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《Família Me Traiu》PARTE 6

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A casa em Alphaville nunca pareceu tão pequena.

Não por falta de espaço.

Mas porque o ar havia sido tomado.

Como se alguém tivesse fechado todas as saídas invisíveis ao mesmo tempo.

Glória Monteiro estava no centro da sala.

Não sentada.

Não relaxada.

Em posição de comando.

Sobre a mesa de vidro havia papéis.

Muitos papéis.

E uma caneta colocada com precisão demais para ser casual.

“Assina isso”, ela disse.

A voz dela não tinha pedido.

Tinha ordem.

Marcos Ribeiro estava ao lado, com um sorriso que não escondia mais nada.

Nem a pressa.

Nem a ganância.

Nem a confiança de quem acredita que já venceu.

Thaís cruzou os braços, olhando para mim como se estivesse finalmente cansada de fingir paciência.

“Isso já deveria ter sido resolvido há muito tempo”, ela disse.

Eu olhei para os documentos.

Transferência de propriedade.

Redistribuição de bens.

Renúncia parcial de direitos sobre a casa.

E mais abaixo… cláusulas financeiras que não tinham nada a ver com uma simples partilha familiar.

Não era divisão.

Era captura.

Marcos se aproximou um pouco mais.

“É só formalidade”, ele disse. “Você assina e continua sua vida.”

Eu não respondi.

Porque aquilo não era formalidade.

Era engenharia.

Glória empurrou os papéis na minha direção.

“Você sempre foi complicada”, ela disse. “Não torne isso mais difícil do que precisa ser.”

Thaís soltou um riso curto.

“Ela não tem escolha mesmo.”

Eu levantei o olhar lentamente.

E pela primeira vez naquela noite, deixei claro que estava observando tudo como sistema, não como família.

“Quem redigiu isso?”, eu perguntei.

Marcos respondeu rápido demais.

“Advogados.”

Eu inclinei levemente a cabeça.

“Quais?”

O silêncio que veio depois foi pequeno.

Mas suficiente.

Glória respondeu por ele.

“Não importa.”

Isso sim importava.

Sempre importa quando alguém diz que não importa.

Eu empurrei os papéis de volta para a mesa.

“Eu não vou assinar.”

Marcos soltou uma risada seca.

“Vai sim.”

Ele deu um passo à frente.

“Ou você quer perder tudo?”

Eu olhei para ele.

E naquele momento, não havia emoção.

Só análise.

“Tudo o quê exatamente?”, perguntei.

Thaís se aproximou.

“Essa casa”, ela disse. “As contas. O que é seu. O que é nosso por direito.”

“Por direito de quem?”, eu perguntei.

Glória bateu levemente na mesa.

“Nosso sangue.”

A palavra “sangue” sempre aparece quando argumentos acabam.

Eu respirei fundo.

“Engraçado”, eu disse. “Porque essa casa foi comprada antes de qualquer um de vocês decidirem que tinham direitos sobre ela.”

Marcos mudou o olhar.

“Isso não é verdade.”

Eu não respondi com palavras.

Respondi com memória.

Faria Lima.

Contrato assinado.

Transferência bancária feita por mim.

Reforma financiada por consultoria privada antes do casamento.

Eles não sabiam disso.

Ou fingiam não saber.

Glória deu um passo à frente.

“Você acha que dinheiro te torna dona de alguma coisa?”

Eu olhei para ela.

“Não. Documentos tornam.”

O silêncio caiu de novo.

Thaís foi a primeira a quebrar.

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“Você fala como se fosse fria demais para isso tudo.”

Eu quase sorri.

“Não é frieza”, eu disse. “É precisão.”

Marcos bateu a mão na mesa.

“Chega. Assina logo.”

A tensão na sala já não era familiar.

Era econômica.

Tudo ali girava em torno de controle.

Quem assina.

Quem perde.

Quem permanece dentro do sistema.

E então…

O som da porta.

Não foi leve.

Nem discreto.

Foi o tipo de abertura que muda o ar de uma casa.

Todos olharam ao mesmo tempo.

Mas não era Daniel.

Era um dos agentes que estavam com ele antes.

Sozinho.

Sem expressão.

Ele entrou e olhou diretamente para mim.

“Preciso falar com você”, ele disse.

Glória franziu a testa.

“Isso é um assunto de família.”

O agente não olhou para ela.

“Não mais.”

Marcos ficou imóvel.

Thaís perdeu o sorriso completamente.

Eu me afastei da mesa.

E segui o agente até o corredor.

A cada passo, a casa parecia mais distante.

Menos real.

Mais documento.

Ele parou perto da escada.

“Capitão Daniel não está mais aqui”, ele disse.

Eu parei.

“Como assim?”

Ele hesitou um segundo.

“Ele saiu com a equipe.”

“Para onde?”, perguntei.

“Não autorizado a informar.”

O silêncio entre nós ficou pesado.

Eu voltei o olhar para a sala.

Lá dentro, Glória ainda falava.

Marcos ainda discutia.

Thaís ainda tentava entender.

Mas tudo aquilo já estava fora de controle.

Porque o centro da estrutura não era mais aquela casa.

Era ele.

Eu voltei a falar com o agente.

“Ele disse alguma coisa antes de sair?”

Ele respondeu sem emoção.

“Disse que o teste avançou mais rápido do que o esperado.”

Eu fiquei imóvel.

“Teste?”, eu repeti.

O agente assentiu.

“E que agora não dá mais para recuar etapas.”

Eu senti algo mudar dentro da lógica da situação.

Não emoção.

Estrutura.

Porque “teste” não significa investigação comum.

Significa observação controlada.

E controle significa que nada ali foi espontâneo.

Nem a chegada dele.

Nem as acusações.

Nem a família.

Nada.

Eu voltei um passo para trás.

E vi pela janela lateral da casa.

Um carro preto saindo lentamente da rua de Alphaville.

Sem identificação clara.

Eu não precisei ver quem estava dentro.

Porque naquele instante, o sistema inteiro já tinha mudado de nível.

E eu não sabia mais se ainda estava dentro da investigação…

ou dentro do experimento.

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