《Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo》PARTE 10

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A chuva fina caía sobre São Paulo naquela noite, mas Isabela não sentia o frio.

Desde que saiu do hospital, tudo dentro dela parecia suspenso, como se o mundo tivesse perdido a capacidade de confirmar qualquer coisa como real.

Ela caminhava sem direção pela Avenida Paulista.

As luzes dos prédios se distorciam levemente em seus olhos.

E cada passo parecia menos seu.

Mais automático.

Mais distante.

Marcos não estava mais com ela.

Henrique havia desaparecido do seu campo de visão após o colapso no hospital.

Mas algo tinha ficado.

Uma frase.

“DOIS ESTADOS ATIVOS.”

Ela repetia isso mentalmente sem parar.

“Dois estados…”

“Dois estados…”

O celular vibrou.

Mensagem desconhecida.

Sem número.

“VOCÊ PRECISA VER O QUE FOI RECUPERADO.”

Isabela parou.

Respirou fundo.

“Quem está me mandando isso…”

Outra mensagem.

“EU SOU O TÉCNICO DO BACKUP DO SISTEMA.”

Isabela hesitou.

“Backup…”

Ela abriu o link.

Tela preta.

Depois carregamento lento.

E então…

imagens.

Arquivos antigos.

Fotos borradas.

Registros parcialmente corrompidos.

Isabela franziu a testa.

“Isso não é do hospital…”

Mas continuou olhando.

E então viu.

Um nome.

LORENZO ALMEIDA MONTENEGRO

O coração dela parou por meio segundo.

“Não…”

Ela abriu o arquivo.

Vídeo.

Granulado.

Baixa qualidade.

Mas real.

Muito real.

Uma sala hospitalar antiga.

Não a atual.

Outra versão do Santa Cecília.

Mais velha.

Mais caótica.

Uma criança estava no centro da imagem.

Um menino.

Lorenzo.

Isabela começou a tremer.

“Isso… isso não é possível…”

No vídeo, uma enfermeira segurava o menino.

Ele chorava.

Chamando alguém.

“Mamãe…”

Isabela levou a mão à boca.

“Não…”

A câmera tremia.

Alguém ao fundo falava:

“PROCEDIMENTO DE ISOLAMENTO DA AMOSTRA 07.”

Isabela congelou.

“Amostra?”

De repente, outra imagem apareceu.

Relatório médico.

CLASSIFICAÇÃO: VARIANTE NEURAL SECUNDÁRIA

Isabela leu rapidamente.

“Paciente pediátrico derivado de instabilidade cognitiva da mãe.”

Ela parou.

“Derivado…”

Mais linhas surgiram.

“Manifestação de memória emocional projetada.”

Isabela começou a respirar rápido.

“Isso não pode ser meu filho…”

Mas então o vídeo continuou.

O menino olhou diretamente para a câmera.

E disse:

“Mãe, não me deixa aqui.”

Isabela caiu de joelhos na rua.

“Não…”

O telefone tocou.

Marcos.

Ela atendeu imediatamente.

“VOCÊ VIU ISSO?”

Ele respirava rápido.

“Sim.”

Isabela gritava:

“ELE EXISTE!”

Marcos hesitou.

“Existe… mas não da forma que você pensa.”

Isabela ficou imóvel.

“O que isso quer dizer?”

Marcos respondeu:

“Ele não foi registrado como nascimento normal.”

Isabela apertou o celular.

“Então o quê ele é?”

Silêncio.

Depois:

“Um evento colateral do processo de reconstrução.”

Isabela levantou a voz.

“ELE É MEU FILHO!”

Marcos respondeu mais baixo:

“Ele é uma projeção estabilizada de memória emocional.”

Isabela começou a chorar.

“Não…”

Ela correu.

Sem direção.

Até chegar ao laboratório de dados que Marcos tinha mencionado antes.

Um prédio discreto na região da Bela Vista.

Ela entrou sem autorização.

Ninguém a parou.

Como se já soubessem que ela viria.

Lá dentro, Tiago “Byte” Ribeiro a esperava.

Olheiras profundas.

Computadores ligados.

Linhas de código na tela.

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Ele olhou para ela.

“Você viu o arquivo.”

Isabela respirava pesado.

“Eu vi ele.”

Tiago assentiu.

“Sim.”

Isabela gritou:

“ELE É REAL!”

Tiago hesitou.

“Ele é funcional.”

Isabela ficou confusa.

“O quê?”

Ele virou a tela.

“Lorenzo não é uma pessoa biológica completa.”

Isabela avançou.

“Para de falar isso!”

Tiago continuou:

“Ele é um módulo de estabilização emocional gerado pelo seu primeiro colapso cognitivo.”

Isabela gritou:

“EU NÃO CRIEI UM FILHO!”

Tiago respondeu:

“Seu cérebro criou para sobreviver.”

Ela caiu em uma cadeira.

“Isso não é verdade…”

Tiago mostrou mais dados.

GRÁFICO DE INTERFERÊNCIA NEURAL

Isabela se viu lá.

Atividade cerebral em pico.

E uma formação paralela.

“PROCESSO DE COMPENSAÇÃO AFETIVA”

Isabela sussurrou:

“Ele nasceu da minha mente…”

Tiago respondeu:

“Ele nasceu do seu trauma.”

De repente, a tela travou.

E um novo arquivo começou a ser reconstruído sozinho.

Vídeo novamente.

Mas diferente.

Agora mais claro.

Mais estável.

Lorenzo estava correndo.

E chamando:

“Mamãe Isabela!”

Isabela levantou abruptamente.

“Isso está acontecendo agora?”

Tiago ficou tenso.

“Isso não deveria estar ativo…”

Isabela deu um passo à frente.

“O que você quer dizer?”

Tiago olhou para a tela.

“Esse arquivo não é passado.”

Isabela congelou.

“O que é então?”

Ele respondeu lentamente:

“É transmissão ativa.”

Isabela arregalou os olhos.

“De onde?”

Tiago não respondeu.

Mas o vídeo continuava.

E agora o menino olhava diretamente para ela.

Como se a estivesse vendo.

Mesmo através de tudo.

E disse novamente:

“Mamãe… por que você não vem me buscar?”

Isabela começou a tremer violentamente.

“Ele está… me vendo?”

Tiago respondeu em voz baixa:

“Não deveria ser possível.”

A tela começou a distorcer.

Os dados ficaram instáveis.

E uma nova linha apareceu sozinha:

“CONEXÃO ESTABELECIDA ENTRE LORENZO E INSTÂNCIA ISABELA ATIVA”

Isabela levou a mão ao rosto.

“Ele está vivo…”

Tiago respondeu:

“Ele está conectado.”

Isabela sussurrou:

“Conectado a quê?”

Tiago olhou para ela com medo real agora.

“À sua versão original.”

E então, o vídeo mudou de novo.

O menino parou de correr.

Olhou diretamente para a câmera.

E disse claramente:

“Mamãe… eu estou aqui dentro.”

Isabela ficou paralisada.

E a tela do sistema começou a mostrar algo impossível:

BATIMENTO CARDÍACO DUPLO DETECTADO

SINCRONIZAÇÃO PARCIAL EM ANDAMENTO

Isabela não conseguiu mais respirar direito.

E no fundo da tela…

o rosto de Lorenzo começou a sorrir lentamente…

como se tivesse finalmente sido ouvido.

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