《O Homem Que Aprendeu a Amar Tarde Demais》PARTE 7

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A chuva em São Paulo parecia ter virado rotina.

Nos últimos dias, o céu cinza sobre a cidade não dava trégua, como se refletisse o que estava acontecendo dentro das pessoas.

No bairro da Vila Mariana, o pequeno apartamento de Helena Costa Ribeiro estava mais silencioso do que o normal.

Silencioso demais.

O tipo de silêncio que não traz paz.

Traz preocupação.

Helena olhava para a máquina de costura desligada.

Algo raro.

Ela não estava trabalhando.

Não porque não havia pedidos.

Mas porque não conseguia se concentrar.

Os dedos dela tamborilavam na mesa.

Inquietos.

“Isso está indo longe demais…”, ela murmurou.

Lívia estava sentada no chão da sala.

Desenhando.

Mas não prestava atenção no desenho.

Ela desenhava um homem.

Alto.

De terno.

Sem rosto definido.

Mas com uma presença forte.

“Quem é esse?”, Helena perguntou sem olhar.

Lívia respondeu naturalmente:

“Ele.”

Helena virou o rosto imediatamente.

“Ele quem?”

“Ethan.”

O nome ficou no ar como algo pesado.

Helena fechou os olhos por um segundo.

“Você não deveria desenhar ele assim”, ela disse.

“Assim como?”

“Como se ele fosse importante.”

Lívia continuou desenhando.

“Ele é importante.”

Helena respirou fundo.

“Não, não é.”

A resposta foi rápida demais.

Mas Helena sabia que estava mentindo… pelo menos parcialmente.

Porque algo estava mudando.

E isso a assustava.

Do outro lado da cidade, Jardins.

Ethan Monteiro Vasconcelos estava no escritório.

Mas não trabalhava.

A tela do computador estava aberta.

Planilhas.

Gráficos.

Relatórios.

Mas ele não via nada disso.

Ele via outra coisa.

Ibirapuera.

Uma bicicleta.

Uma risada.

Ele fechou o laptop.

“Isso não faz sentido…”, ele disse sozinho.

Mas o corpo dele já sabia o que a mente tentava negar.

Ele queria voltar.

No mesmo dia, ele voltou.

O parque estava mais vazio por causa da chuva leve.

Mas ele estava lá.

Com uma sacola pequena.

Helena o viu primeiro.

E parou imediatamente.

“Não acredito…”, ela sussurrou.

Lívia já tinha corrido.

“EU SABIA!”

Helena tentou segurá-la.

“Lívia!”

Mas a menina escapou.

Direto para ele.

Ethan se ajoelhou.

“Você voltou cedo hoje.”

“Você também!”, ela respondeu sorrindo.

Helena chegou logo atrás, ofegante e irritada.

“Isso não pode virar rotina.”

Ethan se levantou devagar.

“Eu não estou criando rotina nenhuma.”

Helena cruzou os braços.

“Então o que está fazendo?”

Ele olhou para Lívia antes de responder.

“Respondendo perguntas que ela me fez.”

Helena ficou rígida.

“Ela não deveria estar fazendo perguntas desse tipo.”

Ethan respondeu calmo:

“Mas está.”

Silêncio.

Lívia puxou a sacola.

“O que é isso?”

Ethan sorriu.

“Um presente.”

Helena imediatamente reagiu.

“Não.”

Mas já era tarde.

Lívia abriu.

Era um livro infantil.

Com desenhos simples.

Sobre bicicletas.

“Eu posso ficar?”, ela perguntou animada.

Helena respondeu rápido:

“Não.”

Mas Ethan falou ao mesmo tempo:

“Sim.”

Os dois se olharam.

Helena perdeu a paciência.

“Você não pode simplesmente aparecer e interferir.”

Ethan respondeu mais firme agora:

“Eu não estou interferindo.”

“Está sim.”

“Eu só estou aqui.”

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“Isso já é interferência.”

Silêncio pesado.

Lívia olhava de um para o outro.

Sem entender totalmente.

Mas sentindo o clima.

Helena respirou fundo.

E então disse algo diferente.

Mais baixo.

Mais humano.

“Você não entende o risco disso.”

Ethan ficou sério.

“Que risco?”

Helena hesitou.

E então falou.

“Ela se apegar.”

Silêncio.

Ethan não respondeu imediatamente.

Porque ele entendeu.

Não era sobre ele.

Era sobre medo.

“E se ela se apegar em você…”, Helena continuou, “e você simplesmente for embora?”

Ethan ficou imóvel.

Essa frase atingiu ele mais do que deveria.

Porque ele já tinha ido embora antes.

Da própria vida.

De pessoas.

De expectativas.

“Eu não sou ele”, Ethan disse finalmente.

Helena respondeu sem hesitar:

“Todos dizem isso.”

Mas dessa vez, Ethan não recuou.

“E eu também não sou promessa vazia.”

Helena riu sem humor.

“Isso não significa nada.”

Lívia interrompeu.

“Vocês estão brigando?”

Os dois pararam imediatamente.

Ethan abaixou o olhar para ela.

“Não.”

Helena respondeu ao mesmo tempo:

“Sim.”

Silêncio estranho.

Lívia ficou pensativa.

“Eu não gosto disso.”

Ethan se ajoelhou novamente.

“Então não é briga.”

Helena observou aquilo.

E algo dentro dela começou a ceder… só um pouco.

Mas ela não deixou isso aparecer.

Porque medo sempre chegava antes da emoção.

“Já chega”, ela disse.

“Vamos embora.”

Lívia segurou o livro.

“Mas…”

“Agora.”

Ethan se levantou.

“Helena.”

Ela parou.

Sem virar.

“Eu não estou tentando tirar ela de você.”

Helena respondeu sem olhar:

“Mas está mudando ela.”

Ethan ficou em silêncio.

Porque talvez ela estivesse certa.

Lívia virou antes de sair.

“Eu volto amanhã?”

Helena respondeu antes dele:

“Não.”

Mas Ethan disse:

“Talvez.”

Helena fechou os olhos por um segundo.

E puxou a filha com mais firmeza.

Enquanto elas iam embora, Ethan ficou parado.

Observando.

Mas agora… não era só curiosidade.

Era algo mais profundo.

Responsabilidade.

E Helena, andando rápido pela chuva leve, sentia o coração bater diferente.

Porque ela sabia.

Isso não era mais um encontro casual.

Era repetição.

E repetição… vira vínculo.

E vínculo… vira perda possível.

E naquela noite, enquanto São Paulo continuava viva e cinza, duas decisões silenciosas estavam sendo tomadas ao mesmo tempo:

Ethan decidiu não parar.

E Helena decidiu que precisava parar isso.

Mesmo que ainda não soubesse como.

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