"Certamente, é um ato totalmente voluntário. Só que... sua mãe tem repetido o seu nome."
Não respondi.
"Ela disse que gostaria de vê-la uma última vez."
Segurando o celular, parei na cozinha; na bancada, uma fileira de ingredientes preparados estava alinhada.
"Vou considerar."
Após desligar, percebi que minha mão realmente tremeu.
Não era por fraqueza.
A palavra "repetir" é que soava muito irritante.
Quando ela repetia o meu nome?
Quando eu estava com quarenta graus de febre, trancada na despensa? Quando eu apanhava até me encolher num canto, sem conseguir chorar? Quando eu caminhava cinco quilômetros até a escola no inverno, vestindo apenas roupas finas?
Naquela época, o que ela repetia?
"Sua pequena imprestável."
"Por que você não morre com seu pai?"
"Dinheiro jogado fora com você."
Guardei essas palavras por doze anos. Cada sílaba gravada nos meus ossos.
Agora ela repete o meu nome.
Porque ela precisa do meu fígado.
Ao chegar em casa à noite, Dona Helena assistia televisão na sala.
Ela tem setenta e cinco anos, cabelos totalmente brancos, mas uma mente viva. Pratica Tai Chi todas as manhãs e prepara para si mesma uma refeição cuidadosa todos os dias.
Quando eu tinha quatorze anos, revirava caixas de isopor atrás de comida atrás de um pequeno restaurante nos arredores da cidade. Estava chovendo, eu estava encharcada e minhas mãos cheias de frieiras.
Dona Helena passou por lá e me viu.
Não perguntou de onde eu vinha, não perguntou sobre meus pais, apenas disse: "Está com fome? Venha comigo."
Ela me levou para casa e preparou uma tigela de wonton.
Foi a coisa mais deliciosa que comi em toda a minha vida.
Desde aquele dia, ela me acolheu.
Só mais tarde descobri que, na juventude, ela foi chef da casa de hóspedes do governo provincial. Vivia sozinha após a aposentadoria; seu marido falecera cedo e seus filhos moravam no exterior.
Ela me ensinou a cozinhar, a ler e a viver.
Ela dizia: "Lembre-se, você não deve nada a ninguém. Você é filha do seu pai, e seu pai foi um herói."
Sentei-me ao lado dela e encostei no seu ombro.
"Vovó, o hospital ligou. Disse que ela quer me ver."
Dona Helena abaixou o volume da televisão: "Você quer ir?"
"Não."
"Então não vá."
"Mas..."
"Mas o quê?"
"Tenho medo de que, se ela morrer, as pessoas digam que fui eu a culpada."
Dona Helena acariciou o dorso da minha mão: "A doença dela é o destino dela, não a sua dívida. Você saiu daquela casa há doze anos e lutou sozinha até aqui; sua consciência está limpa. O que os outros dizem não importa."
"Hm", respondi.
"No entanto —", Dona Helena continuou.
"No entanto o quê?"
"Se você quer ver, então vá. Não por ela, mas por você mesma. Diga o que precisa dizer, encerre o que precisa encerrar. Não deixe que isso fique entalado no peito, atrapalhando o seu toque ao cozinhar."
Sorri: "Você sempre relaciona tudo à culinária."
"Cozinhar é viver, não é? Se há um nó no coração, o fogo nunca será preciso."
Refleti a noite toda.
Na manhã seguinte, liguei de volta para o hospital.
"Dr. Lee, vou visitá-la. Mas tenho três condições."
"Pode falar."
"Primeiro: não farei exame de compatibilidade."
"… Tudo bem."
"Segundo: Ricardo não pode estar no quarto."
"Isso... farei o possível para organizar."
"Terceiro: a visita não ultrapassará dez minutos."
"Combinado, vou preparar tudo."
Às duas da tarde, eu estava no corredor da ala hospitalar.
O ar cheirava a antisséptico, misturado com um odor de decomposição.
No final do corredor, quarto 506.
A porta estava fechada.
Parei na porta, respirei fundo — parei na porta por três segundos.
Então empurrei a porta.
Na cama jazia uma mulher magra.
A pele era amarelada, as maçãs do rosto saltadas, as órbitas dos olhos profundamente encovadas, os lábios rachados e secos.
Se não fosse pelo cartão na cabeceira com o nome "Beatriz", eu mal a reconheceria.
Ela parecia vinte anos mais velha do que na minha memória.
Quinze quilos mais magra.
Como um papel amarelo amarrotado sobre o lençol branco.
Seus olhos estavam semicerrados; ao notar movimento, ela virou a cabeça lentamente.
No momento em que me viu, suas pupilas se dilataram.
"Cla... Clara?"
Sua voz era áspera, como lixa sobre ferro.
Fiquei diante da cama, a um metro de distância, sem dar um passo à frente.
"Beatriz, o que você quer comigo?"
Capítulo 7
Suas mãos saíram debaixo do cobertor; as veias estavam saltadas, parecendo galhos secos.
"Clara... a mamãe sente sua falta."
Fiquei parada, sem me mover.
"Você emagreceu", ela me observava com esforço.
"Eu nunca fui gorda. Graças a você."
Suas mãos recuaram.
"Clara, a mamãe sabe que te tratou mal no passado..."
"Você me chamou aqui só para dizer isso?"
"A mamãe realmente reconhece o erro." Seus olhos começaram a ficar vermelhos. "Quando você era pequena, minha paciência era curta, bati muito em você..."
"Bateu muito?" Eu a olhei. "O que você chama de 'muito'? Bater com rolo de macarrão é 'muito'? Queimar com atiçador é 'muito'? Expulsar de casa no auge do inverno é 'muito'?"
"Qual dessas coisas você acha que foi 'leve'?"
"Naquela época... eu obedecia ao seu tio Ricardo", ela desviou o assunto. "Ele dizia que precisava te disciplinar, eu não tinha escolha..."
"Não jogue a culpa em Ricardo", interrompi.
"A primeira vez que você me bateu, foi você, não ele. Por causa de um bolinho de massa, você quebrou o rolo de macarrão na minha cabeça. Eu tinha sete anos, e ele estava sentado no sofá, sem dizer uma palavra."
"Você bateu porque quis."
Os lábios de Beatriz tremeram.
"Você só me procurou agora não porque sente minha falta, mas porque precisa do meu fígado."
"Não..."
"O Dr. Lee me contou tudo. Sua falência hepática exige um transplante vivo, e Lulu não foi compatível. Depois de pesquisar toda a família, só restou eu, a filha que você espancou por seis anos."
Ela não negou.
"A mamãe realmente sente sua falta..."
"Chega", dei um passo para trás. "Eu já disse, não farei o teste de compatibilidade."
"Clara!" Ela lutou para se sentar, e o monitor cardíaco começou a apitar.
A enfermeira entrou correndo e me deu um olhar de aviso: "Por favor, familiares, mantenham a calma, a paciente não pode se emocionar."
"Não sou familiar", respondi.
Enquanto me virava para sair, ouvi o choro dela atrás de mim.
Era um som fraco, entrecortado, como o miado de um gato ferido.
Não parei.
No momento em que saí do quarto, quase colidi com alguém.
Ricardo.
Ele vestia uma jaqueta imunda e segurava uma sacola plástica com uma marmita.
Era óbvio que ele estava esperando lá fora.
Ele obedeceu ao meu pedido de "não o quero presente", mas apenas para ficar vigiando na porta.
"Clara", ele me chamou.
Passei por ele e continuei andando.
"Pare aí", ele agarrou meu braço.
Olhei para a mão dele sobre mim.
"Solte."
"Sua mãe está te implorando, e é essa a sua atitude?"
"Eu disse para soltar."
"Sua ingrata, sua sem-vergonha!", ele aumentou o tom de voz, fazendo várias pessoas no corredor olharem.
Empurrei o braço dele com força e encarei seus olhos.
"Ricardo, meu advogado está investigando o hipoteca de trezentos mil que você fez na casa de assentamento do meu pai. A intimação judicial chegará em breve, é melhor se preparar."
O rosto dele mudou de cor instantaneamente.
"Você... o que você disse?"
"Aquela casa está no meu nome. Você fez uma transferência ilegal e uma hipoteca ilegal; tenho o direito de retomar o imóvel."
"Sua mãe que me deu!"
"Ela não tinha o direito de dar o que era meu."
"Ela era sua tutora..."
"Um tutor tem a obrigação de proteger o patrimônio do tutelado, não de dar a estranhos para esbanjar."
Disse cada palavra pausadamente, vendo seu rosto passar de vermelho para branco, e depois para pálido.
"Você vai ver só!", ele jogou a ameaça e correu para dentro do quarto com a marmita.
Saí do prédio e o vento me atingiu de imediato.
Na escadaria, olhei para o céu.
Cinza e nublado, sem sinal de sol.
Meu celular tocou. Era a advogada Sofia.
"Clara, a transferência de 2013 foi esclarecida. O motivo registrado foi 'doação'. Sua mãe assinou como sua tutora."
"Dá para anular?"
"Sim. De acordo com o artigo 35 do Código Civil, o tutor deve agir no melhor interesse do tutelado; a disposição de bens exige autorização judicial. Ela não seguiu o processo, então essa doação é inválida."
"Quanto tempo para o resultado?"
"Do registro à sentença, uns três meses, se for rápido. Mas se eles não cooperarem..."
"Ele não vai cooperar. Ele tem uma hipoteca sobre essa casa."
"Bom, isso complica um pouco, devido ao interesse do banco. Mas a lei está do seu lado, não se preocupe."
Desliguei e fiquei na entrada do hospital, observando as pessoas.
Alguns acompanhavam idosos, outros carregavam crianças.
Todos tinham famílias ao lado.
Ao meu lado, apenas o vento.
Mas o vento também serve. O vento não bate em ninguém.