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《Família Me Traiu》PARTE 4

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O Instituto Aurora Social não era apenas uma ONG.

Era uma máquina.

Uma máquina bem desenhada para parecer humanidade.

Eu descobri isso às 02h17 da madrugada, ainda sentada no chão frio do escritório improvisado dentro da mansão em Alphaville.

A luz da tela refletia nos meus olhos como se estivesse me observando de volta.

E, pela primeira vez, eu não estava só investigando um sistema.

Eu estava vendo ele respirar.

O fluxo que eu havia reconstruído na noite anterior agora fazia mais sentido do que deveria.

Dinheiro saía do Fundo de Benefícios Militares.

Entrava em empresas intermediárias.

E desaparecia dentro do Instituto Aurora.

Mas o erro não estava no sistema.

O erro estava na intenção.

Porque aquele dinheiro não sumia.

Ele era redistribuído.

Mas não para soldados.

Nem para famílias.

Nem para aposentados.

Ele voltava.

Sempre voltava.

Para os mesmos nomes.

Marcos Ribeiro.

Primeiro ponto de retorno.

Thaís Ribeiro Monteiro.

Segundo.

E uma terceira camada… ainda borrada.

Mas ligada diretamente a Glória Monteiro.

Minha mãe.

Eu fechei os olhos por um segundo.

Não por emoção.

Por processamento.

Porque existe um momento na investigação em que o problema deixa de ser externo.

E passa a ser estrutural.

Lá embaixo, a casa ainda estava acordada.

Eu ouvia passos.

Copos sendo colocados na mesa.

Sussurros interrompidos.

Mas ninguém dormia.

Porque o ar tinha mudado.

Desci as escadas lentamente.

E quando entrei na sala, todos pararam por meio segundo.

Como se ainda não tivessem decidido qual versão de mim deveriam ver.

A vítima.

Ou o risco.

Marcos foi o primeiro a falar.

“Você ainda está mexendo nisso?”

A voz dele tinha irritação, mas também algo mais fraco por baixo.

Insegurança.

Thaís estava encostada na parede.

Ela não falava mais com arrogância.

Agora observava.

Como quem tenta montar um quebra-cabeça que não gosta do resultado.

Glória estava sentada.

Perfeitamente controlada.

Mas os dedos dela apertavam o braço da poltrona com força demais.

“Você não deveria estar acordada”, ela disse.

Não era conselho.

Era comando.

Eu não respondi.

Coloquei o notebook na mesa de vidro.

E virei a tela para eles.

“O Instituto Aurora não é uma ONG”, eu disse.

Silêncio imediato.

Marcos riu.

Curto.

Forçado.

“Claro que é. Você está paranoica.”

Eu ampliei o gráfico.

Mostrei as conexões.

Mostrei os ciclos.

Mostrei os retornos.

“Dinheiro sai do fundo militar”, eu disse. “Passa por empresas de fachada. E volta para vocês.”

Thaís franziu a testa.

“Volta como?”

“Como contratos”, eu respondi.

O silêncio ficou mais pesado.

Glória levantou lentamente.

“Isso é uma acusação grave.”

Eu olhei direto para ela.

“Não é acusação. É rastreamento.”

Marcos deu um passo à frente.

“Você não tem acesso a isso.”

Eu sorri de leve.

“Eu tenho quando alguém esquece de apagar o caminho.”

E foi nesse momento que vi a primeira reação real.

Não medo.

Reação técnica.

Thaís se aproximou da tela.

Leu.

E depois recuou um passo.

“Isso… não aparece nos relatórios oficiais”, ela disse.

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Eu observei ela.

Pela primeira vez, ela não estava atacando.

Estava entendendo.

Glória virou o rosto devagar.

E olhou para mim como se eu tivesse mudado de espécie.

“Você está entrando em sistemas militares?”, ela perguntou.

“Não”, eu respondi. “Eu estou lendo o que já foi cruzado com o meu acesso de auditoria.”

Marcos apertou o maxilar.

“Isso não faz sentido.”

“Faz”, eu disse. “Quando você entende que não é um sistema isolado.”

Eu ampliei mais uma camada.

E então mostrei o que realmente importava.

O Instituto Aurora tinha uma divisão interna.

Oculta.

Sem registro público.

Nome interno:

“Projeto Horizonte.”

Thaís congelou.

“Eu já vi esse nome”, ela disse baixo.

Glória virou imediatamente.

“Não devia existir isso aqui”, ela disse.

Marcos ficou imóvel.

Porque pela primeira vez, ele não tinha resposta pronta.

Eu respirei fundo.

“Existe”, eu disse. “E está conectado diretamente a vocês.”

O ar mudou outra vez.

Não era mais discussão.

Era reconhecimento forçado.

Glória deu um passo em minha direção.

“Você está dizendo que nossa família está envolvida nisso?”

Eu não respondi de imediato.

Porque a resposta já estava na tela.

“Não é envolvimento”, eu disse por fim. “É participação estruturada.”

Thaís soltou uma risada curta.

Mas não era de deboche.

Era de nervoso.

“Você está dizendo que todos nós estamos dentro disso sem saber?”, ela perguntou.

Eu olhei para ela.

“Alguns sabem.”

Essa frase caiu diferente.

Marcos olhou para Glória.

E pela primeira vez, não havia certeza entre eles.

Glória não desviou o olhar.

Mas sua respiração mudou.

“Quem sabe?”, Marcos perguntou.

Eu não respondi.

Porque naquele momento, uma nova conexão apareceu na tela.

Acesso externo.

Dentro da rede interna.

Sem origem identificada.

Thaís viu primeiro.

“Tem alguém no sistema”, ela disse.

Marcos virou rápido.

“Isso é impossível.”

E então o meu laptop atualizou sozinho.

Sem comando meu.

Uma linha apareceu na tela:

“VOCÊ JÁ CHEGOU PERTO DEMAIS DO PROJETO HORIZONTE.”

O silêncio na sala ficou absoluto.

Glória deu um passo para trás.

E pela primeira vez, não parecia controle.

Parecia cálculo de fuga.

Marcos olhou para mim.

Mas não disse nada.

Porque agora não era mais sobre dinheiro.

Nem sobre família.

Nem sobre acusação.

Era sobre quem mais estava olhando.

E antes que alguém falasse qualquer coisa, outra linha apareceu na tela:

“VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA NESSA INVESTIGAÇÃO, CAROLINA.”

Eu congelei por meio segundo.

Não pelo conteúdo.

Mas pela certeza.

Porque aquilo não era aviso.

Era confirmação.

E naquela sala, entre Glória, Marcos e Thaís…

Alguém já estava lendo tudo junto comigo.

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