Clara também bebeu. Ela colocou a taça de lado e serviu-lhe comida.
“Ian, tenho algo a lhe dizer.”
Ian olhou para ela.
Clara baixou a cabeça, os dedos acariciando levemente a borda da taça. “Sempre gostei de você desde criança,” ela disse. “Você sabe disso.”
Ian não respondeu.
“Crescemos juntos, brincamos juntos, fomos à escola juntos. Eu pensei que ficaríamos juntos para sempre.” Ela levantou a cabeça e olhou para ele. “Mas você a conheceu.”
As sobrancelhas de Ian se contraíram. “Alguém como ela,” a voz de Clara era suave, “não é do nosso mundo. Ela tem dinheiro, status, tem aquele mundo dela. Ian, você e eu, sim, somos do mesmo caminho.”
Ian quis dizer algo, abriu a boca, mas percebeu que sua língua estava um pouco dormente.
“Quando ela te perseguiu, você acha que ela era sincera?” Clara continuou. “Uma madame como ela, o que não consegue ter? Ela só estava querendo uma novidade. Quando a novidade passar, ela vai te descartar.”
Ian quis rebater, mas não conseguia falar; sua consciência começou a ficar turva, algo estava errado.
Ele levantou a cabeça bruscamente, olhando para Clara.
Clara ainda falava, ainda sorria, mas o rosto dela começou a oscilar em sua visão, tornando-se embaçado.
“Você…”
Ian apoiou-se na mesa para levantar, suas pernas cederam e ele caiu de volta na cadeira.
Clara olhou para ele, e o brilho em seus olhos mudou. “Ian,” ela levantou-se e caminhou até ele. “O que houve com você?”
Ian agarrou a mão dela com muita força. “Você me drogou?”
Clara não disse nada; ela se inclinou, aproximando-se dele.
“Ian, nos conhecemos há tantos anos. Por que quem está com você no final não sou eu?”
Ian tentou empurrá-la, mas suas mãos não tinham força alguma.
O rosto de Clara estava cada vez mais perto; ela se abaixou para beijá-lo.
Ian mordeu a língua com força.
Dor.
O gosto de sangue se espalhou em sua boca. Aquela pontada de dor o manteve lúcido por um segundo. Ele usou toda a força de seu corpo para empurrá-la para longe.
Clara caiu no chão, atônita.
Ian levantou-se tropeçando e correu para o banheiro.
A porta se fechou com um estrondo e ele trancou por dentro.
Ele abriu a torneira e jogou água fria no rosto freneticamente. Uma vez, duas vezes, três vezes. A água escorria pelo pescoço, entrando na gola da camisa, mas seu corpo continuava queimando como fogo.
Não adiantava; ele olhou para si mesmo no espelho. Seu rosto estava anormalmente vermelho, seus olhos injetados, como se estivesse prestes a entrar em combustão.
Ele abriu a porta, correu para a cozinha, puxou a geladeira e derramou todos os cubos de gelo.
Então, voltou ao banheiro, encheu a banheira com água fria e jogou todo o gelo dentro.
Ele mergulhou.
A água gelada cobriu seu corpo, sua cintura, seu peito. O frio o fazia tremer, seus dentes batiam; ele sentia que estava prestes a morrer.
Mas era melhor do que aquela sensação de estar queimando.
Ele se encostou na banheira, ofegante.
A porta foi batida.
“Ian,” a voz de Clara vinha de fora, com um tom de choro. “Ian, você está bem?”
Ian não respondeu. “Ian, eu não fiz de propósito, eu só te amo demais, o que eu fiz de errado?”
Ian fechou os olhos.
Depois de muito tempo, ele falou. Sua voz estava rouca.
“Sua conta, eu acertarei com você devagar.”
Lá fora, houve um segundo de silêncio.
“Você conspirou com os sequestradores.” ele disse. “Você calculou que eu acreditaria no que você dissesse.”
A voz de Ian ecoou no banheiro. “Você calculou que eu te protegeria, que acreditaria em você, que a empurraria para longe.”
Clara não disse nada.
“Você estava errada.” Ian disse. “Ela é uma madame, mas ela nunca se rebaixaria a usar tais meios para prejudicar alguém.”
Então a voz de Clara soou, muito suave: “Vocês já estão divorciados, Ian, você só tem a mim agora.”
Ian ficou paralisado.
A água na banheira estava muito fria, congelando seu corpo inteiro, mas essa frase era mais fria que a água.
Ian recostou-se na banheira, com a água gelada cobrindo seu queixo, seus lábios arroxeados pelo frio, o corpo tremendo.
Mas ele não saiu de lá.
Ian fechou os olhos.
A água gelada cobriu os cantos da boca, os lábios, o nariz.
Ele não se moveu, pensando: que seja assim, mas no final ele se sentou.
Porque ele se lembrou de que Nina ainda não tinha sido encontrada.
Ele ainda devia a Nina um pedido de desculpas; ele ainda não podia morrer.
Ele apoiou-se na borda da banheira para levantar, saiu e caiu no chão.
Capítulo 14
O dia amanheceu.
Ian estava sentado no sofá, sem dormir a noite toda. Suas roupas ainda estavam úmidas, seu cabelo ainda úmido, ele parecia ter sido retirado de dentro da água. Ele não trocou de roupa, não se moveu, apenas ficou sentado, encarando o celular na mesa de centro.
O celular não tocou.
Ele não sabia há quanto tempo estava sentado ali. A luz lá fora mudou de cinza para brilhante, de brilhante para ofuscante. Ele piscou uma vez, depois outra; suas órbitas oculares doíam de tão secas.
De repente, uma batida apressada na porta.
Pá, pá, pá.
Ian hesitou e levantou-se. Suas pernas estavam fracas; ele se apoiou na parede e foi abrir a porta.
Do lado de fora, havia vários policiais.
“Ian, correto?” o policial líder mostrou sua identificação. “Clara está?”
Ian não disse nada e deu um passo para o lado.
Os policiais invadiram.
Clara levantou-se do sofá e seu rosto empalideceu instantaneamente.
“Clara,” o policial caminhou até ela, “você está sendo acusada de homicídio doloso, venha conosco.”
Clara recuou um passo, batendo no sofá.
“Eu não fiz isso,” sua voz tremia, “vocês estão enganados.”
O policial a ignorou e tirou as algemas.
Clara entrou em pânico. Ela virou-se para Ian, com os olhos cheios de lágrimas, com um ar extremamente patético.
“Ian,” sua voz estava cheia de terror, “Ian, me salva, eu realmente não fiz, ajude-me a falar com eles.”
Ela correu na direção dele, estendendo a mão para tentar agarrar sua manga.
Ian estava parado na porta, observando-a correr até ele.
Observando-a chorar, observando sua mão estendida.
Ele deu um passo para o lado.
A mão de Clara agarrou o ar; ela ficou atônita e olhou para cima, para ele.
Ian não olhou para ela.
O policial se aproximou e agarrou o braço de Clara, colocando as algemas nela. Clara lutou um pouco, mas não conseguiu se soltar, e as lágrimas desciam torrencialmente.
“Ian! Você não pode fazer isso! Nós crescemos juntos desde crianças! Você vai me abandonar?”
“Você tem que me salvar! Ian! Me salva!”
Quando Clara foi conduzida até perto dele, ela de repente começou a lutar desesperadamente. Ela se soltou do policial, jogou-se diante de Ian e ajoelhou-se, agarrando a perna de sua calça.
“Ian, eu te imploro, veja pelos anos que crescemos juntos, ajude-me…”
Ian baixou a cabeça e olhou para ela.
Ele conhecia aquele rosto há mais de uma década; quando ela chorava, ele a confortava; quando sorria, ele a via; quando adoecia, ele a cuidava.
Ele sempre achou que a conhecia.
Sempre achou que ela era gentil, simples e que precisava de sua proteção.
Sempre achou que tudo o que ela dizia era verdade, que suas lágrimas eram reais; ele se agachou e olhou para ela.
Os olhos de Clara brilharam: “Ian.”
Ian olhou para ela e falou: “Se você não tivesse aparecido, o que teria acontecido?”
Clara não disse nada.
“Talvez ela não estivesse flutuando na água,” Ian disse. “Talvez ela não tivesse caído no mar. Talvez ela estivesse bem agora, sentada em casa, esperando por mim.”
Ele abaixou a cabeça e olhou para ela.
Ele levantou a mão.
Pá.
Um tapa em seu próprio rosto. Muito alto.
Clara ficou estupefata, os policiais também.
Pá.
Outro tapa.
Ian abaixou a mão, com duas marcas vermelhas no rosto. Ele olhou para Clara com um olhar vazio, sem dizer nada.
Os policiais levaram Clara para fora. Ao chegar à porta, Ian de repente falou.
“Espere um pouco.”
O policial líder olhou para trás.
Ian caminhou até ele.
“Há notícias?” sua voz estava rouca, “Ela… está viva ou morta?”
O policial o observou por alguns segundos.
“Ainda não há notícias,” ele disse. “Procurar alguém no mar não é rápido. Se houver notícias, avisaremos.”
Ian assentiu, virou-se e voltou para a sala, sentando-se no sofá.
O celular tocou.
Ele largou o registro de divórcio e pegou o celular.
Era uma mensagem de texto, de um número desconhecido.
“Eu sei onde Nina está. Se quiser saber, venha sozinho a este endereço.”
Abaixo, havia uma localização.
Ian pegou a chave do carro sem hesitar e saiu.
Capítulo 15
Ian dirigia em direção àquele endereço.
No caminho, ele furou quatro sinais vermelhos, raspou o retrovisor de um táxi e derrubou uma lixeira na beira da calçada.
Ele não se importava com nada; seu pé permanecia pressionado no acelerador, a localização no celular aproximava-se cada vez mais e seu coração batia mais rápido a cada segundo.