《Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo》PARTE 6

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O barulho da cidade parecia distante demais quando Isabela saiu do Atlântica Tower. Ela não sabia mais se estava fugindo de um lugar ou de uma versão da própria realidade.

O celular em sua mão ainda vibrava de vez em quando, mas agora nenhum número aparecia. Apenas notificações vazias, como se o sistema estivesse respirando junto com ela.

Ela entrou em um café na Rua Oscar Freire sem perceber.

Sentou.

E abriu novamente o celular.

O vídeo.

O casamento.

O mesmo que destruiu tudo dentro dela.

Isabela apertou play.

A imagem apareceu.

Ela vestida de noiva.

Rafael ao lado.

A igreja em São Paulo, luxo absoluto, luz dourada entrando pelos vitrais modernos.

Mas algo estava errado.

Muito errado.

A imagem tremia.

Não fisicamente.

Mas como se estivesse sendo reescrita enquanto era assistida.

Isabela franziu a testa.

“Não…”

Ela aproximou o rosto da tela.

Sua própria face no vídeo começou a “falhar”.

Um frame.

Dois frames.

E então…

Por um segundo…

Seu rosto desapareceu completamente.

E no lugar apareceu outra mulher.

Isabela soltou o celular na mesa.

“Que porra é essa…”

O vídeo continuou rodando sozinho.

Mas agora o noivo também mudava.

Rafael… desapareceu.

E foi substituído por um homem desconhecido.

Mais velho.

Cabelos escuros.

Olhar vazio.

Isabela começou a tremer.

“Isso não pode estar acontecendo…”

Ela pegou o celular de novo.

Rebobinou o vídeo.

Apertou pause.

Frame por frame.

E viu.

Não era uma edição comum.

Era como se o vídeo tivesse múltiplas camadas de realidade sendo alternadas.

Ela respirava rápido.

“Eles estão mexendo nisso agora…”

Ela abriu as configurações do vídeo.

E algo chamou atenção.

Metadados.

Ela nunca tinha olhado isso antes.

Mas agora tudo parecia importante.

Data de criação:

“2019”

Data de modificação:

“27 alterações registradas”

Isabela franziu a testa.

“Vinte e sete?”

Ela clicou.

A lista apareceu.

Modificação 01 — Correção de áudio

Modificação 02 — Ajuste de rostos

Modificação 03 — Substituição de identidade do noivo

Modificação 04 — Remoção de criança do quadro

Modificação 05 — Reindexação de memória visual

Isabela parou.

“Remoção de criança…”

Seu coração disparou.

Ela continuou lendo.

Modificação 12 — Reversão de narrativa familiar

Modificação 18 — Exclusão de vínculos emocionais

Modificação 24 — Reescrita de testemunhas

Modificação 27 — Versão final estabilizada

Isabela sentiu o estômago virar.

“Isso não é um vídeo…”

Ela sussurrou.

“Isso é um arquivo vivo…”

O celular tocou.

Número desconhecido.

Ela atendeu sem pensar.

“Alô?”

Silêncio.

Depois uma voz masculina.

Calma.

Profissional.

“Você finalmente viu o vídeo, não viu?”

Isabela congelou.

“Quem é você?”

“Meu nome é Marcos Dantas.”

Ela franziu a testa.

“Você é o jornalista?”

“Sim.”

Isabela apertou o telefone.

“Você sabe o que está acontecendo comigo?”

Marcos respirou do outro lado da linha.

“Mais do que você imagina.”

Ela levantou a voz.

“Então me explica! O vídeo muda sozinho!”

Ele respondeu com calma.

“Não muda sozinho.”

Isabela ficou em silêncio.

“Então quem muda?”

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Pausa.

Depois:

“Os registros estão sendo reescritos em tempo real.”

Isabela olhou ao redor.

O café parecia normal demais.

Pessoas normais.

Vida normal.

Mas nada dentro dela era normal.

“Isso não faz sentido…”

Marcos continuou.

“Você não deveria ter acesso a essa versão do arquivo.”

Isabela ficou rígida.

“Que versão?”

“A versão sem estabilização final.”

Ela saiu do café imediatamente.

Marcos pediu para encontrá-la.

Ela foi até um estacionamento subterrâneo na Avenida Paulista.

O encontro foi rápido.

Ele já estava lá.

Câmera na mão.

Olhar cansado.

Como alguém que já viu coisas demais.

“Isabela…”

Ela não perdeu tempo.

“Me explica agora.”

Ele olhou ao redor antes de falar.

“Você não é a primeira.”

Isabela congelou.

“Como assim?”

Marcos abaixou a voz.

“Já vi isso acontecer antes.”

Ela sentiu um choque.

“Isso… comigo?”

Ele balançou a cabeça.

“Não exatamente com você. Com outras versões de pessoas como você.”

Isabela deu um passo para trás.

“Versões?”

Marcos mostrou o notebook.

Arquivos.

Vídeos.

Nomes borrados.

Histórias quase idênticas à dela.

Mulheres acordando em hospitais.

Casamentos que não existem.

Filhos apagados.

Maridos desaparecendo do sistema.

Isabela começou a tremer.

“Isso é um padrão…”

Marcos confirmou.

“Sim.”

Ela levantou a voz.

“Então por que ninguém sabe disso?”

Ele respondeu sem hesitar.

“Porque toda vez que alguém chega perto da verdade… o sistema reinicia uma parte da narrativa.”

Isabela ficou em silêncio.

“Sistema?”

Marcos fechou o notebook.

“Não é só hospital. Não é só vídeo. É uma arquitetura inteira de memória controlada.”

Isabela respirou fundo.

“Isso é impossível.”

Marcos olhou diretamente nos olhos dela.

“E mesmo assim está acontecendo com você.”

De repente, o celular de Isabela vibrou.

Uma notificação.

Sem texto.

Apenas vídeo novo.

Ela abriu automaticamente.

Marcos tentou impedir.

“Não abre isso agora!”

Mas já era tarde.

O vídeo começou.

E era ela de novo.

Mas diferente.

Mais calma.

Mais controlada.

Falando diretamente para a câmera.

“Se você está vendo isso, significa que já passou do limite de reconstrução.”

Isabela ficou paralisada.

“Não… não sou eu…”

No vídeo, ela continuou:

“Não confie no registro estável.”

Marcos arregalou os olhos.

“Isso não deveria existir…”

Isabela virou para ele.

“Você sabia disso?”

Ele não respondeu.

O vídeo continuou.

“Eles vão dizer que você nunca teve família.”

Isabela começou a tremer.

“Para…”

“No entanto, você lembra.”

Marcos deu um passo atrás.

“Isso não é edição comum…”

Isabela gritou.

“EU NÃO GRAVEI ISSO!”

Mas o vídeo terminou.

E ficou uma última imagem congelada.

Ela olhando diretamente para si mesma.

E dizendo:

“Você ainda não viu a versão mais antiga de você.”

Marcos fechou o notebook rapidamente.

“Isso está escalando rápido demais.”

Isabela respirava pesado.

“Quem está fazendo isso?”

Ele hesitou.

“Não é uma pessoa.”

Isabela franziu a testa.

“Então o quê?”

Marcos olhou ao redor do estacionamento.

“Um sistema de correção de memória coletiva.”

Isabela deu um passo para trás.

“Isso não explica o vídeo mudando sozinho.”

Marcos respondeu baixo.

“Porque o vídeo não está mudando.”

Ela congelou.

“Então o quê está mudando?”

Ele respondeu:

“A sua linha de realidade.”

Isabela abriu a boca para responder.

Mas o celular dela vibrou de novo.

Uma última notificação apareceu.

E antes que ela pudesse ler, Marcos falou uma frase que fez o sangue dela congelar completamente:

“Você não é a primeira pessoa que encontrou esse vídeo… e sobreviveu depois de ver até o final.”

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