O corredor do Cartório Central de Registro Civil de São Paulo parecia mais frio do que o normal naquela manhã.
Isabela caminhava devagar, ainda com a sensação de que o chão não era totalmente sólido sob seus pés. Cada passo ecoava como se alguém estivesse seguindo atrás dela, embora ela estivesse sozinha.
Ela segurava uma pasta azul com documentos do hospital, mas não lembrava de ter assinado nada.
Quando chegou ao balcão, a atendente levantou os olhos com neutralidade profissional.
“Bom dia, em que posso ajudar?”
Isabela hesitou.
“Eu preciso verificar um registro de casamento.”
A mulher digitou rapidamente.
“Nome completo?”
“Isabela Nogueira Almeida.”
Mais digitação. Pausa. Tela carregando.
Isabela sentiu o coração acelerar sem motivo claro.
A atendente franziu levemente a testa.
“Temos um registro sim.”
Isabela soltou o ar sem perceber.
“Mas…”
A palavra “mas” foi o suficiente para gelar tudo dentro dela.
“Mas o sistema mostra que a senhora está casada com Rafael Montenegro Vasconcelos.”
Isabela ficou imóvel.
“Isso já sei. Eu estou aqui justamente porque isso está errado.”
A atendente olhou novamente para a tela, como se algo não estivesse combinando.
“Estranho…”
“O quê?”
“Aqui aparece uma atualização recente no banco de dados.”
Isabela se inclinou para frente.
“Que atualização?”
A mulher hesitou antes de responder.
“Remoção de histórico anterior.”
Isabela sentiu um frio subir pelas costas.
“Remoção?”
“Sim. Os registros antigos foram sobrescritos.”
Isabela bateu a mão no balcão.
“Quem fez isso?”
A atendente recuou levemente.
“Isso não é visível para o atendimento comum.”
Isabela respirou fundo, tentando manter o controle.
“Então você está me dizendo que meu casamento pode ter sido… alterado?”
A mulher não respondeu diretamente.
“Eu estou dizendo que o sistema mostra apenas a versão atualizada do seu estado civil.”
Isabela deu um passo para trás.
“E onde estão os registros antigos?”
A atendente olhou para o monitor como se ele pudesse responder sozinho.
“Não estão mais disponíveis.”
Isabela sentiu a garganta apertar.
“Isso não faz sentido. Documentos civis não desaparecem assim.”
A mulher baixou o olhar.
“Normalmente não.”
A palavra “normalmente” ficou ecoando na cabeça de Isabela como um aviso silencioso.
Ela saiu do cartório quase em choque.
O sol de São Paulo parecia agressivo demais, como se estivesse exposto demais à realidade. Isabela caminhava sem direção por alguns segundos, até encostar em uma parede de vidro de um prédio no centro.
Seu reflexo a encarava.
Mas por um instante, ela teve a sensação de que aquela não era ela.
Ela piscou forte.
“Eu estou ficando louca…”
Pegou o celular.
Sem saber exatamente por quê.
Pesquisou: Rafael Montenegro Vasconcelos.
Resultado imediato.
Empresário.
Grupo Montenegro Saúde e Tecnologia.
CEO.
Casamento registrado com Isabela Nogueira Almeida.
Mas quando clicou no perfil oficial da empresa…
A página não carregava completamente.
Erro.
“Conteúdo indisponível.”
Ela tentou novamente.
Mesmo erro.
Isabela apertou o celular com força.
“Isso não é normal.”
Ela decidiu ir até o endereço da empresa.
O prédio da Montenegro Saúde ficava na região da Faria Lima.
Um edifício de vidro espelhado, alto, imponente, como todos os prédios daquele pedaço de São Paulo.
Mas havia algo errado.
Quando Isabela entrou na recepção, a atendente olhou para ela como se estivesse esperando alguém diferente.
“Posso ajudar?”
“Eu quero falar com Rafael Montenegro.”
A mulher hesitou.
“Ele não está disponível.”
“Ele trabalha aqui?”
A recepcionista olhou para um ponto fixo por um segundo.
“Sim… mas não recebe visitas sem autorização.”
Isabela insistiu.
“Sou esposa dele.”
Silêncio.
A recepcionista digitou algo no computador.
Franziu a testa.
“Senhora… não existe registro ativo desse nome aqui na empresa.”
Isabela congelou.
“Como assim não existe?”
A mulher virou o monitor discretamente.
Isabela viu de relance.
Nenhuma foto de Rafael.
Nenhum nome.
Nenhum CEO listado.
Ela deu um passo para trás.
“Isso é impossível.”
A recepcionista parecia desconfortável.
“Talvez a senhora esteja confundindo empresa…”
Isabela interrompeu.
“Eu vi ele em vídeos, contratos, hospital…”
Mas a voz dela já estava tremendo.
Porque pela primeira vez ela percebeu algo assustador:
Quanto mais ela tentava provar que ele existia…
Mais ele desaparecia do mundo ao redor.
Ela saiu do prédio quase correndo.
O ar parecia pesado.
O celular vibrou.
Mensagem desconhecida.
Sem número.
Apenas texto:
“VOCÊ ESTÁ PROCURANDO ALGUÉM QUE NÃO ESTÁ MAIS NO SISTEMA.”
Isabela parou no meio da calçada.
“Quem está me enviando isso?”
Outra mensagem apareceu.
“VOCÊ AINDA ESTÁ NO VERSO ANTIGO.”
Ela sentiu o sangue gelar.
“Isso não faz sentido…”
Ela olhou ao redor.
As pessoas passavam normalmente.
Ninguém parecia perceber nada estranho.
Mas tudo dentro dela gritava que algo estava profundamente errado.
Ela correu para o hospital novamente.
Hospital Santa Cecília.
Mesmo corredor.
Mesmo cheiro.
Mas desta vez tudo parecia mais observador.
Como se o prédio estivesse “vendo” ela.
Isabela entrou na sala de arquivos médicos.
Um funcionário a reconheceu.
“Dona Isabela…”
“Eu preciso do meu prontuário completo.”
Ele hesitou.
“Isso precisa de autorização médica.”
“EU JÁ TIVE AUTORIZAÇÃO.”
Ela bateu a mão na mesa.
O homem suspirou e abriu o sistema.
Digitou o nome dela.
Tela carregando.
Segundos longos demais.
Então ele franziu a testa.
“Isso não está certo…”
“O quê?”
Ele digitou novamente.
Mais rápido.
Mais nervoso.
“Seu registro está incompleto.”
Isabela aproximou o rosto da tela.
“Mostra pra mim.”
Ele virou o monitor.
E ela viu.
Seu nome.
Mas ao lado dele…
um campo vazio onde deveria estar o histórico familiar.
Sem marido.
Sem filhos.
Sem vínculo conjugal.
Ela sentiu o mundo girar.
“Não…”
Ela clicou na aba de casamento.
Erro.
Acesso negado.
Código: RESET-STATE PENDING
Isabela recuou.
“Isso é erro do sistema.”
O funcionário a olhou com medo.
“Senhora… esse tipo de erro não aparece no sistema civil.”
Ela não respondeu.
Porque naquele instante, no canto inferior da tela…
apareceu uma linha nova sendo digitada automaticamente.
Como se alguém estivesse escrevendo o mundo em tempo real.
E a frase final surgiu sozinha:
“USUÁRIO RAFAEL MONTENEGRO NÃO EXISTE NESTA VERSÃO DA REALIDADE.”