Capítulo 1
Depois de presenciar a morte dos pais, o desenvolvimento mental de Luna estagnou nos oito anos de idade, e ela ainda desenvolveu um transtorno bipolar grave.
Gustavo, o tio de Luna, assumiu a responsabilidade de levá-la para morar consigo, sem nunca demonstrar qualquer ressentimento.
Até o dia em que Luna se deparou com uma postagem em alta em um fórum local.
【Meus cunhados morreram para me salvar, e eu adotei a filha deles.】
【Mas agora estou exausto. Quero enviá-la para o exterior e deixá-la por conta própria.】
A seção de comentários estava repleta de críticas ao autor, e ela também seguiu a corrente, respondendo:
【Você é um homem sem coração. Meu tio cuida de mim há anos e nunca pensou em desistir.】
……
Luna imaginou que seu comentário se perderia entre tantas reprovações, mas, para sua surpresa, o autor respondeu instantaneamente.
【Eu não tenho coração? Meus cunhados não eram meus parentes de sangue, eu a acolhi na época apenas por pena.】
【Nesses anos, além de trabalhar, eu cuido dela. Ela tem transtornos mentais, se automutila durante as crises. Eu estou realmente exausto.】
【Eu já tenho uma pessoa que amo, não quero que ela também seja ferida futuramente.】
Ao ver a resposta do autor, ela ficou confusa, sentindo que havia algo errado.
Antes que pudesse processar tudo, ouviu um movimento na entrada da casa.
Sem pensar duas vezes, Luna largou o celular e correu em sua direção: “Gustavo! Senti tanto a sua falta!”
Gustavo estava tirando os sapatos na entrada. Com seus traços profundos e marcantes, ele a segurou firmemente com seus braços fortes.
Aquele olhar frio, que normalmente impunha respeito, encheu-se de um lago profundo de impotência e ternura.
Ele disse suavemente: “Luna, eu já disse, você deveria me chamar de tio.”
Desde que ela veio morar com ele, aos doze anos, ela ouvia essa mesma frase há doze anos.
Mas Luna nunca mudava, abraçando o braço dele: “Não quero!”
A testa de Gustavo franziu de repente. Foi só então que ela se lembrou de que ele estava ferido e soltou o braço rapidamente.
“Gustavo, seu braço ainda dói? A culpa é toda minha…”
Um turbilhão de emoções complexas surgiu nos olhos de Gustavo: “Não dói, já está melhorando. Não se culpe.”
Três dias atrás, Luna teve uma crise e começou a se automutilar. Gustavo correu para tirar a faca de suas mãos e acabou sendo gravemente cortado.
Ao ver as gotas de sangue caírem no chão, ela ficou paralisada.
Gustavo apenas jogou a faca de lado e a abraçou suavemente: “Luna, contanto que você esteja bem, não importa.”
Luna acariciou o braço de Gustavo com tristeza: “Da próxima vez, eu prometo que vou me controlar.”
Gustavo não respondeu, apenas a guiou até o sofá e a fez sentar.
“Luna, sobre o que conversamos naquele dia, de deixar Camila vir morar aqui, você já pensou a respeito?”
O nome “Camila” soou como um interruptor aterrorizante, fazendo o corpo inteiro dela tremer.
Luna olhou para ele e respondeu em voz baixa: “Gustavo, eu não quero.”
“Você disse que mais ninguém viria morar nesta casa, você me prometeu!”
Justamente por ele ter mencionado esse assunto, ela teve uma crise e se automutilou, e apenas três dias depois, ele voltava a insistir.
Será que Camila era tão importante assim para ele? Será que eu me tornei, novamente, uma criança indesejada?
Inúmeros sentimentos de pânico e raiva inundaram o cérebro de Luna, deixando-a desesperada.
Percebendo que o estado de Luna se agravava, Gustavo mudou de semblante e a prendeu firmemente em seus braços.
“Está bem, se você não quer, então esqueça.”
Ele sussurrou frases de consolo repetidas vezes, até que ela parasse de tremer e recuperasse a calma lentamente.
Luna agarrou as roupas de Gustavo com força, como se ele fosse a última tábua de salvação do mundo.
“Gustavo, você disse que ficaria comigo para sempre, você não pode mentir para mim.”
Ela não obteve resposta, ouvindo apenas o bater do coração de Gustavo ecoando em seu ouvido, batida após batida.
Muito tempo depois, Gustavo a pegou no colo e caminhou em direção ao quarto.
Ele a colocou na cama e enxugou suas lágrimas com delicadeza.
“Luna, descanse um pouco. Vou ao escritório terminar alguns trabalhos.”
Luna assentiu docilmente e, ao vê-lo sair lentamente, sentiu um aperto doloroso no peito.
Enquanto olhava fixamente para o teto, seu celular apitou de repente.
Era uma mensagem de Camila: 【Luna, por que você insiste em perseguir Gustavo de forma tão doentia? Que nojo!】
【Você mereceu perder seus pais cedo, por que você não morreu junto com eles?】
Ao ler aquelas palavras chocantes, seu coração se agitou.
Desde que conheceu Camila, a mulher adicionou seu contato no aplicativo de mensagens.
Mensagens como aquela chegavam quase todos os dias.
Luna não queria deixar Gustavo triste, por isso nunca lhe contara nada.
Mas ela também não queria que Gustavo fosse enganado por alguém como Camila.
Impedir que Camila se mudasse para lá era a única coisa que ela podia fazer.
Luna fechou o aplicativo e voltou para a postagem no fórum. A página atualizou sozinha.
Dois minutos atrás, o autor havia feito uma nova atualização.
【Será que realmente devo abandonar a pessoa que amo por alguém que não tem laços de sangue comigo?】
Os caracteres na tela pareciam venenosos, espetando seus olhos com dor.
Provavelmente por parecer tão real e dolorosa a dúvida do autor, os comentários começaram a sugerir soluções.
【Você já fez o suficiente cuidando de uma paciente com transtorno mental por sete anos.】
【Não vou te julgar, apenas sugiro que você pergunte a ela se ela tem algum desejo. Ajude-a a realizar.】
【Considere isso como uma oportunidade para vocês se despedirem bem e, a partir daí, não deverem mais nada um ao outro.】
Esse comentário foi o mais curtido. Luna fixou o olhar nessas palavras, sentindo as palmas das mãos suarem de tensão.
Logo, abaixo desse comentário, surgiu a resposta do autor: 【Obrigado.】
No segundo seguinte, passos soaram do lado de fora e Gustavo parou na porta.
Sua voz era baixa e terna: “Luna, você tem algum desejo especial que gostaria de realizar?”
Capítulo 2
Essas palavras foram ditas suavemente, mas explodiram como um trovão em seus ouvidos.
Luna ergueu os olhos bruscamente para ele, os dedos apertando o celular ainda aceso, as pontas dos dedos geladas.
O comentário no fórum, "apenas dê a ela o que ela deseja e despeça-se com dignidade", e a pergunta gentil de Gustavo diante dela, fundiram-se perfeitamente.
O autor da postagem era Gustavo; ele já havia decidido que não a queria mais.
Essa constatação atravessou o cérebro confuso de Luna como um punhal de gelo.
Ao vê-la paralisada, Gustavo estendeu a mão naturalmente para tocar sua testa.
"O que houve? Está se sentindo mal?"
Luna recuou como se tivesse levado um choque, evitando o toque dele.
Gustavo franziu a testa quase imperceptivelmente e, com teimosia, tocou sua testa.
"Não está com febre. Comeu algo que lhe fez mal esta noite?"
Sua gentileza era a de sempre, mas Luna ouviu o som de sua própria voz tremendo.
Como uma teia de aranha prestes a se romper ao vento.
"Gustavo, por que você perguntou isso de repente?"
Gustavo retirou a mão e aproveitou para massagear as próprias têmporas.
Logo, ele respondeu: "Você tem estado muito cabisbaixa ultimamente, só quis tentar te alegrar."
O coração de Luna parecia ter sido mergulhado na água gelada do mar durante o inverno, pesado e frio.
A "alegria" que Gustavo queria lhe dar seria realizar seus desejos e, então, cortarem todos os laços?
Luna baixou a cabeça, sem coragem de encará-lo. Ela não queria ver aquele olhar, antes preenchido apenas por ternura, manchado pelo desejo de abandoná-la.
Suas unhas cravaram profundamente na palma da mão; a dor a ajudou a manter um pouco do foco.
A voz de Luna saiu muito fraca: "Então, se eu tiver muitos desejos, também pode ser?"
Ela agia como uma criança mimada em uma loja de brinquedos, acreditando ingenuamente que adiar as coisas adiantaria de algo.
Luna pensou: se seus desejos fossem infinitos, se nunca chegassem ao fim, será que ele nunca poderia deixá-la para trás?
Gustavo silenciou por um momento antes de sorrir com indulgência: "Claro que pode."
"Então, qual é o seu primeiro desejo?"
Luna levantou o rosto para olhar Gustavo, que esperava pacientemente.
Sua voz rouquejou: "Eu quero que você cozinhe para mim. Gustavo, faz muito tempo que você não senta para comer comigo com calma."
Um lampejo de surpresa passou pelo olhar de Gustavo.
Seria culpa, ou hesitação? Ela não conseguiu decifrar.
Luna apenas o seguiu enquanto ele entrava na cozinha.
Ele vestiu o avental, lavou e cortou os vegetais com destreza. A luz morna da cozinha iluminava seu perfil; a ponte do nariz projetava uma pequena sombra sob suas pálpebras.
Toda vez que ele cozinhava para Luna, ele o fazia com muita seriedade.
Mas, desta vez, seu coração disparava de pavor, e seu estômago parecia preenchido por um punhado de algodão úmido e gelado.
Sem motivo aparente, ela se lembrou de sua primeira automutilação, que aconteceu depois que a pretendente de Gustavo lhe disse: "Luna, um dia você terá que deixar seu tio".