O documento no chão ainda estava imprimindo sozinho.
O som mecânico da impressora ecoava no salão da Mansão Vasconcelos como um relógio contando algo que ninguém queria ouvir.
Helena deu um passo para trás.
Sofia não piscava.
Victor estava imóvel.
E o papel continuava saindo lentamente, como se a própria empresa estivesse respirando.
Sofia sussurrou:
— Isso não estava aqui antes…
Victor respondeu rápido:
— Isso não deveria existir.
Helena caiu sentada em uma cadeira próxima, como se as pernas não obedecessem mais.
O papel terminou de sair.
Victor pegou.
Leu em silêncio.
E pela primeira vez naquela noite, sua expressão mudou completamente.
Não era mais controle.
Não era mais cálculo.
Era… irritação.
Quase medo.
Sofia percebeu.
— O que é isso?
Victor não respondeu imediatamente.
Ele apertou o papel.
E então disse:
— Isso é erro de sistema.
Helena riu sem humor.
— Erro? Você está branco.
Victor virou o rosto para ela.
— Não inventa coisas.
Mas a voz dele já não tinha força.
Sofia puxou o papel da mão dele.
Helena tentou impedir:
— Sofia, não!
Mas já era tarde.
Ela leu.
E viu um novo arquivo anexado ao relatório anterior.
Um registro confidencial.
Título:
“PROTOCOLO DE NEUTRALIZAÇÃO – CASO MONTEIRO”
Sofia franziu a testa.
— Neutralização?
Helena fechou os olhos com força.
Victor estendeu a mão.
— Me dá isso.
Sofia não entregou.
Ela continuou lendo.
E então viu algo ainda pior.
Uma linha de status:
“ÓBITO REGISTRADO – CONFIRMADO PARA SISTEMA CIVIL”
Sofia levantou o olhar.
— Isso diz que ele morreu.
Silêncio.
Helena começou a chorar de novo.
— Isso é o que eles disseram para mim…
Victor respirou fundo.
— Isso é o que está registrado.
Sofia olhou diretamente para ele.
— Mas não é verdade.
Victor ficou tenso.
— Você não sabe disso.
Sofia respondeu:
— Eu sei.
Helena levantou a cabeça rapidamente.
— Como?
Sofia apontou para o documento.
— Não tem corpo.
Silêncio absoluto.
Victor apertou a mandíbula.
— Isso não significa nada.
Sofia insistiu:
— Se fosse morte real, teria registro forense.
Helena ficou imóvel.
Victor finalmente desviou o olhar.
E esse foi o erro.
Porque Sofia viu.
E Helena viu também.
A verdade não estava no documento.
Estava no silêncio dele.
Victor virou-se de repente para o lado.
E disse apenas:
— Isso não é assunto para criança.
Sofia deu um passo à frente.
— Então por que estou no meio disso?
Helena tentou segurá-la.
— Sofia, chega!
Mas a menina já estava diferente.
Mais fria.
Mais focada.
Como se a música dela tivesse sido substituída por outra coisa.
Victor pegou o telefone.
Discou um número.
— Vou resolver isso agora.
Helena perguntou:
— Resolver o quê?
Victor não respondeu.
Do outro lado da linha, uma voz atendeu.
— Cap. Bruno Reis.
A sala ficou em silêncio imediato.
Victor falou seco:
— Traga o arquivo físico.
Helena arregalou os olhos.
— Não… não chama ele aqui.
Victor ignorou.
— Agora.
Desligou.
Sofia observava tudo.
— Quem é esse?
Victor respondeu sem olhar para ela:
— Segurança operacional.
Helena sussurrou:
— Isso não é segurança… isso é controle.
Minutos depois.
As luzes externas da mansão se apagaram parcialmente.
Carros pretos estacionaram em silêncio absoluto.
Nenhuma sirene.
Nenhum aviso.
Só presença.
A porta principal abriu.
Um homem entrou.
Alto.
Postura militar.
Olhar fixo.
Não parecia funcionário.
Parecia alguém treinado para não sentir nada.
Victor disse:
— Capitão Bruno.
O homem apenas assentiu.
— Senhor Vasconcelos.
Helena ficou pálida imediatamente.
Sofia observou.
— Você conhece ele?
Helena não respondeu.
Bruno caminhou até a mesa.
Colocou uma maleta metálica.
E abriu.
Dentro havia documentos físicos.
Fotos.
Relatórios antigos.
Selos governamentais.
Sofia olhou.
— Isso não é da empresa.
Bruno respondeu pela primeira vez:
— Não.
Victor permaneceu em silêncio.
Bruno pegou um arquivo específico.
E colocou sobre a mesa.
— Caso Monteiro. Arquivo completo.
Helena tremeu.
— Eu nunca vi isso inteiro…
Bruno olhou para ela.
— Você viu o suficiente para obedecer.
Sofia abriu o arquivo.
E viu uma foto.
Elias Monteiro.
Mas não como músico.
Não como compositor.
Mas como suspeito.
Helena tentou segurar Sofia.
— Não olha isso…
Sofia afastou a mão da mãe.
E continuou.
Leu os relatórios.
Interrogatórios.
Transferências.
E então viu uma linha que mudou tudo.
“DETIDO EM INSTALAÇÃO NÃO REGISTRADA – PROJETO VASCONCELOS”
Sofia levantou o olhar.
— Ele não morreu.
Silêncio.
Victor fechou os olhos por um segundo.
Bruno falou:
— Ele nunca foi liberado oficialmente.
Helena caiu de novo na cadeira.
— Vocês disseram que ele estava morto…
Bruno respondeu seco:
— Isso é o que foi autorizado.
Sofia ficou parada.
— Onde ele está?
Ninguém respondeu.
Victor finalmente falou:
— Isso não existe mais.
Sofia olhou para ele.
— Existe sim.
Victor respondeu mais firme:
— Não.
Bruno interrompeu:
— Existe um registro ativo.
Silêncio total.
Helena levantou a cabeça imediatamente.
— O quê?
Bruno abriu outro documento.
E mostrou uma tela impressa.
Um sistema interno.
Com uma linha piscando.
STATUS:
ATIVO
Sofia congelou.
— Ativo…?
Bruno confirmou:
— Significa que ele ainda está em monitoramento.
Victor virou rapidamente.
— Isso não deveria estar aberto.
Bruno respondeu:
— Está.
Helena começou a tremer.
— Então ele está…
Bruno não deixou ela terminar.
Ele virou a tela.
E mostrou um vídeo.
Câmera de segurança.
Ambiente escuro.
Um corredor industrial.
E alguém ao fundo.
Sofia se aproximou.
Helena prendeu a respiração.
Victor não se moveu.
Bruno aumentou o brilho.
A imagem ficou mais clara.
E então…
o homem apareceu.
Magro.
Cansado.
Mas vivo.
Helena soltou um som de choque.
— Não…
Sofia deu um passo para trás.
Victor ficou completamente imóvel.
Bruno disse:
— Última atualização: 48 horas atrás.
Sofia olhou fixamente para a tela.
E sussurrou:
— Ele está vivo…
E no exato momento em que ela disse isso…
o monitor piscou.
E a imagem mudou sozinha.