"Foi só da boca para fora."
"Da boca para fora?" Eu ri.
"E quando ela me bateu com o rolo de macarrão, foi da boca para fora? Quando me queimou com o ferro, foi da boca para fora? Quando me trancou na despensa no inverno, foi da boca para fora? Lulu, você tem vinte e cinco anos, sua mãe já te bateu ao menos uma vez?"
Não houve resposta do outro lado.
"Nem uma única vez, certo?"
"Isso é diferente..."
"Claro que é diferente. Você é filha de Ricardo, eu sou filha de Ricardo. Ela não queria uma filha, ela queria a pensão e a casa. Entendeu agora?"
Desliguei.
Capítulo 10
A mudança na opinião pública foi mais violenta do que eu imaginava.
Depois do post de Lin Yue e do depoimento da Sra. Zhang, a mídia local começou a investigar o caso.
Um canal popular local chamado "Histórias da Cidade Sul" fez um especial com o título direto: "Órfã de herói abusada pela família da madrasta por seis anos, agora é pressionada a doar o fígado para salvar a mãe".
Eles descobriram as informações sobre meu pai, Ricardo [姜远征]: um soldado condecorado que morreu no resgate da grande enchente de 2004, aos vinte e nove anos. O exército forneceu à família pensão vitalícia, auxílio anual e moradia.
Essas informações eram públicas, mas, ao serem reunidas, tiveram um efeito de bomba.
O legado que um soldado que deu a vida pelo país deixou para a filha foi usurpado pela esposa e pelo novo marido.
E essa filha, desde os sete anos, foi abusada, usada como mão de obra gratuita e espancada até ficar coberta de cicatrizes.
Saiu de casa aos catorze anos, começando do zero sozinha.
Agora, é pressionada a voltar para doar o fígado para a mulher que a espancou por seis anos.
Os comentários explodiram.
"Que tipo de mãe? Isso é um monstro."
"Como pode um herói descansar em paz vendo o que fazem com a filha?"
"Indo além, aquele dinheiro da pensão não deveria ter sido usado inteiramente na criança?"
"Como aquela casa foi parar na mão do padrasto? Isso não é crime?"
Ricardo entrou em pânico.
Ele reagiu à seriedade da situação antes de Lulu. Uma vez que o registro de transferência daquela casa fosse investigado, não seria apenas devolvê-la; ele poderia responder criminalmente.
Às dez da manhã, enquanto eu preparava os ingredientes na cozinha, Lúcia entrou quase correndo.
"Clarinha, seu padrasto está aqui."
"De novo?"
"Dessa vez é diferente. Ele trouxe alguém que parece um advogado, de terno."
Limpei as mãos e saí.
Na sala privativa, Ricardo estava sentado, parecendo ainda mais abatido do que no hospital. Barba por fazer, olhos injetados de sangue.
Ao lado dele, um homem baixo e gordinho, usando óculos de aro dourado e segurando uma pasta.
"Clara", começou Ricardo, com a voz rouca.
Sentei-me à frente e não respondi.
O homem de óculos tomou a palavra: "Srta. Clara, sou o advogado Sun, representante do Sr. Ricardo. Queremos negociar sobre o imóvel do conjunto habitacional do exército."
"Negociar o quê?"
"Embora tenha havido... irregularidades no processo de transferência daquela época, o Sr. Ricardo tem direitos hipotecários legais sobre o imóvel e já pagou dez anos de prestações..."
"Irregularidades?" Interrompi.
"Advogado Sun, a proprietária daquele imóvel sou eu. Beatriz, como tutora, violou os direitos ao dispor do patrimônio do tutelado sem autorização judicial, transferindo-o por zero reais para um terceiro sem laços sanguíneos. Isso não é uma 'irregularidade', é crime de violação do direito de propriedade."
O advogado Sun ajustou os óculos: "Embora seja assim no papel, na prática..."
"Na prática, o que vocês querem?"
Ricardo não se conteve: "Clara, cancele aquela notificação extrajudicial e resolveremos a questão da casa em particular."
"Como resolver?"
"A casa... eu posso te devolver. Mas você tem que aceitar duas condições."
"Diga."
"Primeiro, volte para fazer o teste de compatibilidade. Segundo, apague tudo o que está na internet."
Olhei para ele sem dizer nada.
"Clara, não estou implorando, estou negociando. Fique com a casa, mas salve sua mãe."
"Ricardo."
"Sim?"
"Aquela casa já é minha, não preciso que você me devolva. O tribunal decidirá."
"Você..."
"Segundo: não fui eu quem postou aquelas coisas, não tenho poder nem obrigação de apagar."
"Terceiro: o fígado de Beatriz não está incluído em nenhuma negociação minha."
Ricardo deu um soco na mesa: "Sua ingrata! Sua mãe está morrendo!"
"Ela não é minha mãe."
"Ela te deu à luz!"
"Deu à luz e me espancou por seis anos, roubou mais de quinhentos mil da minha pensão e vendeu minha casa. Esse tipo de mãe, não quero nem de graça."
Ricardo levantou-se, empurrando a cadeira com força.
O advogado Sun tentou contê-lo: "Ricardo, calma..."
"Não consigo ter calma!" Ricardo apontava para mim, com o dedo tremendo. "Espere só, se você não fizer o teste, farei a cidade inteira te julgar!"
"Tente."
Ele se livrou do advogado e correu para fora.
A porta bateu com violência.
O advogado Sun levantou-se sem jeito, forçando um sorriso: "Srta. Clara, o Sr. Ricardo está emocionalmente instável hoje..."
"Advogado Sun."
"Sim?"
"A intimação chegará na semana que vem. Avise seu cliente para preparar a defesa."
O sorriso do advogado congelou por um momento, e ele saiu apressado.
Lúcia entrou para recolher as xícaras.
"Clarinha, ele vai tentar fazer alguma coisa?"
"Vai."
"E o que faremos?"
"Enfrentaremos o que vier", levantei-me.
"Aliás, o Gustavo tem uma reunião às três da tarde, cancele para mim. Preciso ir ao departamento de governo."
Capítulo 11
O saguão do departamento de registro civil estava vazio.
Com a minha caderneta de registro familiar e minha carteira de identidade em mãos, dirigi-me ao setor de consulta de arquivos, ao lado da janela de registro de casamentos.
"Olá, preciso consultar um registro de casamento."
"De quem?"
"Beatriz." Forneci o número do documento dela.
"Qual é o seu grau de parentesco?"
"Mãe e filha."
A funcionária pesquisou por alguns minutos no computador e me entregou uma folha impressa.
Beatriz, casou-se com Ricardo em 2002.
Ricardo morreu em serviço em 2005.
2006 —
Meus olhos travaram na terceira linha.
Março de 2006, Beatriz casou-se com Ricardo [o padrasto].
Meu pai morreu em setembro de 2004.
Isso significava que, um ano e meio após a morte dele, ela já havia se casado novamente.
Isso eu já sabia.
Mas havia outra linha abaixo.
Observação do pedido de casamento: a requerente Beatriz apresentou o pedido de re-casamento por viuvez em janeiro de 2006, aprovado no mesmo mês.
Pedido em janeiro, registro em março.
E a primeira parcela da pensão do meu pai foi recebida em fevereiro de 2005.
Ou seja — menos de um ano após receber a pensão, ela já estava planejando o novo casamento.
Fiquei encarando aquela folha por muito tempo.
De repente, lembrei-me de algo.
Quando eu era criança na casa do padrasto, uma vez Beatriz e Tia Lúcia conversavam na cozinha, achando que eu não ouvia lá do quarto.
Tia Lúcia dizia: "Por que você casou tão rápido? Ricardo nem tinha partido há dois anos."
Beatriz respondeu: "E o que fazer? Uma mulher com uma criança, como sobreviver? O padrasto tem casa e negócio, não é melhor encontrar um porto seguro?"
Tia Lúcia perguntou: "E a pensão do Ricardo? Aquilo não é pouco."
Beatriz ficou em silêncio por um tempo.
"Esse dinheiro, gasta-se o que for preciso, usa-se o que for necessário."
Eu tinha nove anos, encolhida atrás da porta da despensa, e gravei cada palavra daquele diálogo.
Gasta-se o que for preciso, usa-se o que for necessário.
Gastou com quem? Usou onde?
Dobrei o papel e o guardei na bolsa.
Ao sair do registro civil, fui direto para o Departamento de Assuntos dos Veteranos.
Lá, é possível consultar os detalhes mais minuciosos dos pagamentos de pensão.
Fui atendida por uma funcionária na casa dos quarenta anos, de sobrenome He. Ao ouvir o nome que forneci, ela hesitou.
"Ricardo... você é filha de Ricardo?"
"Sou."
Ela me observou por alguns segundos e tirou um prontuário do armário.
"Este registro está bem completo", ela folheou algumas páginas. "A pensão única de 180 mil foi paga em fevereiro de 2005. O auxílio sobrevivência mensal de 850 reais foi pago a partir de 2005 até o beneficiário completar dezoito anos. Em que ano você completou dezoito?"
"Em 2015."
"Então, de 2005 a 2015, dez anos e alguns meses, somando cerca de 102 mil. Além disso, havia um auxílio-educação para os filhos de 6 mil por ano, também até os dezoito anos, totalizando cerca de 66 mil."
"Somando tudo, temos..."
"Cerca de 348 mil. Mais a casa de assentamento."
Minha estimativa anterior de 520 mil estava incorreta, mas 348 mil mais a casa ainda era um valor astronômico.
A funcionária He fechou o prontuário e me olhou.
"O beneficiário desses pagamentos está registrado como sua mãe, Beatriz. Mas, pelas normas, o objetivo principal da pensão e dos subsídios é garantir a vida e a educação dos órfãos dos mártires."
"Eu sei."
"Você veio investigar isso porque está passando por algum problema?"