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《A Criança no Centro da Mentira》PARTE 8

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A chuva em São Paulo voltou naquela madrugada como se a cidade estivesse tentando apagar rastros.

Mas alguns rastros não desaparecem com água.

Eles desaparecem com pessoas.

Dr. Eduardo Monteiro não atendia o telefone há horas.

Ricardo Vasconcelos estava no escritório da Faria Lima desde a noite anterior, cercado por relatórios incompletos, páginas ausentes e respostas que ninguém queria dar.

Jorge entrou apressado.

“Senhor… o advogado não foi localizado.”

Ricardo não levantou a cabeça.

“Repete.”

“Eduardo Monteiro desapareceu depois de sair do prédio ontem à noite.”

O silêncio caiu pesado.

Ricardo fechou lentamente o arquivo na mesa.

“Isso não é coincidência.”

Jorge hesitou.

“Tem mais.”

Ricardo levantou o olhar.

“Fala.”

“Os arquivos que ele estava analisando… foram removidos do sistema interno do escritório.”

Ricardo ficou imóvel.

“Quem teve acesso?”

Jorge respondeu baixo:

“Apenas alguém com autorização familiar direta.”

O nome nem precisava ser dito.

Na mansão, Marina estava sentada na sala principal como se estivesse em reunião de negócios.

Mas não havia reunião.

Havia controle.

E havia execução.

Um homem entrou discretamente pela porta lateral.

“Está feito”, ele disse.

Marina não olhou para ele.

“E o advogado?”

“Sem acesso a nenhum sistema agora.”

Ela respirou fundo.

“E os documentos?”

O homem colocou uma pasta sobre a mesa.

“Sumiram do sistema central.”

Marina finalmente sorriu.

“Bom.”

Enquanto isso, Isabela estava no quarto.

Mas algo estava errado.

Ela não desenhava mais.

Ela apenas olhava para o papel branco.

E depois apagava o que nem tinha começado.

“Eu lembro… ou eu acho que lembro?”

Ela tocou a cabeça.

E ficou em silêncio.

No escritório, Ricardo abriu um novo arquivo de segurança.

Jorge observava.

“Tem mais uma coisa, senhor.”

Ricardo respondeu sem paciência:

“Já chega de ‘mais uma coisa’.”

Mas Jorge continuou.

“A Marina fez uma reunião hoje cedo com o conselho externo da empresa.”

Ricardo franziu a testa.

“Sem mim?”

“Sem você.”

Silêncio.

Ricardo levantou-se devagar.

“Ela está avançando.”

Jorge assentiu.

“Ela está assumindo posição de controle emergencial.”

Ricardo bateu na mesa.

“Ela não pode fazer isso legalmente.”

Jorge respondeu:

“Se houver alegação de instabilidade familiar…”

Ricardo parou.

Porque entendeu.

Não era mais só empresa.

Era narrativa jurídica.

Na mansão, Marina estava falando ao telefone.

“Sim, eu quero o pedido protocolado ainda hoje.”

Pausa.

“Sim. Capacidade parental.”

Ela desligou.

E olhou para a escada.

Isabela estava descendo devagar.

“Marina…”

A voz da menina estava mais baixa do que antes.

“Sim, querida?”

Isabela hesitou.

“Eu fui na escola hoje?”

Marina sorriu suavemente.

“Você teve aula em casa.”

Isabela franziu a testa.

“Mas eu lembro de ir de carro…”

Marina se aproximou.

“Você está confusa. Isso acontece quando a mente está cansada.”

Isabela tocou a própria testa.

“Eu não sei mais o que eu lembro…”

Marina se agachou.

“Eu estou cuidando disso.”

Isabela ficou em silêncio.

E isso era novo.

Antes ela perguntava.

Agora ela aceitava.

No escritório, Ricardo recebeu uma ligação.

Ele atendeu imediatamente.

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“Alô?”

Silêncio.

“Quem está falando?”

Uma respiração leve.

E então uma voz cortada.

“Ricardo…”

Ele congelou.

“Eduardo?”

A linha estava instável.

“Eles pegaram tudo…”

A voz falhava.

“Não confie…”

A ligação caiu.

Ricardo ficou parado.

“Eduardo?!”

Nada.

Ele tentou novamente.

Sem resposta.

Jorge entrou rápido.

“Senhor?”

Ricardo estava pálido.

“Ele foi encontrado?”

Jorge hesitou.

“Não.”

Ricardo fechou os olhos.

“Então ele não desapareceu.”

Ele abriu os olhos.

“Ele foi removido.”

Na mansão, Marina observava Isabela subir de volta as escadas.

E falou baixo:

“Está funcionando.”

Mais tarde naquela noite, Ricardo chegou em casa sem anunciar.

Ele entrou direto.

“Isabela!”

Silêncio.

“Bela!”

Jorge veio atrás dele.

“Senhor… ela não está no quarto.”

Ricardo parou.

“Como assim não está no quarto?”

Jorge olhou para baixo.

“Ela foi levada.”

Ricardo congelou.

“Quem levou?”

Jorge hesitou.

E respondeu:

“Uma instrução da família.”

Ricardo virou lentamente.

E nesse momento, Marina apareceu no corredor.

Calma.

Perfeita.

Imóvel.

“Você está exagerando de novo”, ela disse.

Ricardo não piscou.

“Cadê minha filha?”

Marina respondeu sem emoção:

“Ela precisa de estabilidade agora.”

Ricardo avançou.

“Você tirou ela de casa?”

Marina inclinou levemente a cabeça.

“Eu a protegi.”

Ricardo gritou pela primeira vez:

“DE QUEM?!”

Silêncio.

Marina respondeu:

“De você mesmo.”

O mundo pareceu travar.

Ricardo ficou imóvel.

“Você acionou o sistema legal…”

Marina assentiu.

“Pedido de avaliação de capacidade parental.”

Ricardo respirou pesado.

“Você está tentando me tirar dela.”

Marina não negou.

“Eu estou garantindo o melhor ambiente para ela.”

Ricardo deu um passo atrás.

E então entendeu.

Não havia mais discussão doméstica.

Não havia mais família.

Era tribunal.

Era Estado.

Era guerra formal.

Ele olhou para a escada vazia.

“Isabela…”

Mas não havia resposta.

Naquela noite, Ricardo recebeu um envelope na porta.

Sem remetente.

Ele abriu imediatamente.

Dentro havia apenas uma foto.

Isabela dentro de um carro.

O vidro fechado.

E um papel colado na janela com uma frase escrita à mão:

“Ela precisa esquecer para se adaptar.”

Ricardo apertou o papel.

E pela primeira vez, percebeu:

não era só que ele estava perdendo a filha.

Era que alguém estava reescrevendo quem ela era…

em tempo real.

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