Sofia olhou para as fotos e suas mãos hesitaram.
"Você guardou muito bem."
"Dona Helena mandou que eu guardasse. Ela disse que, um dia, isso seria útil."
Sofia fechou a pasta: "Aceito o caso. Primeiro, enviaremos uma notificação extrajudicial e, simultaneamente, prepararei os documentos para a ação judicial. Começaremos pela casa e, depois, buscaremos a restituição da pensão desviada."
"Quanto aos custos..."
"Falamos disso depois que ganharmos", ela olhou para mim. "Eu também venho de uma família militar."
Depois de me despedir de Sofia, fiquei um tempo sentada no escritório, perdida em pensamentos.
Lúcia bateu à porta e entrou: "Clarinha, o Sr. Gustavo chegou."
Quando Gustavo entrou, trazia uma sacola de laranjas.
Ele é quatro anos mais velho que eu, alto, vestindo um casaco de lã cinza, parecendo um empresário sério. Mas, assim que abre a boca, a fachada cai.
"Laranjas. Acabaram de chegar da colheita. Estão azedas, do jeito que você gosta."
Peguei uma, descasquei e joguei na boca; estava tão azeda que fiz uma careta.
"Já avisei o pessoal da advocacia, pode ficar tranquila", ele sentou no sofá. "Além disso, mandei investigar o seu padrasto."
"Descobriu algo?"
"A loja de ferragens dele fechou há três anos e ele está afundado em dívidas. Atualmente, ele mora na casa do seu pai; depois de obter a propriedade, ele a usou como garantia para um empréstimo de trezentos mil e, como não conseguiu pagar, quase a perdeu para o banco. Sua mãe o ajudou a encontrar um jeito de contornar a situação, garantindo a posse por enquanto."
"Então ele transferiu a casa do meu pai para o nome dele primeiro, para depois usá-la como hipoteca e conseguir dinheiro?"
"Exato."
Apertei a casca da laranja, rasgando-a em pedaços.
"Tem mais uma coisa", o tom de Gustavo ficou mais lento.
"O quê?"
"As despesas médicas da sua mãe estão sendo pagas pela Tia Lúcia. Mas a situação financeira da Tia Lúcia também não é boa, e ela não vai aguentar por muito tempo."
"E o que eu tenho a ver com isso?"
"Não tem nada a ver. Mas você precisa se preparar psicologicamente, porque o escândalo que eles farão a partir de agora só vai aumentar."
Ele estava certo.
Naquela mesma tarde, a Tia Lúcia apareceu.
E não veio sozinha.
Ela trouxe meu tio, minha prima e uma mulher de meia-idade que eu nem conhecia.
Os quatro entraram na loja principal de forma intimidadora, com expressões agressivas.
Quando a garçonete veio avisar, suas pernas tremiam: "Clarinha, quatro pessoas lá fora dizem que querem te ver; não deixei que entrassem e disse que esperassem na porta, mas os clientes já estão tirando fotos."
Larguei a bandeja de degustação e tirei o avental.
"Deixe que entrem, falaremos na sala privativa."
Assim que a porta da sala se abriu, Tia Lúcia foi a primeira a avançar, com o dedo quase cutucando o meu nariz.
"Clara, diga de uma vez por todas! Você vai cuidar da vida da sua mãe ou não?"
Capítulo 5
Não deixei que o dedo dela me tocasse.
Dei meio passo para trás, aumentando a distância entre nós.
"Tia Lúcia, sente-se para falarmos."
Tia Lúcia não se sentou. Ela ficou plantada ali, com as mãos na cintura, parecendo alguém que veio cobrar uma dívida.
Meu tio sentou-se, cruzando as pernas e com a expressão estampada de quem diz: "Vim aqui para julgar o caso".
Minha prima ficou ao lado, mexendo no celular, com um ar de quem não tinha nada a ver com aquilo.
Aquela mulher de meia-idade eu realmente não conhecia; era baixa e gordinha, com o cabelo permanentemente cacheado e os olhos girando, examinando minha loja.
"Foi você quem abriu esta loja?", Tia Lúcia olhou em volta para a decoração da sala privativa, com um tom de inveja. "Até que é elegante."
"Sim."
"Com uma loja deste tamanho, ganhando dinheiro, e sua mãe no hospital esperando a morte sem você fazer nada... você acha bonito isso?"
"Tia Lúcia, você sabe como é a minha relação com Beatriz."
"Que Beatriz o quê! Ela é sua mãe! Você chama sua mãe pelo nome completo?" Tia Lúcia deu um tapa na mesa.
Meu tio finalmente se manifestou, com a voz baixa, porém pesada: "Clara, de qualquer forma, ela te deu à luz. Agora que você vive bem, ajudá-la seria um ato de caridade e benevolência."
"Tio, o senhor se lembra da vez em que corri cinco quilômetros até sua casa, aos onze anos, pedindo para me acolher?"
O olhar do meu tio vacilou.
"Eu estava toda machucada, implorei para passar uma noite na sua casa. O que você disse?"
Meu tio ficou em silêncio.
"Você disse: 'Criança, pare de bobagem, volte logo para casa, sua mãe te bate porque quer o seu bem'. E então me mandou de volta."
"Naquela noite, Beatriz me trancou na despensa e não me deu comida por três dias."
A sala privativa ficou em silêncio.
A mulher de meia-idade murmurou: "Tão grave assim?"
"Quem é você?", perguntei a ela.
"Eu... sou colega de trabalho da sua mãe, a Sra. Zhang", ela parecia desconfortável. "Sua mãe é uma pessoa muito boa na fábrica, sempre educada com todo mundo..."
"Com estranhos, é claro que ela é educada", interrompi. "Bater em criança é algo que acontece a portas fechadas, quem veria?"
Sra. Zhang calou-se, envergonhada.
Tia Lúcia respirou fundo — ou melhor, ela apenas suspirou e mudou de estratégia: "Certo, não vou falar do passado. Mas agora sua mãe está realmente morrendo, você tem coragem de ver isso? O espírito do seu pai..."
"Não mencione meu pai."
Meu tom de voz esfriou subitamente, fazendo até minha prima levantar os olhos para me olhar.
"Meu pai me deixou mais de quinhentos mil em pensão, além de uma casa de assentamento. Você sabe onde isso tudo está agora?"
Tia Lúcia ficou atônita: "O quê?"
"A pensão foi toda gasta por Beatriz, e a casa foi transferida por zero reais para Ricardo, que depois a usou como garantia de um empréstimo."
"Tudo o que meu pai conquistou com a vida dele não foi usado em um centavo sequer para o meu sustento."
A cor do rosto de Tia Lúcia mudou.
Era óbvio que ela não sabia disso.
Meu tio sentou-se ereto, com uma expressão complexa.
"Você... você está falando a verdade?", a voz de Tia Lúcia diminuiu.
"A notificação extrajudicial chegará em até três dias. Se não acreditam, nos vemos no tribunal."
"Você vai processar sua própria mãe?", Tia Lúcia estava incrédula.
"Vou recuperar o que é meu por direito."
"Sua mãe está quase morrendo e você a processa agora? O que é isso? Oportunismo?"
"Ela pegou meu dinheiro para gastar com outros por mais de uma década e eu não disse uma palavra. Agora que quero de volta, você chama de oportunismo?"
"Tia Lúcia, não consigo entender sua lógica."
Tia Lúcia abriu a boca, mas ficou sem palavras.
Meu tio levantou-se.
"Esse assunto... vou me informar melhor."
Ele puxou o braço de Tia Lúcia: "Vamos, hoje vamos voltar."
Tia Lúcia ainda queria dizer algo, mas foi arrastada pelo meu tio.
Sra. Zhang saiu atrás deles; ao ir embora, olhou para trás com um olhar indefinível.
Minha prima foi a última a sair.
Ela parou na porta e sussurrou: "Clara, eu realmente não sabia de nada disso."
A porta se fechou.
Fiquei sozinha na sala privativa, olhando para o chá intocado na mesa.
Lúcia empurrou a porta e entrou, carregando um copo de leite quente.
"Clarinha, beba algo quente."
Peguei o copo, sentindo o calor do recipiente na palma da mão.
"Você ouviu tudo?"
"O isolamento acústico não é muito bom", disse ela honestamente.
"Então, faça as contas para mim."
"Que contas?"
"Quinhentos e vinte mil da pensão, mais uma casa de setenta e cinco metros quadrados. Segundo o preço de mercado atual, quanto vale tudo isso?"
Lúcia tirou o celular e digitou por um tempo: "A casa custa doze mil por metro quadrado agora, setenta e cinco metros dá novecentos mil. Somando com os quinhentos e vinte mil, dá um total de aproximadamente um milhão e quatrocentos e vinte mil."
"Um milhão e quatrocentos e vinte mil."
Tomei um gole do leite.
"O que ela me deve não é apenas um milhão e quatrocentos e vinte mil."
Capítulo 6
No dia seguinte ao envio da notificação, recebi uma ligação inesperada.
Não era de Beatriz, nem de Ricardo, nem de nenhum parente.
Era do médico responsável no hospital municipal.
"Olá, falo com a Sra. Clara? Sou o Dr. Lee, responsável pelo caso de sua mãe, Beatriz."
"Sim."
"A falência hepática da Sra. Beatriz entrou em fase de descompensação. Se não encontrarmos um doador compatível dentro de um mês, a situação será crítica. Estamos realizando exames de triagem e gostaríamos de pedir que viesse fazer um teste..."
"Dr. Lee, eu me recuso."
Houve uma pausa de dois segundos do outro lado.
"Sra. Clara, entendo que possa ter preocupações familiares, mas, como parente de primeiro grau, a probabilidade de compatibilidade é a maior..."
"Eu conheço as probabilidades. Mas este é o meu corpo, e tenho o direito de recusar."