Lembrou-se dele pedalando uma hora e meia na bicicleta elétrica para comprar bolinhos para ela.
Lembrou-se dos dois segundos de hesitação dele fora do tanque de água.
Lembrou-se dele a empurrando e dizendo: “Eu a dou em troca.”
Ela fechou os olhos. Quem diria que o mar fosse tão frio.
Capítulo 8
Já eram duas da manhã quando Ian ajudou Clara a entrar em casa.
Ela ainda chorava, soluçando, pendurada no pescoço dele. Ian a deitou no sofá e foi buscar a caixa de primeiros socorros.
“Onde você se machucou?” ele perguntou.
Clara estendeu a mão para mostrar as marcas das cordas nos pulsos.
De fato, havia marcas avermelhadas, mas nem sequer chegava a ter cortes na pele.
Ian olhou rapidamente, depois olhou para os pés dela; também estavam avermelhados e um pouco sujos, mas sem ferimentos.
Ele pegou um chumaço de algodão com antisséptico para limpar os pulsos dela.
“Dói?”
“Dói,” Clara disse baixinho, com os olhos marejados novamente.
Ian não respondeu, apenas continuou a limpar.
Enquanto limpava, ele hesitou por um momento.
Os rastros das lágrimas eram superficiais.
Se ela tivesse chorado por tanto tempo, as marcas das lágrimas deveriam estar em fileiras. Mas o rosto dela estava limpo, apenas com um pouco de umidade nos cantos dos olhos.
Ele continuou limpando.
“Quanto tempo você ficou presa?” ele perguntou.
Clara balançou a cabeça: “Eu não sei… por muito, muito tempo…”
“Aquele grupo disse quem eles eram?”
Clara baixou a cabeça, silenciou por alguns segundos, depois levantou os olhos para ele, com as órbitas cheias de lágrimas novamente.
“Eles disseram que foi a Nina quem enviou,” sua voz era fina, com um tom de choro. “Eu ouvi escondida.”
A mão de Ian parou. Ele olhou para Clara e franziu a testa.
“Você tem certeza?”
Clara assentiu: “Eles disseram que foi ordem daquela da família Shen, que bastava dar um susto.”
Ian não disse nada; baixou a cabeça e continuou limpando. O cotonete passava sobre os pulsos dela: uma, duas, três vezes.
No entanto, outra coisa vinha à sua mente.
Na hora de sair, Nina foi arrastada para o barco.
Ele foi parado pelos sequestradores, empurrou Nina e disse: “Eu a dou em troca.” Os sequestradores amarraram Nina ao mastro, e ele foi embora sem olhar para trás.
Se tudo aquilo foi realmente armado por ela, encenado, será que era mesmo necessário ir tão longe?
Os movimentos de sua mão tornaram-se mais lentos.
“Pense bem,” ele falou, com a voz um pouco rouca, “você tem certeza de que eram pessoas dela?”
Clara ficou atônita e levantou os olhos para ele. “Ian, você não acredita em mim?”
“Não é que eu não acredite.” Ian fechou a caixa de remédios. “Só estou perguntando.”
Clara olhou para ele, com os olhos vermelhos novamente: “Essas madames, brincar com pessoas como nós, não é normal? Quando ela te perseguiu, foi com toda aquela pompa, agora que não quer mais brincar, ela me afasta, o que tem de estranho nisso?”
Ian ficou em silêncio por um momento.
“É verdade,” ele disse, “mas o coração dela não é ruim.”
Clara ficou boquiaberta, olhando para Ian como se não tivesse entendido a frase.
Ian não olhou para ela. Ele afastou a caixa de remédios e levantou-se. “Durma. Falamos amanhã.”
Ele entrou no escritório e fechou a porta.
O quarto estava silencioso. Ele não acendeu a luz e sentou-se na escuridão por um longo tempo.
Ao fechar os olhos, não foi a imagem de Clara chorando que surgiu, mas outro rosto.
Aquele rosto olhando para ele sob o vento do mar, perguntando: “Como você tem coragem?”
Ele lembrou-se dos pés descalços dela, pisando no cascalho, com as solas cobertas de sangue.
Na escuridão, ele abriu os olhos.
A luz de um poste lá fora filtrava-se, projetando um brilho difuso no teto.
Ele olhou para aquele brilho, sem saber por quanto tempo, e adormeceu.
Na manhã seguinte, ele foi acordado por gritos.
“Ian! Algo terrível aconteceu!”
Clara correu para o escritório segurando o celular, com o rosto branco como papel.
Ian sentou-se subitamente: “O que foi?”
Clara entregou-lhe o celular, com as mãos trêmulas.
Na tela, uma notificação de notícias: “Nina, herdeira do Grupo Shen, desaparecida no mar ontem à noite; a polícia começou as investigações.”
Ian encarou aquelas palavras, imóvel.
“Ian.” A voz de Clara tremia.
Ian arrancou o celular de sua mão. A notícia era curta, dizia que Nina desaparecera no cais na noite anterior, manchas de sangue e cordas foram encontradas no local, suspeitando-se de sequestro. A polícia estava fazendo buscas intensas.
Ele rolou a tela para baixo.
Havia uma foto. Era o mesmo cais durante o dia, o barco de pesca abandonado ainda ancorado, e metade de uma corda quebrada pendurada no mastro.
Ele reconhecia aquele mastro; foi ele mesmo quem a colocou lá ontem.
O celular escorregou de suas mãos e caiu no chão.
Ele levantou-se e correu para fora.
Capítulo 9
Ian correu até a porta, e quando sua mão tocou a maçaneta, a voz de Clara veio de trás dele.
“Ian, espere um pouco.”
Ele olhou para trás e viu Clara parada no centro da sala, com o rosto pálido e os olhos avermelhados.
“Onde você vai? Procurá-la?”
Ian não disse nada.
Clara se aproximou, parou diante dele e olhou para cima.
“Ian, você já pensou que — isso pode ter sido armado por ela?”
Ian hesitou por um momento.
“As notícias dizem que ela está desaparecida,” a voz de Clara era muito suave, com um leve tremor, “mas você viu o que aconteceu ontem à noite. Quando ela foi amarrada, ela não disse uma única palavra. Se ela estivesse realmente com medo, ela não teria dito nada?”
Ian olhou para ela.
“Aquele grupo disse que foi ela quem enviou,” Clara continuou, “eu ouvi com meus próprios ouvidos. Ela só quer que você fique ansioso, quer que você sinta pena, quer que você vá atrás dela. E quando ela reaparecer, você vai ficar com o coração mole.”
Ian franziu a testa, “Ela não é esse tipo de pessoa.”
“Não é esse tipo de pessoa?” Clara sorriu amargamente. “Ian, você não viu como ela era quando te perseguia? O alvoroço, as telas gigantes, que truque ela não usou? As coisas que ela queria, quando é que ela não conseguiu?”
Ian não respondeu.
“Agora ela está brava,” a voz de Clara baixou, “então ela quer fazer cena, quer te deixar mal, quer que você não consiga esquecê-la. Não é exatamente isso que essas madames sabem fazer de melhor?”
Ian estava parado na porta, com a mão ainda segurando a maçaneta.
Muitas cenas passaram por sua mente.
Naqueles três meses em que ela o perseguiu, vinha todo dia, esperava todo dia. Ele a evitava, e ela comprava acessórios e pedia para alguém entregar. Ele devolvia, e no dia seguinte ela enviava novamente.
Se tudo isso foi realmente planejado por ela, será que aquele olhar final que ela lançou a ele também foi encenado?
“Ian,” Clara caminhou até o lado dele e segurou suavemente sua manga, “não quero semear discórdia entre vocês. Só tenho medo que você seja enganado. Alguém como ela, o que lhe falta? Se ela realmente se importasse com você, ela teria deixado você ir?”
Ian abaixou a cabeça e olhou para ela.
“Ela não disse nada porque, no fundo, ela não se importa.” Clara olhava para ele, “O que ela se importa é com o que ela quer, não com você. Quando ela te queria, perseguiu-o aos quatro ventos. Quando ela não te quer mais, ela te faz sofrer a vida toda. Isso não é amor, Ian, isso é posse.”
Ian ficou na porta, imóvel.
Sua mão ainda segurava a maçaneta, mas ele não a abriu.
Sua mente estava um caos, as palavras de Clara penetravam em sua cabeça, uma a uma.
“Ian,” Clara balançou suavemente sua manga, “não vá. Ela vai ficar bem. Se ela estivesse realmente em perigo, aquelas pessoas não a teriam soltado. Você não viu? Quando ela foi amarrada, aquelas pessoas não fizeram nada com ela.”
Ian abaixou a cabeça, olhou para ela e soltou a maçaneta.
Ele recuou um passo e voltou para a sala.
Clara hesitou e então o seguiu: “Você não vai mais?”
Ian não respondeu. Ele caminhou até o sofá, sentou-se e abaixou a cabeça, sem saber o que estava pensando.
Clara sentou-se ao seu lado e encostou-se levemente em seu ombro.
“Ian, não me leve a mal por falar demais. Só estou preocupada com você. Você foi tão bom para ela, e ela nunca levou a sério. Você se lembra do que ela te pediu para fazer naquele ano?”
Ian não respondeu.
“Ela te pediu para ir comprar bolinhos no auge do inverno, três horas de ida e volta na bicicleta elétrica. Você comprou, ela comeu dois e disse que não queria mais.”
Ian lembrou-se daquele dia. Ele pedalou uma hora e meia, ficou meia hora na fila e pedalou mais uma hora e meia de volta. Os bolinhos ainda estavam quentes, ela comeu dois e disse: “Parece que não estão tão gostosos quanto antigamente.”