《A Música do Homem que Não Morreu》PARTE 3

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O salão da Mansão Vasconcelos ainda estava em choque.

O silêncio não tinha acabado depois da última nota de Sofia.

Ele apenas tinha mudado de forma.

Agora era um silêncio desconfortável, pesado, quase agressivo — como se o ar tivesse sido contaminado por algo que ninguém sabia nomear.

Sofia ainda estava ao lado do piano.

Helena segurava sua mão com força demais.

E Victor Albuquerque Vasconcelos… não se movia.

Ele olhava para a menina como se tivesse visto um fantasma.

Não qualquer fantasma.

Um fantasma que ele mesmo tentou enterrar.

Finalmente, ele falou:

— Repete isso.

A voz dele estava baixa.

Controlada demais.

Perigosa demais.

Sofia não recuou.

— Eu disse que foi meu pai.

Helena apertou ainda mais a mão da menina.

— Sofia… chega disso…

Mas Victor ergueu a mão, interrompendo Helena sem olhar para ela.

— Não. Deixa ela falar.

Ele deu um passo à frente.

— Elias Monteiro… foi isso que você disse?

Sofia assentiu.

O nome pareceu incomodar o ar.

Alguns convidados começaram a se entreolhar.

Um deles sussurrou:

— Esse nome não é…?

Outro completou:

— Ele estava na Vasconcelos Music…

Helena ficou pálida.

Victor ouviu.

E isso foi o suficiente para mudar tudo na expressão dele.

Não era mais interesse.

Era controle.

— Interessante — Victor disse lentamente. — Muito interessante.

Ele virou-se para os convidados.

— Todos podem se retirar.

Um murmúrio percorreu o salão.

— Como assim?

— A festa ainda não acabou…

Victor não elevou a voz.

Mas a autoridade dele esmagava qualquer resistência.

— Acabou.

Silêncio.

Depois movimento.

Os convidados começaram a sair, confusos, irritados, curiosos.

Ninguém discutiu.

Ninguém ousou.

Helena ficou parada, segurando Sofia, sem entender o que estava acontecendo.

Quando o último convidado saiu, as portas do salão foram fechadas.

O som do clique ecoou como uma sentença.

Victor virou-se lentamente.

Agora o salão era outro.

Menor.

Mais perigoso.

Ele caminhou até uma mesa lateral e pegou uma taça de whisky.

Mas não bebeu.

Só segurou.

— Helena Duarte… — ele disse.

Helena congelou.

Ele sabia o nome dela.

— Você trabalhou na Vasconcelos Music por cinco anos.

Helena não respondeu.

Victor continuou:

— Sumiu do sistema há cinco anos.

Ele olhou para Sofia.

— Exatamente quando essa criança nasceu.

Helena ficou sem ar.

— Isso não é da sua conta…

Victor sorriu levemente.

— Tudo que acontece dentro da minha empresa… é da minha conta.

Sofia olhou para ele.

— Essa empresa era do meu pai também?

O salão ficou pesado de novo.

Victor não respondeu imediatamente.

Ele apenas observou a menina.

Como se estivesse calculando o custo de cada palavra.

— Elias Monteiro não era dono de nada — ele disse finalmente.

Helena se mexeu.

— Isso é mentira.

Victor virou o olhar para ela.

— Mentira?

Ele deu um passo à frente.

— Ele era um compositor contratado.

Mais um.

Descartável.

Sofia franziu a testa.

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— Não.

Victor inclinou a cabeça.

— Não?

Sofia respondeu com firmeza:

— Ele assinava as músicas com você.

Silêncio.

Helena fechou os olhos.

Victor não reagiu por alguns segundos.

Então riu.

Mas foi um riso curto.

Sem alegria.

— Você não sabe o que está dizendo.

Sofia continuou:

— Eu vi as partituras.

Victor parou de rir.

O ar mudou.

Helena sussurrou:

— Sofia… não…

Mas já era tarde.

Sofia estava indo fundo demais.

— Em todas as músicas grandes da Vasconcelos Music… o nome dele aparece escondido.

Victor ficou imóvel.

A taça na mão dele tremia levemente.

Mas ninguém percebeu.

Ou ninguém quis perceber.

— Isso é absurdo — ele disse.

Mas a voz dele perdeu força.

Helena deu um passo à frente.

— Você apagou o nome dele.

Silêncio total.

Victor olhou para ela.

Por um segundo, parecia que ele ia negar.

Mas não negou.

Isso foi pior.

Ele apenas disse:

— Ele assinou um contrato.

Helena explodiu:

— Um contrato de silêncio forçado! Você destruiu a vida dele!

Victor respirou fundo.

E pela primeira vez, sua máscara caiu um pouco.

— Ele escolheu sair.

Sofia deu um passo à frente.

— Não.

Victor olhou para ela.

— O quê?

Sofia repetiu:

— Ele não escolheu.

O silêncio voltou.

Mais pesado.

Mais real.

Sofia continuou:

— Ele foi substituído.

Victor estreitou os olhos.

— Substituído por quem?

Helena ficou rígida.

Sofia respondeu:

— Por você.

A palavra caiu como uma faca.

Victor virou o rosto lentamente.

Agora ele não parecia mais apenas um empresário poderoso.

Parecia alguém encurralado.

— Você não entende o que está falando — ele disse.

Mas a voz dele já não era firme.

Helena respirou fundo.

— Ele criou tudo isso — ela disse. — Ele era o verdadeiro talento. Você só tinha o nome.

Victor apertou a taça com força.

— Cuidado com o que diz.

Helena continuou, como se finalmente tivesse perdido o medo:

— Ele era o cérebro musical da sua empresa. E quando você percebeu que ele era maior que você… você o apagou.

O silêncio virou tensão pura.

Sofia olhou para Victor.

— É verdade?

Victor não respondeu.

E esse foi o erro.

Porque o silêncio dele respondeu por ele.

Helena começou a chorar.

— Você destruiu ele… e nos destruiu junto.

Victor finalmente falou, mas mais baixo:

— Ele desapareceu porque queria.

Sofia balançou a cabeça.

— Não.

Ela deu mais um passo.

— Ele está vivo.

Victor congelou de novo.

Helena olhou para Sofia com medo.

— O quê…?

Sofia continuou:

— Eu senti isso na música.

Victor riu de novo, mas agora era instável.

— Você sente música… agora?

Sofia respondeu:

— Eu sinto quando ela está incompleta.

Silêncio.

E então ela disse:

— E essa música… ainda tem alguém escrevendo ela.

O salão ficou completamente parado.

Victor virou lentamente o rosto.

— Isso é impossível.

Sofia olhou diretamente para ele.

— Então por que você ficou com medo quando eu toquei?

A frase acertou.

Direto.

Sem defesa.

Victor não respondeu.

Helena percebeu.

E isso foi pior do que qualquer confissão.

Porque agora não era mais teoria.

Era certeza.

Sofia não era apenas uma criança talentosa.

Ela era uma chave.

De algo muito maior.

Victor deu um passo para trás pela primeira vez naquela noite.

E então…

o celular dele vibrou.

Ele olhou para a tela.

Seu rosto mudou imediatamente.

Branco.

Helena percebeu.

— O que foi?

Victor não respondeu.

Ele apenas virou o celular lentamente.

E mostrou para Sofia sem querer.

Na tela, um arquivo aberto.

Um documento interno da Vasconcelos Music.

Um relatório antigo.

Com uma lista de nomes.

E um título no topo:

“REGISTRO DE ELIMINAÇÃO — PROJETO MONTEIRO”

Sofia leu em voz baixa:

— “Eliminação…”

E então seus olhos desceram.

Para a lista.

E lá, entre vários nomes riscados…

um nome estava destacado em vermelho.

ELIAS MONTEIRO

Mas ao lado dele havia outra palavra.

Uma anotação.

Que não deveria existir.

Sofia leu.

E ficou imóvel.

O documento dizia:

“STATUS: MORTO OFICIALMENTE CONFIRMADO.”

Ela levantou o olhar lentamente.

Para Victor.

E perguntou, com uma calma assustadora:

— Se ele está morto…

Sofia engoliu seco.

E completou:

— …quem está escrevendo as músicas dele agora?

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