histórico e não seria mais demolido — viu seus 150 mil de propina irem pelo ralo.
Zhou Dafu cobrou o dinheiro dele, mas ele não tinha como pagar.
No final, teve que vender seu pequeno supermercado na cidade para quitar a dívida.
Alguém que tentou tirar vantagem da herança de um mártir acabou perdendo seus próprios bens.
O lado da Tia Liu também silenciou.
Desde que a verdade foi exposta, ela nunca mais ligou para me criticar.
Certa vez, encontrei-a na rua; ela me viu de longe e desviou o caminho.
Todas as pessoas que vieram me cobrar "piedade filial" dispersaram-se, uma a uma.
Ninguém mais se atreve a subir no pedestal moral para apontar o dedo e dizer "ela é sua mãe biológica".
Porque todos já sabem —
O que minha mãe biológica fez.
O que meu padrasto fez.
O que meus parentes fizeram.
E o que eu — uma criança que apanhou por seis anos — fiz.
Eu sobrevivi.
Abri seis restaurantes, construí uma cozinha central, recebi 15 milhões em investimentos.
Abri uma loja de café da manhã ao lado do apartamento onde meu pai morava, servindo leite de soja e pães fritos gratuitamente para os idosos das famílias militares todos os dias.
Entre os idosos que vêm tomar café, há uma senhora de oitenta e poucos anos, vizinha do meu pai.
Cada vez que ela me vê, ela diz a mesma coisa:
"Clara cresceu, está a cara do pai."
Capítulo 27
No dia do terceiro aniversário da "Nuan Shi Ji", não fiz nenhuma comemoração.
Preparei uma mesa com pratos na primeira loja — aquele pequeno estabelecimento no beco do centro antigo com apenas seis mesas.
Não convidei muitas pessoas.
Dona Helena, Lúcia, Aze, Liu Tiezhu e três antigos companheiros de exército que o Tio Liu trouxe.
Além de Gustavo.
Ao todo, oito pessoas.
Fui eu mesma quem cozinhou.
Almôndegas de carne cozidas (Shizitou), robalo no vapor, vagem salteada, frango apimentado com óleo de pimenta (Jiaomaji) e uma sopa de pato velho com cogumelos. Por fim, adicionei uma sobremesa: lótus com arroz glutinoso e osmanthus.
Tudo baseado na técnica que Dona Helena me ensinou, mas com meus próprios aprimoramentos.
Liu Tiezhu comeu suando de tanto calor e disse "bom" três vezes seguidas.