A imagem no monitor ainda estava congelada.
Elias Monteiro.
Vivo.
Respirando.
Num corredor frio, iluminado por lâmpadas industriais que pareciam não pertencer a nenhum país conhecido.
Sofia não piscava.
Helena tremia como se estivesse prestes a desabar.
Victor Albuquerque Vasconcelos permanecia imóvel, mas havia algo diferente na postura dele agora — não era mais autoridade.
Era contenção.
Bruno Reis fechou a maleta lentamente.
E disse apenas:
— Isso não deveria estar acessível.
Sofia deu um passo à frente.
— Ele está vivo.
Silêncio.
Helena cobriu a boca com a mão.
Victor respondeu rápido demais:
— Isso é gravação antiga.
Bruno olhou para ele.
— Não é.
Sofia virou o rosto.
— Você sabia disso?
Victor não respondeu.
E esse silêncio foi mais alto do que qualquer confissão.
Helena explodiu:
— Você disse que ele estava morto!
Victor virou-se para ela com frieza.
— Ele está oficialmente morto.
Sofia apertou os olhos.
— Mas ele está vivo.
Bruno interrompeu:
— “Oficialmente morto” não significa ausência física.
Helena ficou pálida.
— Então o quê significa?
Bruno respondeu sem emoção:
— Significa que ele foi removido do sistema civil.
Silêncio pesado.
Sofia olhou para a tela novamente.
A imagem ainda estava lá.
Elias.
Movendo-se lentamente no corredor.
Como se não soubesse que estava sendo observado.
Sofia sussurrou:
— Onde ele está?
Bruno hesitou por meio segundo.
Victor respondeu antes dele:
— Isso não é mais sua preocupação.
Sofia virou-se para ele imediatamente.
— É sim.
Victor deu um passo à frente.
— Não.
A tensão explodiu entre os dois.
Helena tentou intervir:
— Chega! Isso não é brincadeira!
Mas ninguém a ouviu.
Sofia falou novamente, agora mais firme:
— Você apagou ele.
Victor respondeu frio:
— Eu protegi a empresa.
Sofia avançou mais um passo.
— Você mentiu.
Victor não negou.
E isso mudou tudo.
Bruno observava em silêncio.
Como se estivesse avaliando algo que finalmente saiu do controle.
Helena olhou para o capitão.
— Bruno… onde ele está de verdade?
Bruno demorou para responder.
E quando respondeu, foi baixo:
— Instalação não registrada.
Helena engoliu seco.
— Em São Paulo?
Bruno respondeu:
— Não.
Silêncio.
Sofia perguntou:
— Então onde?
Bruno olhou diretamente para ela.
— Subnível privado.
Victor interrompeu:
— Isso não é conversa.
Bruno continuou mesmo assim:
— Projeto antigo. Arquitetura fechada. Sem registro público.
Helena começou a chorar de novo.
— Ele está preso…
Bruno não corrigiu.
E isso foi confirmação suficiente.
Sofia olhou para Victor.
— Você colocou ele lá.
Victor respondeu imediatamente:
— Ele se colocou lá quando recusou cooperar.
Helena gritou:
— ELE NÃO ESCOLHEU ISSO!
Victor elevou a voz pela primeira vez:
— TODOS ESCOLHEM!
Silêncio absoluto.
Sofia não se moveu.
Ela apenas olhou para ele como se estivesse vendo outra pessoa agora.
— Você não fala como alguém que protege.
Victor ficou quieto.
Bruno deu um passo à frente.
— Senhor Vasconcelos… precisamos encerrar isso.
Victor respondeu seco:
— Não.
Bruno hesitou.
— O protocolo mudou.
Victor virou lentamente o rosto.
— Qual protocolo?
Bruno abriu a maleta novamente.
E retirou outro documento.
Mais antigo.
Mais pesado.
Helena reconheceu imediatamente.
— Não… isso não existe mais…
Sofia pegou o papel.
E leu:
“PROTOCOLO VASCONCELOS – NÍVEL 3: CONTENÇÃO TOTAL”
Sofia franziu a testa.
— Contenção?
Bruno respondeu:
— Pessoas consideradas risco estrutural são isoladas.
Helena caiu na cadeira.
— Isso era sobre criminosos…
Bruno respondeu:
— Também sobre artistas.
Silêncio.
Sofia levantou os olhos.
— Meu pai é um artista.
Victor respondeu rápido:
— Ele era um problema.
Sofia olhou fixamente para ele.
— Por quê?
Victor hesitou.
E isso foi o primeiro sinal de fraqueza real.
Helena percebeu.
— Porque ele era melhor do que você.
Victor virou o rosto imediatamente.
— Isso não é verdade.
Bruno fechou a maleta.
— Não é sobre talento.
Sofia olhou para ele.
— Então é sobre o quê?
Bruno respondeu:
— Controle.
Silêncio.
Sofia respirou fundo.
E então disse algo que fez até Victor congelar por um segundo:
— Então vocês não prenderam ele por crime.
Ela pausou.
— Vocês prenderam ele por saber demais.
Bruno não respondeu.
E isso foi resposta suficiente.
Helena levantou-se de repente.
— Eu preciso ver ele.
Victor virou rapidamente.
— Não.
Helena gritou:
— ELE É MEU MARIDO!
Victor respondeu:
— Ele deixou de ser isso quando atravessou a linha.
Sofia deu um passo à frente novamente.
— Eu quero ver ele.
Victor respondeu seco:
— Impossível.
Bruno olhou para Victor.
— Não é mais impossível.
Victor ficou rígido.
— O quê isso significa?
Bruno abriu um dispositivo pequeno.
E colocou sobre a mesa.
Uma chave digital.
— O sistema foi parcialmente exposto.
Helena engasgou.
— Como?
Bruno respondeu:
— A música.
Silêncio absoluto.
Sofia congelou.
— A música?
Bruno confirmou:
— A execução dela ativou rastreadores antigos.
Victor olhou para Sofia como se fosse a primeira vez que entendia o que ela era.
Helena sussurrou:
— O que você fez…
Sofia não respondeu.
Bruno continuou:
— O sistema respondeu ao padrão musical.
Victor apertou os punhos.
— Isso é impossível.
Bruno respondeu:
— Não para ele.
Sofia deu um passo para trás.
— Para meu pai?
Bruno assentiu.
E então disse a frase que mudou tudo:
— Ele ainda está conectado ao sistema.
Silêncio.
Helena caiu de novo.
— Conectado…?
Bruno olhou para o monitor.
E então apertou um botão.
A imagem mudou.
O corredor desapareceu.
Agora era uma sala.
Pequena.
Branca.
E completamente vazia.
Mas no centro…
uma cadeira metálica.
E alguém sentado nela.
Sofia se aproximou.
Helena parou de respirar.
Victor ficou imóvel.
Bruno aumentou o zoom.
E então apareceu o rosto.
Elias Monteiro.
Mais magro.
Mais pálido.
Mas vivo.
Sofia deu um passo atrás.
Helena começou a chorar sem controle.
Victor não disse nada.
E Elias… lentamente levantou os olhos.
Como se soubesse.
Como se estivesse esperando isso há anos.
E então o monitor piscou novamente.
E a imagem ficou preta.
Por um segundo.
Antes de voltar.
Mas agora…
Elias não estava mais sozinho na sala.