"Brincando de esconde-esconde com o papai de novo, não é? Dois pestinhas tão travessos..."
Ele espiou debaixo da cama, abriu o guarda-roupa para procurar, empurrou a mesa, destruiu os utensílios de cozinha; seus movimentos tornavam-se cada vez mais frenéticos, agindo como se estivesse possuído, causando um barulho ensurdecedor.
"Toc, toc, toc!"
O som de batidas na porta iluminou os olhos de Samuel. Enquanto caminhava em direção a ela, dizia: "Então vocês se esconderam lá fora, deram um susto enorme no papai."
No meio da noite, um vizinho furioso, perturbado pelo barulho, gritou assim que alguém abriu a porta.
"Você não tem educação, todo dia aqui..."
Seu rosto empalideceu ao olhar para o homem à sua frente, que exalava uma frieza sinistra segurando uma faca de cozinha, com o olhar louco e um sorriso nos lábios, perguntando-lhe calmamente:
"Quem é você? Onde você escondeu minha esposa?"
O vizinho olhou trêmulo para os móveis quebrados atrás dele e para a faca lascada em sua mão; virou-se e fugiu gritando de volta.
O homem ficou parado no lugar sem expressão. A luz de fundo deixava seu rosto indistinto, mas era claramente visível que seu temperamento não era o de uma pessoa comum.
Ele fechou a porta e voltou-se para olhar a sala e os móveis destruídos. Palpitações constantes fizeram-no perder o controle do cabo da faca, que caiu no chão.
"Clang."
Ele baixou os olhos para a lâmina que refletia a luz, passou por cima dela e foi ao quarto buscar o esfregão e o pano.
"Está sujo, vou limpar novamente..."
Nos seus ouvidos, a voz infantil de Arthur soava.
"Papai, não quero comer bolo, quero comer asas de frango feitas de carne de besta mutante! Também quero comer muitas outras coisas gostosas!"
Samuel exibiu um sorriso banhado em lágrimas enquanto limpava o chão, tentando acalmá-lo.
"O papai vai fazer para você imediatamente. Primeiro, vamos limpar a casa, tudo bem?"
"Tudo bem, papai anotou tudo o que você quer comer. Vá brincar com a mamãe primeiro..."
Na sala vazia, restava apenas a voz do homem em um diálogo solitário, como se realmente houvesse alguém ao seu lado.
"Eu amarei vocês para sempre... me desculpem..."
Capítulo 22
A chuva ácida caía torrencialmente, e as janelas balançavam com o vento, fazendo um som de farfalhar como se alguém estivesse chorando.
Nuvens escuras agitavam-se no céu, trovões explodiam incessantemente nos ouvidos, fazendo o coração disparar. A chuva ácida caía como uma cachoeira, inundando as ruas instantaneamente.
Um raio despertou Samuel de seu estado de transe. Suas mãos, que antes abraçavam o ar, caíram sem forças. Lágrimas rolavam incontrolavelmente, seu peito sentia-se tão pesado e ansioso que ele mal conseguia respirar, e o desespero em seu coração surgia como uma maré.
Ele lutava no abismo do desespero, agarrando-se a alucinações auditivas que apareciam de vez em quando, obcecado pelas ilusões que às vezes surgiam diante de seus olhos. Seus pensamentos estavam tão confusos que não conseguia desembaraçá-los, com as memórias na mente e a realidade em constante conflito.
Samuel não queria acordar, mas também temia mergulhar em sonhos falsos. Às vezes ele queria se salvar, às vezes queria se afundar, e às vezes queria partir com eles.
Olhando para o cinza tempestuoso lá fora, memórias desesperadoras surgiam incessantemente. O homem, escravizado por suas emoções, encolheu-se em um canto; a tortura da doença prolongada o deixou magro, quase conseguindo-se ver os ossos em seus pulsos.
Ele olhou para a janela que balançava continuamente e, num transe, viu Helena, que antes era atormentada por pesadelos, sentada no parapeito. A figura esguia parecia prestes a cair, com seu longo cabelo negro flutuando ao vento.
"... He... lena..." Uma voz áspera saiu da boca do homem. Parecia que ele não falava há muito tempo, ou talvez fosse por falar todos os dias que sua voz se tornara tão rouca.
Samuel levantou-se e caminhou em direção à janela, abraçando suavemente o corpo de Helena. Mesmo com seu cabelo negro batendo em seu rosto, ele não o soltou, seus olhos cheios de uma obsessão dolorosa.
"Que dia é hoje?"
Samuel escondeu a dor nos olhos e murmurou uma resposta.
"Você realmente precisa que eu responda, Helena..."
Ela parecia balançar a cabeça levemente.
O homem abaixou a voz como uma criança que cometeu um erro, com um tom de amargura, repetindo as mesmas frases.
"Perdoe-me, perdoe-me..."
De repente, um vento forte soprou e a silenciosa Helena desapareceu, deixando Samuel em pânico, gritando:
"É o dia de finados seu e do Arthur!"
Ainda ninguém respondia. Seus olhos estavam cheios de dor; ele estendeu a mão para cobrir o próprio rosto, e um gemido triste, acompanhado de alguns soluços, escapou de sua garganta.
Depois de muito tempo, ele moveu os membros rígidos e forçou um sorriso choroso.
"Eu vou visitar vocês, pode ser?"
Samuel não dirigia há um ano e pegou a estrada um pouco enferrujado.
No caminho, encontrou veículos blindados que buzinavam e o xingavam, mas o homem continuou seguindo seu caminho, ignorando-os.
No carro, ele comprara muitas flores e brinquedos cultivados em estufas, além de diversos tipos de dinheiro funerário, casas de papel, carros de papel, tudo embalado em sacos.
Desolado, ele carregou todos os pacotes até o morro fora da base, parando em uma encosta voltada para o leste.
Ele pegou uma pá, limpou as ervas daninhas, queimou todas as coisas para eles e também dispôs vários tipos de comida e bebida.
Suas lágrimas não paravam de cair, e seu olhar estava vazio, sem saber onde estava.
Finalmente, encostou-se no túmulo de costas para o sol poente, murmurando as palavras que queria dizer.
"Você não sabe o quanto eu te amava antes. Naquela época, eu nem queria pesquisar habilidades, só queria te levar para passear todos os dias..."
"Depois que os suprimentos ficaram escassos, vendo seu rosto preocupado, eu quis me tornar o maior especialista em cura. Enquanto você estivesse em casa, tudo bem, eu ganharia pontos de contribuição para você..."
"Eu queria dar o melhor para meu filho e minha esposa. Eu penso que não deveria ter deixado você esperando lá por tanto tempo, eu não deveria ter ficado bravo com os outros, eu..."
Todas as palavras diante do túmulo eram apenas frases vazias, nada mais.
Samuel falava com um rosto vazio, como se estivesse imerso no sonho que tecera e não quisesse acordar, até que começou a chover novamente e um trovão do céu o atingiu, trazendo-o de volta à razão.
Samuel levantou-se encharcado, estendeu a mão para tocar o túmulo à sua frente e sorriu.
"A esposa está me esperando em casa. Vou à cantina da base trocar alguns ingredientes para cozinhar para vocês."
Passando sem expressão pelos transeuntes que chegavam com guarda-chuvas para homenagear os mortos, ignorando suas vozes gritando de medo, ele contava para si mesmo quais pratos faria mais tarde.
Assim, dirigindo de forma desleixada, quando passou pelo teatro da ópera, não pôde evitar parar e caminhar para dentro.
Um trovão explodiu diante dele; a pessoa escondida no fundo de sua memória estava parada nos bastidores do teatro.
Capítulo 23
O céu estava terrivelmente escuro e trovões avassaladores soaram, fazendo com que a casa inteira parecesse tremer.
A chuva ácida desabou em seguida, batendo nas pessoas de forma densa, como pontas de agulha, trazendo um frio cortante.
Ao redor, tudo estava muito escuro; o clima agora era exatamente igual àquela noite.
Aquele homem estava parado na porta dos bastidores do teatro da ópera, segurando um guarda-chuva velho e acariciando o queixo. Seu rosto foi iluminado pelo relâmpago por apenas um instante, mas ficou profundamente gravado nos ossos de Samuel.
O homem acariciou o queixo e estalou a língua, com um sorriso de satisfação no canto da boca, como se suspirasse.
O que ele estava dizendo?
"... Que pena, aquela vadia morreu, ninguém mais vai me enviar algo de tão alta qualidade... Droga, aquela vadia morta ainda queria me denunciar. Felizmente, fui esperto, paguei a fiança dela e a matei... e ainda me ameaçou."
O que ele estava dizendo?
"... Que pena que não fiz mais vezes naquela época, é raro encontrar algo tão especial..."
As pálpebras de Samuel tremiam sem parar, sua respiração tornou-se pesada, seus olhos ficaram vermelhos como sangue, e uma violência terrível se acumulou em seu olhar.
Sua figura, que permanecia imóvel por um longo tempo, atraiu a atenção daquele homem. Ele olhou para trás, para Samuel, estalando a língua com desinteresse, e as coisas que saíam de sua boca eram extremamente nojentas.
"Ei, o que você está esperando? Esperando uma gata como eu?"
Ele acariciou a cabeça e provocou com pesar.
Samuel estava encharcado pela chuva ácida; metade de seu rosto estava escarlate sob a luz fraca, e a outra metade estava submersa na escuridão; o sabor de sangue circulava em sua boca.
A pessoa à sua frente continuava a falar sem filtros; talvez nunca tivesse encontrado alguém que o ouvisse por tanto tempo, e ele falava com ainda mais entusiasmo.
"Você não sabe como é bom, os gritos daquela vadia enquanto lutava..."