Capítulo 1
Quando criança, roubei um bolinho de massa do meu padrasto e minha mãe pegou um rolo de macarrão e me deu três pauladas na cabeça.
A partir daquele dia, ela me bateu durante seis anos seguidos.
Agora, ela está deitada na UTI de um hospital, com falência hepática e correndo risco de morte.
Lulu chorava tanto ao telefone que mal conseguia respirar: "Clara, a mamãe está morrendo, você não vai voltar?"
Eu segurava a panela com uma mão e passava o caldo de cogumelos que acabara de preparar por uma peneira fina.
"Ela é sua mãe."
"Ela também é sua mãe!" Lulu gritou.
Desliguei o fogo e despejei o caldo em uma marmita térmica.
"Eu não tenho mãe."
Lulu ficou em silêncio por dois segundos, depois subiu o tom de voz: "Clara, você perdeu a noção? Ela te deu à luz! Ela te criou! Você é uma ingrata sem coração!"
Fiquei em silêncio.
Me criou?
Quando eu tinha sete anos, minha mãe se casou com Ricardo e, junto comigo, mudou-se para a casa de alvenaria dele.
Naquele dia, Ricardo trouxe para casa uma cesta de bolinhos de massa, saindo fumaça, com um aroma de carne que preenchia todo o ambiente.
Eu estava no canto fazendo a lição de casa, com o estômago roncando. O almoço tinha sido o resto do mingau do dia anterior, que já tinha sido digerido há muito tempo.
Lulu pegava os bolinhos um atrás do outro, comendo enquanto assistia desenho.
Minha mãe servia a mesa ao lado, sorrindo com o rosto cheio de rugas: "Coma devagar, Lulu, para não se engasgar."
Ninguém me chamou.
Esperei que Ricardo e Lulu terminassem de comer e vi que ainda sobrava um bolinho na cesta. Eu estava com tanta fome que, quando ninguém olhou, peguei o bolinho e dei uma mordida.
Ricardo saiu do banheiro, viu o bolinho na minha mão e fechou a cara imediatamente.
"Quem te deu permissão para comer?"
Levei um susto, minha mão tremeu e o bolinho caiu no chão.
Minha mãe correu da cozinha, viu o bolinho no chão e depois viu a mancha de gordura no canto da minha boca; ela levantou a mão e me deu um tapa.
"Quem te ensinou a roubar? Hã? Quem te deixou tocar nisso?"
Ela pegou o rolo de massa atrás da porta e começou a me bater sem parar.
A primeira paulada atingiu meu ombro.
A segunda, minhas costas.
A terceira, meu braço que protegia a cabeça.
Ricardo estava sentado no sofá, com as pernas cruzadas, sem dizer uma única palavra do início ao fim.
Lulu ria tapando a boca.
Naquele ano, eu tinha sete anos.
Desde aquele dia, eu aprendi uma coisa: naquela casa, eu não merecia nem comer um simples bolinho de massa.
"Clara? Clara, você está ouvindo?" Lulu ainda gritava ao telefone.
Voltei a mim e limpei as mãos.
"Estou ouvindo."
"Então volte."
"Não vou voltar."
"Você..."
Desliguei o telefone.
Minha assistente, Lúcia, entrou com a lista de ingredientes: "Clarinha, o banquete privado do Sr. Gustavo está marcado para sexta-feira, dê uma olhada no menu."
Peguei a lista e passei o olho: "Substitua o abalone por cogumelos matsutake, o Sr. Gustavo está controlando o ácido úrico ultimamente."
Lúcia anotou e hesitou um pouco: "Aquele telefonema de agora há pouco..."
"Não foi nada."
Tirei o avental, pendurei-o e entrei no escritório.
Na parede estava a logomarca da "Sabor e Afeto", ao lado das fotos das cinco unidades da rede e, mais ao lado, o certificado de medalha de ouro do concurso nacional de culinária privada do ano passado.
Saí daquela casa quando tinha catorze anos; hoje, doze anos se passaram.
Nesses doze anos, ninguém me procurou para saber se eu estava viva ou morta.
Agora que ela está morrendo, lembrou-se de mim.
Peguei o celular e bloqueei o número de Lulu.
O telefone tocou novamente; era um número fixo.
Hesitei um pouco, mas atendi.
"É a Clara? Sou eu, a Tia Lúcia."
"Tia Lúcia." Meu tom era indiferente.
"Clarinha, você soube da situação da sua mãe? O médico disse que ela precisa de um transplante de fígado, a Lulu não foi compatível. Você é filha biológica, é quem tem a maior probabilidade de ser compatível, você precisa voltar para fazer um exame."
"Tia Lúcia, eu não tenho mais nenhuma relação com aquela gente há muito tempo."
"Sem relação? Ela é sua mãe de verdade! O sangue que corre em você veio dela! Que tipo de filha abandona a própria mãe?"
Segurei o celular com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.
"E que tipo de mãe usa um rolo de macarrão para bater na própria filha durante seis anos?"
O outro lado da linha ficou em silêncio.
"Tia Lúcia, vou dizer mais uma vez: não vou voltar."
"Você é uma menina tão..."
Desliguei.
Três minutos depois, meu celular não parava de apitar.
Sete chamadas perdidas, quatro mensagens de texto, duas mensagens de voz no WhatsApp.
Eram todos parentes.
Coloquei tudo no silencioso, joguei o celular na gaveta e saí para inspecionar as lojas.
A primeira loja ficava em um beco do bairro antigo, com seis mesas e atendendo apenas doze clientes por dia.
Foi a primeira loja que abri aos vinte anos, usando as técnicas que a Dona Helena me ensinou, construindo o negócio com base na reputação.
Quando entrei na cozinha, meu celular vibrou de novo no bolso.
Eu não olhei.
"Clarinha." O chef Alan se aproximou limpando as mãos. "Hoje tem um cliente que pediu especificamente pelo seu tofu com ovas de caranguejo."
"Quem é?"
"Disse que foi indicação do Sr. Gustavo, sobrenome沈."
Balancei a cabeça: "Eu mesma farei."
Coloquei o avental e fiquei diante do fogão, com o vapor subindo.
Neste mundo, apenas o fogão não mente. O quanto de dedicação você coloca, é o sabor que ele te devolve.
Diferente das pessoas.
A temperatura do óleo na panela estava perfeita; coloquei as ovas de caranguejo e o aroma subiu instantaneamente.
Lembrei-me da infância, na cozinha da casa de Ricardo, quando minha mãe também fazia tofu com ovas de caranguejo.
Naquela época, era aniversário de Ricardo e minha mãe comprou caranguejos, passando a tarde inteira extraindo as ovas e a gordura.
Depois de pronto, um prato farto foi servido à mesa.
Ricardo comeu metade, Lulu comeu a outra metade.
Eu ficava na cozinha comendo um pãozinho seco.
Quando minha mãe passou por mim, sussurrei: "Mãe, posso provar um pouquinho?"
Ela nem se virou: "Esse é o prato do aniversário do seu pai, ele nem comeu o suficiente, como é que vai sobrar para você?"
Ele não era meu pai.
Mas ela me obrigava a chamá-lo de pai.
Se eu não chamasse, apanhava.
Capítulo 2
Lulu apareceu mais rápido do que eu imaginava.
No dia seguinte, ao meio-dia, eu estava na cozinha aberta da minha loja principal preparando os pratos para os clientes quando a garçonete entrou apressada.
"Clarinha, tem uma mulher lá fora fazendo escândalo querendo te ver. Diz que é sua irmã."
Continuei com o movimento das mãos: "Diga a ela que não estou."
Antes que a garçonete se virasse, a voz de Lulu já havia atravessado o salão e chegado até nós.
"Clara! Apareça aqui agora!"
Mais de uma dúzia de clientes que jantavam no salão se viraram de uma só vez.
Larguei a espátula, limpei as mãos e saí.
Lulu estava parada na porta, com o cabelo desgrenhado e olheiras tão profundas que pareciam duas manchas de carvão.
Ela vestia um moletom esgarçado e seus tênis estavam descolando na sola.
Era uma imagem completamente diferente da menina da minha memória, que usava vestidos de princesa cor-de-rosa e vivia com lanches nas mãos.
"Até que você está muito bem de vida", ela deu uma olhada na decoração da loja e soltou um riso sarcástico.
"Fale logo o que você quer."
"Já te falei cem vezes, a mamãe precisa de um transplante de fígado, volte para fazer o teste de compatibilidade."
"Eu já disse, não vou."
"Você realmente pretende vê-la morrer?"
"Quando ela me batia, nunca se perguntou se eu morreria ou não."
Lulu hesitou por um momento, mas logo em seguida sua voz subiu o tom novamente: "Isso faz quanto tempo? Você ainda guarda rancor? Ela é sua mãe de verdade!"
"Mãe de verdade?" Eu dei uma risada.
Estendi minha mão esquerda e puxei a manga até o cotovelo.
Na parte interna do antebraço, havia uma cicatriz de três centímetros de comprimento, feita por ela com um atiçador de fogo em brasa quando eu tinha dez anos.
"Guardar rancor? Lulu, você sabe como essa cicatriz surgiu?"
Ela desviou o olhar: "Não sei do que você está falando..."
"Claro que não sabe. Você estava na sala assistindo TV e comendo salgadinhos enquanto eu, na cozinha, era segurada pela sua mãe enquanto ela queimava meu braço com o ferro."
"Tudo porque eu quebrei um prato enquanto lavava a louça."
"Um prato que custava dois reais."
A expressão no rosto de Lulu congelou por um instante.
"Isso... isso já passou."