Essas perguntas histéricas foram deixadas para trás, dissipando-se rapidamente no vento.
Caminhei até o ponto de ônibus e esperei o transporte sem qualquer expressão.
Sua dor, sua decadência, eram resultados de suas próprias escolhas. Ele não estava assim por minha causa, ele pagou o preço por sua própria estupidez e egoísmo. Até agora, ele não entendia esse princípio. Ele apenas sentia que eu havia destruído sua vida.
Que patético. O ônibus chegou, entrei e sentei-me em um lugar perto da janela.
O veículo partiu, olhei para a paisagem que passava rapidamente pela janela, sem sentir nada no coração.
Naquela noite, ao chegar em casa, contei aos meus pais. Meu pai, ao ouvir, ficou furioso e quis ir tirar satisfação com a família de Lucas.
Eu o impedi: "Pai, não vá. Não há o que conversar com gente desse tipo, isso só vai nos rebaixar."
Meu pai olhou para meu rosto calmo e finalmente suprimiu sua raiva.
Entretanto, nós queríamos paz, mas o outro lado não estava disposto a desistir.
Depois das nove da noite, o celular do meu pai tocou.
Era um número desconhecido. Meu pai atendeu e colocou no viva-voz.
"Alô? É o irmão Roberto?" uma voz cansada e velha soou do outro lado.
Era o Sr. Roberto, pai de Lucas. "Sou eu." meu pai respondeu friamente.
"Irmão Roberto, peço perdão, não soube educar meu filho, peço perdão à Nina..." a voz do Sr. Roberto estava cheia de culpa e súplica. "Sei que tudo o que eu disser agora é tarde, mas ainda quero implorar, pedir para a Nina ligar para a escola e dizer que aquele cancelamento foi uma brincadeira de mau gosto, para que ela volte a estudar..."
"Sr. Roberto," meu pai o interrompeu, não o chamando mais de "irmão Roberto", "a vida da minha filha pertence a ela. O caminho que ela não quer trilhar, ninguém pode forçar. Se não há mais nada, vou desligar."
"Não! Irmão Roberto, não desligue!" a voz do Sr. Roberto ficou urgente. "Eu imploro! Pela amizade de tantos anos! O Lucas... ele foi hoje à escola da Nina causar confusão, isso pegou muito mal, e ele foi... ele recebeu uma advertência grave da universidade! Se ele não conseguir o diploma por causa disso, a vida dele está arruinada! Imploro, deixe a Nina voltar, só se ela voltar, a punição do Lucas pode ser revogada! É tudo pelas crianças..."
Ao ouvir isso, finalmente entendi.
Portanto, Lucas veio me procurar hoje não para se arrepender, mas porque foi punido pela escola, ficou com medo e quis me usar novamente como ferramenta para resolver seus problemas.
E este telefonema, aparentemente de arrependimento, feito pelo Sr. Roberto, voltava sempre ao objetivo final: seu próprio filho.
A família dele, do início ao fim, nunca se importou verdadeiramente com a dor que me causaram. Eles só se importavam com o tamanho do prejuízo que minha decisão traria para eles.
Meu pai silenciou por alguns segundos e, com um tom de voz sem precedentes, frio e resoluto, disse palavra por palavra:
"O futuro do seu filho é um problema da sua família. A dignidade da minha filha é a vida da nossa família."
"De agora em diante, não temos mais nenhum vínculo." Dito isso, ele desligou o telefone diretamente.
13
Após meu pai desligar o telefone, uma estranha tranquilidade tomou conta da sala. Aquela frase, "de agora em diante, não temos mais nenhum vínculo", foi como uma lâmina decisiva, cortando completamente décadas de vizinhança e falsas gentilezas.
Minha mãe não disse nada, apenas caminhou silenciosamente até meu pai e serviu-lhe um copo de água quente. Ele aceitou, suas mãos ainda tremiam levemente, mas seu olhar era de uma firmeza extraordinária. Eu sabia que ele havia tomado a decisão mais correta e, ao mesmo tempo, a mais difícil, tanto por mim quanto por nossa família.
Depois daquela noite, a família de Lucas desapareceu completamente das nossas conversas diárias. Paramos de mencioná-los, como se fossem apenas vizinhos comuns que tivessem se mudado. Eu, por outro lado, mergulhei ainda mais profundamente no "mar de sofrimento" do cursinho, lutando todos os dias entre montanhas de questões e pilhas de papéis, usando o conhecimento e as notas para construir a fortaleza do meu futuro.
Os dias tranquilos passaram por cerca de meio mês.
Naquele dia, voltei do estudo noturno da escola e, logo ao entrar, senti que o clima em casa estava estranho. Meus pais estavam sentados no sofá com expressões graves, e sobre a mesa de centro havia até um maço de cigarros fechado, algo que meu pai não tocava há quase dez anos.
"Pai, mãe, o que houve?" perguntei ao largar minha mochila.
Minha mãe me olhou, querendo dizer algo, mas hesitou.
Meu pai suspirou, pegou o maço de cigarros, voltou a colocá-lo no lugar e, no fim, não o acendeu. Ele disse em voz baixa: "Está circulando pelo condomínio hoje que o Sr. Roberto... foi hospitalizado."
Fiquei surpresa por um momento, mas não houve grandes ondas em meu coração.
"O que aconteceu?" perguntei calmamente.
"Dizem que foi naquela noite, depois de terem falado com a gente," a voz do meu pai estava muito baixa, obviamente ele havia montado o quadro completo através dos comentários dos vizinhos, "ele discutiu muito feio com o Lucas. No meio da briga, ele passou mal, caiu no chão de repente e não conseguia mais falar claramente... Foi a Wang Xiuqin quem chamou a ambulância; quando o veículo chegou, todo o corredor foi alertado. Dizem que foi... uma hemorragia cerebral."
Hemorragia cerebral. Uma palavra que, por si só, soava muito pesada.
Minha mãe acrescentou ao lado, com um tom de melancolia humana: "Ouvi da tia Zhang que o levaram ao hospital para emergência e passaram a metade da noite lá. A vida ele salvou, mas metade do corpo não se move mais. Não se sabe como será a recuperação no futuro. A Wang Xiuqin tem corrido do hospital para casa nesses dias, está quase desmoronando. O Lucas... parece que também voltou da escola, fica trancado em casa todo dia, nem sai na porta."
Ouvi em silêncio. Podia imaginar o cenário sombrio na casa deles. Um pilar da família que desaba de repente é o fim do mundo para uma mulher sem iniciativa como a tia Helena e para aquele "bebê gigante" que é o Lucas, vivendo em seu próprio mundo.
E o estopim de tudo isso foi o próprio Lucas quem acendeu. Ele entregou a tesoura para a Beatriz e, com as próprias mãos, empurrou aquela família para o abismo.
Meu pai me olhou com um olhar complexo, parecendo observar minha reação, ou talvez lutando consigo mesmo: "Nina, o pai sabe... que isso não tem nada a ver com a gente. Mas... afinal, são décadas de vizinhança, o Sr. Roberto... já nos ajudou com algumas pequenas coisas no passado. Veja, a intenção da sua mãe é... será que não deveríamos... arrumar um tempo para visitar o hospital? Não por outros motivos, apenas para... manter um último pingo de consideração."
Eu entendia a bondade dos meus pais. Eles pertencem a uma geração tradicional, que preza pelas convenções sociais, e mesmo quando feridos, é difícil para eles serem verdadeiramente frios.
Olhei para eles e balancei a cabeça. "Pai, mãe, não quero ir." minha voz era leve, mas minha atitude era firme. "Se eu for, o que isso significa? Significa que perdoamos, significa que nos amolecemos. O que a tia Helena e o Lucas pensariam? Eles não ficariam gratos pela nossa tolerância, apenas sentiriam que agarraram um bote salva-vidas, achando que o assunto ainda tem volta. Eles voltariam a atrelar o futuro do Lucas, aquela advertência grave e a doença do pai dele, tudo isso, ao nosso pescoço."
Fiz uma pausa, olhei nos olhos deles e disse cada palavra com cuidado: "Nossa visita não ajudaria em nada na doença do Sr. Roberto, mas nos traria problemas intermináveis. A doença dele foi causada pelo Lucas, e o Lucas deve arcar com as consequências. Não somos santos, somos apenas uma família comum que foi duramente ferida por eles. Nossa bondade deve ser reservada para quem merece."
Minhas palavras foram como um bisturi cirúrgico, dissecando com precisão a fina camada de "consideração" nos corações dos meus pais, revelando a realidade sangrenta por baixo.
Sim, a compaixão e a visita poderiam não trazer gratidão, mas uma nova rodada de chantagem moral.
Meu pai ficou em silêncio por muito, muito tempo. Finalmente, como se tivesse tomado uma decisão, jogou aquele maço de cigarros fechado na lixeira.
Ele se levantou, caminhou até mim e tocou meu cabelo curto, que já tinha crescido um pouco, com um olhar cheio de alívio e orgulho.
"Nina, você cresceu." ele disse. "Você tem razão. O pai e a mãe que foram simplistas demais. Este assunto termina aqui. De agora em diante, as coisas da nossa família dependem de você."
Naquele momento, senti que não era mais a criança que precisava de proteção, mas sim o novo pilar desta casa. Com minha calma e determinação, ergui um firewall sólido para nossa família, isolando todos os problemas e danos que poderiam se espalhar.