Nina ficou onde estava, como se alguém tivesse despejado um balde de água gelada sobre sua cabeça.
“Vocês, pessoas ricas,” Ian disse, palavra por palavra, “tratam a vida dos outros como se fosse capim?”
Nina olhou para ele.
Pá.
Um tapa atingiu seu rosto, deixando o quarto num silêncio absoluto.
Ian virou o rosto, estupefato.
“Recupere o juízo.” A palma da mão de Nina ardia, mas ela levantou o olhar, com a voz trêmula. “Se Clara está neste quarto, é por respeito a você. Se disser mais uma palavra dessas, farei os dois saírem daqui juntos.”
Ian virou o rosto lentamente, como se tivesse sido acordado pelo golpe. Seus olhos estavam vermelhos, mas ele cerrou os punhos.
Atrás dele, um baque surdo.
Nina olhou para trás. Clara estava ajoelhada no chão, pálida, com lágrimas grossas rolando pelo rosto.
“Nina, por favor, não culpe Ian,” ela chorou. “Ele não quis dizer isso, ele só está preocupado comigo. Não briguem, tudo é culpa minha, vou embora agora mesmo.”
Ian não hesitou. Ele correu e levantou Clara do chão.
“Naquela época, na escolha entre vocês duas,” ele disse olhando para Nina, “eu me arrependi.”
O coração de Nina contraiu.
“Você, como uma dama da alta sociedade,” Ian continuou, “não aguento mais.”
Ele saiu arrastando Clara. Ao chegar na porta, parou.
Ele tirou uma quantia em dinheiro da carteira, virou-se e jogou tudo para o alto.
As notas caíram sobre o rosto de Nina, espalhando-se pelo chão.
“Estamos quites.”
Capítulo 3
Nina voltou para casa e parou no centro da sala.
A porta se fechou atrás dela.
O rosto de Ian ainda estava em sua mente.
Nina pegou o celular e discou o número da governanta: “Dona Wang, venha até aqui.”
Meia hora depois, ela estava sentada no sofá, observando Dona Wang retirar as coisas de Ian do quarto, peça por peça.
Roupas, sapatos, livros, e aquela caixa de música que ele mesmo fez, que ficava no criado-mudo. Foi o presente do primeiro aniversário de casamento; ao abrir a tampa, havia miniaturas deles dois, ele fazendo mágica e ela rindo ao lado.
“Jogue fora,” ela disse.
Dona Wang segurava as coisas, querendo dizer algo, mas acabou saindo em silêncio.
Nina levantou-se e caminhou até a parede da sala.
A foto de casamento estava lá, Ian ajoelhado diante dela com o anel nas mãos. A imagem estava congelada naquele instante.
Ela trouxe uma cadeira, subiu nela e retirou o porta-retratos. Com ele nos braços, foi até o jardim, colocou-o no chão e voltou para buscar um isqueiro.
Quando a chama subiu, ela se agachou ao lado e observou.
Ele na foto foi lentamente se contorcendo, escurecendo, até virar cinzas.
Passos soaram atrás dela, seguidos por um grito: “Nina!”
Ian correu como um louco, empurrando Nina violentamente com o braço.
Ela se inclinou levemente, e seus dedos, pendidos ao lado do corpo, contraíram-se de forma imperceptível.
Seu olhar passou indiferente pelas costas dele, que se jogava sobre o fogo, batendo as mãos desesperadamente nas chamas. Quando o fogo se apagou, as palmas das mãos dele estavam vermelhas, cobertas de bolhas. Ele não se importou, ajoelhou-se no chão e começou a remexer nas cinzas.
Ele revirava tudo com pressa, fazendo as cinzas subirem e caírem sobre seu cabelo e roupas.
Ele tirou uma foto de casal que estava escondida atrás do porta-retratos. Nela, Ian e Clara estavam colados, sorrindo abertamente. Ele limpou a foto cuidadosamente com a manga,珍 (preciosamente) como se tivesse segurado o mundo inteiro.
O olhar de Nina pousou nas cinzas da foto de casamento ao lado dos pés dele; o vento soprava os restos sobre seus sapatos.
A pequena oscilação no fundo de seu coração, como uma pedra lançada num lago, mal criara uma ondulação antes de ser esmagada pela cena que ele protagonizava.
Aquela era a foto de casamento que ela mantivera pendurada por dois anos. A que tiraram no dia em que se casaram.
Ela passava por baixo dela todos os dias e nunca pensou em virá-la para ver o que havia atrás.
Acontece que, no verso, sempre esteve escondida a foto de outra pessoa.
Ian se virou para entrar na casa e Nina o seguiu.
No fundo do guarda-roupa, ele tirou uma caixa de ferro. Debaixo da cama, encontrou um bilhete amarelado. Dentro de um livro na estante, havia um grampo de cabelo velho.
Tudo relacionado a Clara.
Os presentes que Nina lhe dera — acessórios de mágica de edição limitada, abotoaduras personalizadas, ternos feitos à mão — ele nem olhou, apenas jogou no chão.
Nina ficou na porta, observando-o revirar até o último canto e colocar tudo em uma mochila.
Ele caminhou em direção à porta segurando a bolsa, e Nina deu um passo à frente, bloqueando seu caminho.
Ian parou e levantou os olhos para ela com impaciência. “Saia da frente.”
“Nina, este é o final que você mesma causou,” ele disse. “Você me bloquear agora, faz algum sentido?”
Nina não disse nada.
“Eu te digo,” Ian deu um passo à frente, pressionando-a, “mesmo que você me peça, eu não vou ficar. A menos que—”
Ele fez uma pausa.
“A menos que você peça desculpas à Clara.”
Nina não olhou para ele; tirou o pedido de divórcio, virou na última página e estendeu diante dele.
“Você não disse que estávamos quites?” Sua voz era baixa, sem qualquer oscilação. “Assine isso, e estaremos quites.”
Ian baixou os olhos para o papel, pensando ser apenas um método dela para forçá-lo a ceder; pegou a caneta ao lado, assinou seu nome rapidamente e jogou o acordo de volta nas mãos dela.
“Eu não vou me curvar,” seus olhos eram frios e determinados. “Nina, mesmo que você use esse tipo de coisa para me forçar, eu não vou pedir desculpas à Clara, muito menos voltar do jeito que você quer.”
Nina segurou o documento.
Olhou para baixo. O nome “Ian” estava assinado de forma desleixada.
Ela levantou a cabeça e olhou para ele com um olhar calmo.
“Terminou?”
Ian ficou atordoado.
Nina se virou de lado, abrindo caminho para a porta. “Vá embora.”
Ian não se moveu, observando Nina. Não havia nenhuma expressão em seu rosto.
Sem súplicas, sem tentativas de retenção, totalmente desprovida da insistência imprudente que costumava ter.
Algo dentro de Ian vacilou.
“Nina, você…”
“Ian!” A voz de Clara veio de fora.
Ian olhou para trás, mas Nina, sem nem olhá-lo, já havia se virado e entrado.
Ian ficou parado lá, com a bolsa na mão. Ele queria dizer algo, mas não sabia o quê.
“Ian?” Clara chamou novamente.
Ian cerrou os dentes e caminhou para fora.
A porta do elevador se fechou.
Nina estava de pé junto à janela, observando os dois vultos se afastarem lá embaixo. Ian caminhava à frente e Clara trotava para acompanhá-lo.
Ela desviou o olhar, pegou o celular, fotografou o acordo de divórcio e enviou para o Dr. Marcelo: “Providencie os trâmites.”
Depois, ela se deitou na cama, fechou os olhos e adormeceu profundamente.
Capítulo 4
Nina empurrou a porta dos fundos do teatro; o gerente a convidara para discutir o investimento do próximo trimestre, mas ela pretendia retirar o capital e precisava esclarecer pessoalmente.
No final do corredor, ouviu risadas; era a voz de Ian.
Nina hesitou por um momento, mas continuou. Ao passar pela sala de ensaios, a porta estava entreaberta e a luz escapava pela fresta.
Através da fresta, viu Ian no centro da sala, estalando os dedos, e uma rosa brotou de sua palma. Ele a entregou a Clara, que a pegou, sorrindo envergonhada. Ele estalou os dedos novamente, e a rosa nas mãos de Clara se transformou em uma pomba, que bateu as asas e voou.
“Ian, que incrível!” Clara bateu palmas.
Ian sorriu: “Tem algo ainda mais incrível.”
Ele tirou uma moeda do bolso, girou-a na ponta dos dedos e a fechou na palma da mão. Então, puxou a mão de Clara, virou-a e, inclinando-se, beijou o dorso da mão dela.
Nina ficou parada à porta, observando aquela mão.
O mesmo truque de mágica que costumava segurar a sua mão, quando um anel deslizava em seu dedo anelar e ele se ajoelhava na tempestade de neve dizendo: “Faço esse truque apenas para minha futura esposa.”
Agora, ele o dava a outra.
Nina desviou o olhar, e a porta foi aberta de repente.
Ian estava na porta, e ao vê-la, o sorriso ainda não se dissipara. O riso vacilou e, então, aos poucos se esfriou.
“O que veio fazer aqui?”
Nina levantou os olhos para ele. Ele estava na luz; ela estava na sombra do corredor. Ele usava a camisa que ela lhe dera, com as abotoaduras que ela presenteara, o colarinho levemente aberto, revelando a clavícula.
Ela de repente achou aquilo um pouco ridículo. “Vim falar com o gerente sobre negócios,” disse ela.
Ian a observou, mexeu o canto da boca e deu um passo à frente. “Você veio me procurar, não foi?” ele disse.
Nina olhou para ele.
“Já decidiu?” disse ele.
Nina hesitou.
“Peça desculpas.” Ian a encarou. “Se você já decidiu, vá pedir desculpas a ela. Ela tem bom coração; se você falar com jeito, ela não vai dificultar para você.”