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《De Lixo a Rainha da Gastronomia》Capítulo 2

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"Passou?" Abaixei a manga. "Você tem alguma cicatriz assim?"

Ela não disse nada.

"Você já foi trancada na despensa durante a noite? No auge do inverno, sem cobertor e com o vento passando pelas frestas da janela?"

Ela deu um passo para trás.

"Você já teve tanta fome a ponto de revirar uma lata de lixo?"

"Chega!" Lulu tapou os ouvidos. "Não quero ouvir isso! Só estou te perguntando: você vai ou não?"

"Não vou."

"Então eu te aviso: a mamãe disse que se você não voltar, ela vai te levar aos tribunais! Filhos têm obrigação de prestar assistência! É o que a lei diz!"

Olhei para ela e, de repente, achei tudo um pouco ridículo.

"Se ela quer processar, que processe."

"Estarei esperando."

Lulu não esperava que eu fosse tão irredutível; seus lábios tremeram levemente: "Você... você não tem nenhum pingo de consciência?"

"Consciência é algo que ela destruiu dentro de mim quando eu tinha sete anos."

Lulu mordeu os lábios e seus olhos ficaram marejados. Mas eu sabia que ela não estava triste por mim, ela estava desesperada.

"Clara, eu te imploro", ela subitamente amaciou o tom. "Eu realmente não tenho mais a quem recorrer. Se a mamãe morrer..."

"Então você ficará sem mãe, não é?" Completei a frase por ela.

"Você sabe como é não ter mãe? Eu descobri isso aos quatro anos de idade."

Meu pai, Ricardo, era militar. Morreu em uma missão de resgate em uma catástrofe; eu tinha quatro anos.

Dois anos após a morte dele, minha mãe se casou com o padrasto.

A partir dali, tornei-me a pessoa descartável da casa.

Lulu abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.

Nesse momento, o gerente da loja se aproximou e sussurrou para mim: "Clarinha, o cliente da mesa 2 está impaciente."

Acenei com a cabeça e lancei um último olhar para Lulu.

"Minha loja não aceita confusão. Pode ir embora."

Virei as costas e voltei para a cozinha.

Atrás de mim, a voz de Lulu surgiu, carregada de choro: "Clara, você vai se arrepender!"

Não olhei para trás.

O óleo na panela já havia esfriado.

Acendi o fogo novamente, deixei o óleo aquecer e adicionei os ingredientes.

Minhas mãos estavam firmes.

Meu coração também.

Vinte anos. Esperei por esse "por quê" durante vinte anos.

Ela acha que eu vou me arrepender.

Mas o que ela não sabe é que a pessoa que realmente deveria se arrepender nunca fui eu.

Capítulo 3

Depois que Lulu foi embora, pensei que teria dois dias de paz.

Não esperava que, na mesma noite, meu celular fosse explodir.

Não eram parentes, era um número desconhecido.

Atendi, e do outro lado veio a voz de um homem de meia-idade, rouca e com um sotaque carregado.

"Clara? Sou eu, seu tio Ricardo."

Ricardo.

Meu padrasto.

Segurei o celular e não disse uma palavra.

"Sobre o assunto da sua mãe, Lulu já deve ter te contado, certo?", ele pigarreou. "Olha, essa história, no fim das contas, ainda é algo de família..."

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"Eu não sou da sua família."

"Veja só, que menina..."

"Ricardo, saí da sua casa aos catorze anos e nossa relação no registro civil já foi encerrada há muito tempo. Meu sobrenome é Clara, não Ricardo. Você ligou para a pessoa errada."

O outro lado da linha silenciou por alguns segundos.

"Então vou ser direto", o tom dele mudou, sem mais fingir cortesia. "Sua mãe teve complicações no parto quando você nasceu, ficou quatro horas na mesa de cirurgia. Ela te criou até os seis anos, você deve isso a ela."

"Eu devo a ela?"

"Até os seis anos foi ela quem te carregou sozinha, seu pai estava no exército e mal o víamos. Depois que ele morreu, foi ela quem cuidou de tudo sozinha..."

"Chega", interrompi.

"Já que mencionou meu pai, então vou te perguntar uma coisa."

"A pensão e o auxílio sobrevivência do meu pai, além da casa de assentamento concedida pelo exército, estavam em nome da minha mãe. Onde estão essas coisas?"

O outro lado da linha ficou em silêncio.

Por muito tempo.

"Que coisas?", Ricardo se fez de desentendido.

"Pare com isso. Meu pai foi um herói nacional morto em serviço; a pensão única e o auxílio anual, até eu completar dezoito anos, somavam pelo menos trezentos ou quatrocentos mil. Aquela casa fica no conjunto habitacional do distrito militar no leste da cidade, setenta e cinco metros quadrados; hoje, o metro quadrado naquela área custa doze mil."

Ricardo não respondeu.

"Onde esse dinheiro foi parar?"

"Você... você é só uma criança, por que quer saber disso!"

"Já não sou mais uma criança. Tenho vinte e seis anos. Quero saber onde está o que meu pai me deixou."

"Esse dinheiro acabou há muito tempo! Comida, roupas, sustento... você acha que não custa nada?"

"Sustento?" Eu ri.

"Eu usava as roupas velhas da Lulu, dormia em uma cama dobrável na despensa, comia duas vezes ao dia e, muitas vezes, apenas mingau com conservas. Me diga, como esse dinheiro foi usado no meu sustento?"

"Não vou ficar discutindo isso!", Ricardo aumentou o tom. "Sua mãe está hospitalizada, o custo da UTI é de seis mil por dia. Você não dá dinheiro e não aparece, não sente remorso?"

"Eu sinto remorso é por mim mesma."

Desliguei o telefone.

Ao soltar o celular, minhas mãos tremiam um pouco.

Não era medo, era raiva.

Saí daquela casa aos catorze anos e, ao longo desses anos, nunca fui atrás do que meu pai deixou. Não era falta de vontade, era medo.

Medo de investigar e descobrir que até o último pingo de carinho era uma farsa.

Mas agora, eles mesmos vieram até mim.

Abri o computador, acessei o sistema de consulta online do governo e digitei o nome do meu pai — Ricardo.

Informações de mártir, registros de pensão, detalhes dos pagamentos de auxílio familiar.

Cada item, muito claro.

De 2004 a 2018, um total de quinhentos e vinte e seis mil reais em pensões e auxílios foram pagos.

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Tudo depositado na conta da minha mãe, Beatriz.

Fiquei encarando os números na tela, cravando as unhas na palma da mão.

Consultei sobre a casa.

Conjunto habitacional do distrito militar, prédio 3, unidade 501. Proprietária: Beatriz (mantido em nome da menor de idade, Clara).

Abri o histórico de transações.

17 de março de 2013, transferência de propriedade.

Comprador: Ricardo.

Valor da transferência: zero reais.

Ela transferiu a casa que meu pai me deixou para o meu padrasto por zero reais.

Naquele ano, eu tinha doze anos, encolhida na cama dobrável da despensa, proibida por ela de jantar.

E, naquele mesmo ano, ela entregou de mão beijada, para aquele homem, a casa que meu pai conquistou com a própria vida.

Fechei o computador.

A sala estava silenciosa, apenas com o zumbido da geladeira funcionando.

Levantei-me e fui até a cozinha beber um copo d'água.

Dona Helena dizia que quem cozinha não pode ter mãos trêmulas. Se a mão treme, o fogo sai do ponto e o sabor se perde.

Na vida, é a mesma coisa.

Terminei de beber a água, peguei o celular e disquei um número.

"Gustavo, preciso de um advogado."

Capítulo 4

Gustavo agiu rápido.

Na manhã seguinte, uma advogada na casa dos trinta anos estava sentada em meu escritório.

Seu nome era Sofia, especializada em disputas familiares e casos de herança, com uma reputação impecável no círculo jurídico da cidade.

Imprimi todos os documentos que consegui encontrar e os espalhei sobre a mesa, desde os detalhes do pagamento da pensão até o registro de transferência da casa, e expliquei tudo para ela.

Sofia folheava os documentos com uma expressão cada vez mais séria.

"A propriedade desta casa, registrada pelo governo na época como 'mantida em nome da menor', confere à sua mãe o direito de gestão como tutora, mas não o direito de disposição. Ela transferir o imóvel para o seu padrasto por zero reais sem passar pelos trâmites legais é ilegal."

"É possível recuperar?"

"Podemos entrar com uma ação. A transferência ocorreu quando você tinha doze anos; na época, sua capacidade civil era limitada, o que torna a validade desse ato duvidosa. Além disso, a contrapartida de zero reais claramente prejudica os interesses do tutelado."

"E a pensão?"

"A pensão era paga à sua mãe como garantia de subsistência para os familiares sobreviventes e a filha menor. Se você puder provar que esse dinheiro não foi usado para o seu sustento..."

"Eu tenho provas."

Peguei meu celular e encontrei algumas fotos.

Eram fotos que tirei secretamente quando saí de casa aos catorze anos.

A cama dobrável da despensa, a estrutura de ferro toda enferrujada, o colchão tão fino que dava para ver através dele.

No canto, uma pilha de roupas velhas que Lulu descartou, que eram todas as minhas roupas.

Um par de sapatos de tecido furado, com a sola quase desaparecendo.

E uma foto das minhas costas, tirada pela Dona Helena no dia em que me acolheu, quando levantou minha blusa para mostrar os ferimentos ao médico do bairro.

Minhas costas estavam cobertas por cicatrizes antigas e novas.

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