O estabelecimento ficava em um beco da zona comercial, seguindo o estilo da primeira loja no centro antigo: seis mesas e, diariamente, apenas doze clientes atendidos.
No dia da inauguração, estava lotado.
A agenda de reservas já estava ocupada pelos próximos três meses.
Depois que o documentário de Fang Ran foi ao ar, a "Nuan Shi Ji" tornou-se um tipo de símbolo. As pessoas não vinham apenas para comer os pratos, mas para consumir uma história.
Mas eu não queria viver de histórias.
"Clara, um blogueiro de gastronomia com 1,2 milhão de seguidores quer visitar a loja", disse Lúcia, mostrando-me o celular.
"Diga para ele entrar na fila."
"Ele disse que pode fazer nossa divulgação de graça..."
"Não precisamos de divulgação gratuita. A 'Nuan Shi Ji' não precisa de mais clientes, precisa de bons chefs. Entre em contato com as escolas de culinária da capital, vou contratar pessoal na próxima semana."
Lúcia assentiu e saiu apressada.
No terceiro dia de funcionamento, recebi uma visita inesperada.
Eu estava na cozinha, manuseando a concha no wok, quando a atendente entrou.
"Clara, há uma cliente lá fora. Ela não tem reserva, mas insiste que precisa te ver."
"Se não tem reserva, não atendemos."
"Ela disse que se chama Lúcia."
Minhas mãos pararam.
O óleo no wok quase espirrou.
"Deixe-a entrar. Leve-a para a sala privativa."
Lúcia estava sentada na sala. Ela parecia diferente de quando a vi embaixo do meu prédio pela última vez.
Usava uma camisa branca limpa, o cabelo preso em um rabo de cavalo e não usava maquiagem, mas parecia muito mais disposta.
Não trouxe a criança.
"Como você me encontrou?"
"Vi na notícia que você abriu uma nova loja na capital. Vim para cá procurar emprego."
"Que tipo de emprego?"
"Qualquer um. Atendente, faxineira, ajudante de cozinha."
Olhei para ela.
"Por que veio até mim? Não vai me pedir dinheiro, vai?"
"Não." Ela baixou a cabeça. "Vim para devolver dinheiro."
Ela tirou um envelope da bolsa e colocou sobre a mesa.
Não o peguei.
"Quanto?"
"Doze mil. Foi o que economizei trabalhando nesses dois meses. Sei que minha mãe te deve trezentos e quarenta e oito mil, quero ajudar a pagar."
"Doze mil?"
"Sei que não é muito. Mas vou continuar ganhando."
Olhei para o envelope sobre a mesa, sem saber o que dizer.
"Lúcia, você não deveria pagar essa dívida."
"Minha mãe não pode pagar agora. Ela está presa no hospital."
"A dívida dela não é sua."
"Mas ela é minha madrasta." Lúcia levantou a cabeça de repente. "Não, ela é sua mãe biológica, minha madrasta. Sempre confundi isso."
Fiquei perplexa.
"Depois que meu pai casou com ela, ela me tratava muito bem, muito melhor que minha mãe biológica. Minha mãe foi embora quando eu tinha três anos e nunca mais voltou. Embora ela não fosse minha mãe biológica, ela realmente me amava."
"Por isso, sempre achei que ela tratava todas as crianças daquela forma. Até ver as notícias e as fotos, eu não sabia... ela deu a você todo o afeto que ela reservou para mim."
Bati os dedos na mesa.
"Só percebeu agora?"
"Antes... eu não queria acreditar. Sempre achei que você era a culpada. Que você não voltava por ser sangue-frio. Mas depois, fui ao sótão da casa antiga, vi o uniforme militar do seu pai, vi a cama dobrável onde você dormia."
A voz dela embargou.
"A mola daquela cama estava totalmente quebrada e o colchão era fino como papel. Fiquei parada naquele sótão por meia hora, sem conseguir entender... há quantos anos você dormia naquela cama."
Não respondi.
"Clara, não vim pedir perdão. Não mereço. Quando criança, via você apanhando e nunca te ajudei uma vez sequer."
"Mas quero pagar o dinheiro. Não pela minha mãe, mas por mim mesma. Eu te devo."
Ela se levantou e empurrou o envelope em minha direção.
"Aceite ou não, a escolha é sua. Estou indo."
Quando ela chegou à porta, eu a chamei.
"Lúcia."
Ela se virou.
"Você já conseguiu emprego?"
"Ainda não."
Pensei por três segundos.
"Preciso de alguém para lavar legumes aqui. Pago alimentação e alojamento, salário de quatro mil. Quer o emprego?"
Ela ficou parada na porta, mordendo os lábios repetidamente.
"Você... você não está tendo pena de mim, está?"
"Não tenho pena de ninguém. Se você dá conta do trabalho, vem. Se não, vai embora."
Ela apertou os punhos.
"Eu aceito."
Capítulo 24
No primeiro dia de Lúcia como ajudante de cozinha na loja da capital, ela lavou três quilos de brócolis chinês e os transformou em folhas podres.
O chef principal, Aze, batia os pés de raiva: "Clara, ela realmente não sabe trabalhar."
"Ensine-a."
"E se ela não aprender?"
"Ensine até que ela aprenda."
As mãos de Lúcia eram calejadas, com várias unhas lascadas, visivelmente de alguém que nunca havia feito aquele tipo de trabalho.
Mas ela não reclamou. Quando estragava os vegetais, lavava tudo de novo; quando não sabia, perguntava. Se Aze a repreendia, ela apenas abaixava a cabeça e admitia o erro.
Três dias depois, ela já lavava os vegetais de forma aceitável.
Uma semana depois, começou a ajudar no preparo.
Duas semanas depois, Aze me disse: "Ela é desajeitada, mas não tem medo de trabalho duro."
Não disse muito.
Durante esse período, o estado de saúde de Beatriz piorou novamente.
O Dr. Li me ligou dizendo que ela teve uma hemorragia digestiva e precisou de uma intervenção de emergência.
"Srta. Clara, se isso continuar, ela pode não aguentar este mês."
"A fila para o transplante avançou?"
"Avançou, mas ainda há sete pessoas na frente."
Desliguei o telefone e fiquei em frente ao fogão, olhando para o caldo que fervia.
Lúcia aproximou-se devagar.
"Clara, você..."
"Ajude-me a verificar uma coisa."
"O quê?"
"Qual a porcentagem de reembolso do plano de saúde de Beatriz? Qual o valor das despesas da UTI que ela mesma deve cobrir? E quanto ela está devendo agora?"
Lúcia foi verificar e voltou meia hora depois.
"O reembolso é de 60%, a parte acumulada por conta própria é de 123 mil. A dívida atual é de 47 mil."
"Quem está pagando?"
"Antes, a tia Liu adiantou, mais de 30 mil. Depois disso, ninguém mais pagou."
Refleti um pouco.
"Transfira 50 mil para lá."
"Para quem transfiro?"
"Para o departamento de internação do hospital, coloque no campo de observação o número do prontuário de Beatriz. Anônimo."
Lúcia abriu a boca, querendo dizer algo, mas engoliu em seco.
"Certo."
Depois de transferir o dinheiro, continuei cozinhando.
A comida naquele dia ficou especialmente boa.
Aze provou e disse: "O toque da Clara hoje está divino."
Não sei por que. Talvez porque tomei uma decisão que ninguém precisava saber.
Mas o segredo não durou.
Três dias depois, tia Liu ligou.
"Clara, o hospital disse que alguém pagou anonimamente 50 mil da conta da sua mãe. Foi você?"
"Não."
"Mentira. Quem mais na família teria 50 mil hoje em dia?"
"Pergunte se não foi outra pessoa."
"Clara..."
"Tia Liu, não importa quem pagou, não tem nada a ver com você. Não precisa agradecer a ninguém."
Desliguei o telefone.
Naquela noite, Gustavo veio comer na loja.
Ele estava sozinho, sentado na mesa número 2 no canto, pediu uma sopa de cogumelos matsutake com frango e uma porção de panqueca com molho.
Depois de terminar, ele entrou na cozinha e colocou uma pasta de arquivos sobre a minha bancada.
"O quê é isso?"
"O plano de localização da cozinha central que você pediu. Visitei pessoalmente os três locais. Recomendo o segundo, no parque industrial de alimentos na periferia; é cinco mil metros quadrados, aluguel barato e infraestrutura completa."
Folheei o plano.
"Tudo bem. Vamos visitar na próxima semana."
"Mais uma coisa."
"Diga."
"Sobre aquela ideia da loja de café da manhã, pedi para analisarem a viabilidade. Se operada como forma de caridade, pode ser registrada como empresa social e se qualificar para o fundo de apoio ao empreendedorismo de veteranos."
"Quando você ficou tão prestativo?"
Ele deu de ombros: "Sou um investidor, tenho que me preocupar com as empresas que financio."
"Você se preocupa demais."
"Está te incomodando?"
Olhei para ele.
"Não está."
Ele deu um sorriso.
Não foi aquele sorriso comercial polido.
Ele simplesmente sorriu.
Abaixei a cabeça para continuar preparando os ingredientes, sem saber por que o fogão parecia mais quente do que o normal.
"Clara." Ele chamou meu nome de repente.
"Hum?"
"Quando tudo isso acabar, quero te convidar para jantar. Não na sua loja."
"Jantar? Você janta na minha loja todos os dias."
"Um jantar diferente."
Levantei a cabeça para olhá-lo.
Seus olhos, sob a luz do fogo do fogão, brilhavam intensamente.
"Então, vamos deixar para falar disso quando tudo terminar."
"Combinado."
Capítulo 25
As coisas terminaram em uma terça-feira comum.
Sem qualquer aviso prévio.
Às três da tarde daquele dia, eu estava no canteiro de obras da cozinha central discutindo a direção dos canos de drenagem com o mestre de obras.
Meu celular tocou.
Era o Dr. Li.
"Srta. Clara, sua mãe, Beatriz, passou por uma cirurgia de transplante de fígado bem-sucedida esta manhã."