— Tia Helena — interrompi novamente — estou cansada e quero descansar um pouco. Quando eu chegar em casa, explicarei tudo aos meus pais.
— Ei! Nina! Não desligue! Explique isso direito!
Não continuei ouvindo seus gritos histéricos e desliguei a ligação.
O vagão estava silencioso. Olhei pela janela; o dia escurecia gradualmente. As luzes da cidade à distância brilhavam como joias espalhadas, deslumbrantes e distantes.
Ali, já não havia mais lugar para mim. E tudo bem. Um novo começo é sempre melhor do que continuar lutando na lama. Quanto a como Lucas e sua família enfrentariam a tempestade, já não era algo que eu precisasse considerar.
05
Ao sair da estação de trem, fui atingida pelo ar característico da minha pequena cidade natal, carregado com o cheiro de umidade e poeira.
Arrastei a mala, sem pegar táxi, caminhando passo a passo em direção à minha casa. As ruas familiares, as lojas conhecidas, o barulho da gente local; tudo estava exatamente igual a quando parti, mas meu estado de espírito estava de cabeça para baixo.
De longe, vi o velho prédio residencial onde morávamos. A janela do terceiro andar estava iluminada; era a cozinha da nossa casa.
Hesitei por um momento, respirei fundo e continuei a caminhar.
Eu conseguia imaginar a tempestade que me esperava.
E, de fato, quando abri a porta com minhas chaves e entrei arrastando a mala, o clima, que antes parecia tranquilo na sala, congelou instantaneamente.
Meu pai estava sentado no sofá assistindo ao noticiário, e minha mãe acabara de sair da cozinha trazendo uma bandeja de frutas.
Ao me ver, e àquela mala enorme atrás de mim, o sorriso no rosto da minha mãe travou. A bandeja caiu no chão com um baque, e maçãs e laranjas rolaram por todo lado.
— Nina? Você... por que voltou? Não deveria estar na faculdade? — a voz da minha mãe tremia.
Meu pai levantou-se abruptamente do sofá. Seu olhar afiado varreu meu corpo e pousou finalmente no meu cabelo curto e irregular, seu rosto escurecendo instantaneamente como um céu antes da tempestade.
— O que aconteceu com seu cabelo? E o que significa essa mala? — ele perguntou com rispidez.
Não respondi de imediato. Abaixei-me e recolhi silenciosamente as frutas que haviam rolado, coloquei-as de volta na bandeja e a deixei sobre a mesa de centro.
Só então fiquei em pé e olhei para eles.
— Eu cancelei minha matrícula. — As quatro palavras, simples e diretas, soaram como um trovão na pequena sala.
— O que você disse?! — Minha mãe correu até mim, agarrou meu braço com os olhos arregalados e injetados de sangue. — Repita! Você cancelou a matrícula? Por quê? Uma faculdade tão boa, por que desistir do nada?
— É, por quê?! — o rugido do meu pai veio logo em seguida. Ele andava de um lado para o outro na sala, apontando o dedo para o meu rosto. — Trabalhamos duro para te sustentar, para você desperdiçar seu próprio futuro? Nina, você enlouqueceu? Faz pouco mais de um mês! Nem um mês e meio se passou e você já está de volta?!
Eu sabia que eles reagiriam assim. Antes mesmo de chegarem a esse ponto, a tia Helena com certeza já havia telefonado. E a versão dela, sem dúvida, me pintava como uma jovem irracional, caprichosa e que fazia birra por causa de uma "brincadeirinha".
— É por causa do Lucas? A mãe dele ligou dizendo que tiveram um desentendimento na faculdade e você voltou por estar brava? — minha mãe insistiu, com um fio de esperança, como se quisesse acreditar que tudo não passava de um mal-entendido passageiro. — Brigas de casal se resolvem com um beijo, vocês cresceram juntos, o que não pode ser conversado? Voltar para casa por uma ninharia dessas e ainda cancelar a faculdade... o que os vizinhos vão pensar da nossa família? O que a família do Lucas vai pensar de você?
De novo essas palavras. De novo "bobagem". Meu coração parecia imerso em água gelada, e até a última centelha de calor desapareceu.
Não discuti, nem gritei. Apenas levantei a cabeça, enfrentando o olhar de raiva e incompreensão dos meus pais, e com uma calma quase cruel, apontei para o meu cabelo.
— Pai, mãe, olhem com atenção para o meu cabelo.
Eles hesitaram, seus olhares focando inconscientemente no meu corte de cabelo desastroso.
— Não fui eu quem cortou, nem foi em um salão — disse, pausadamente. — Foi na festa de boas-vindas da faculdade, diante de milhares de professores e alunos. Lucas, para agradar uma garota chamada Beatriz, segurou-me pessoalmente e deixou que ela, com uma tesoura, cortasse meu cabelo mecha por mecha, até ficar assim.
Pronunciei as palavras "segurou-me pessoalmente" e "mecha por mecha" bem devagar, com clareza.
— Naquela hora, todos riam e gritavam. E ele, aquele Lucas que vocês viram crescer e achavam honesto e confiável, estava parado logo atrás de mim, rindo mais alto do que qualquer um.
Um silêncio sepulcral tomou a sala. Meu pai parou de andar, e a mão da minha mãe, que segurava meu braço, se soltou.
A raiva em seus rostos foi dando lugar ao choque e à descrença.
— Ele... como ele pôde fazer uma coisa dessas? — minha mãe murmurou, com o rosto pálido.
— Eu o via como parte do meu futuro, ele me via como uma piada — continuei. — Não tenho como ficar naquela faculdade. Não suporto encará-lo todos os dias, nem os que riram da minha desgraça. Não posso fingir que nada aconteceu.
Olhei para eles com determinação absoluta. — Por isso, cancelei a matrícula. Não é birra, nem brincadeira. É minha decisão, já completei todos os trâmites. Não vim aqui para discutir, apenas para avisá-los.
Dito isso, parei de olhá-los, arrastei a mala e fui direto para o meu quarto, fechando a porta com um estrondo.
Deixei todos os sons e todos os olhares do lado de fora.
Eu sabia que era cruel, mas precisava fechar aquela porta com minhas próprias mãos.
De agora em diante, minha vida será regida apenas por mim.
06
Trancada no quarto, ouvia a discussão abafada e acalorada dos meus pais, seguida pelo choro intermitente da minha mãe.
Não demorou muito para que o telefone fixo tocasse. Minha mãe atendeu, inicialmente tentando manter a polidez, mas rapidamente a conversa virou uma disputa.
Não era preciso adivinhar que a ligação era da família do Lucas.
O centro da tempestade havia se deslocado da universidade para as nossas duas famílias comuns.
Ao mesmo tempo, a poucos quilômetros dali, na casa do Lucas, o clima era ainda mais opressor e explosivo.
Quando Lucas chegou em casa, deparou-se com o rosto lívido de seu pai, o Sr. Roberto, e os olhos inchados de sua mãe, tia Helena.
— Você ainda tem coragem de voltar? — o Sr. Roberto estava sentado no sofá, apertando um jornal com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Após eu tê-lo deixado para trás no portão da faculdade, Lucas permanecia em um estado de pânico e irritação. Ele tentou dezenas de vezes me ligar e me mandar mensagens, sem resposta. Pensou que eu estivesse apenas tentando fazê-lo se preocupar, sem nunca imaginar que eu cancelaria a matrícula de fato.
Ele ainda não havia se recuperado do choque quando encontrou seus pais para o julgamento.
— Pai, mãe, o que houve? — ele perguntou fingindo naturalidade, tentando largar a mochila.
— Fica onde você está! — rugiu o Sr. Roberto, jogando o jornal com força sobre a mesa de centro. — Olha a merda que você fez!
A tia Helena apontou para ele, sem conseguir falar de tanta raiva, enquanto as lágrimas caíam:
— Eu liguei para os pais da Nina... A Nina... a Nina realmente cancelou a matrícula! Ela está no trem voltando para casa!
O rosto de Lucas empalideceu instantaneamente. O que ele mais temia, o que ele se recusava a acreditar, fora confirmado da forma mais direta por sua própria mãe.
— Ela... como ela pôde fazer isso... — ele murmurou, num tom de injustiça e confusão, como se tivesse sido traído. — Não foi só uma brincadeira? Ela precisa ir tão longe? O que ela acha que são nossos dezoito anos de relação?
— PLAF! — Um tapa estrondoso ecoou no rosto de Lucas.
Quem desferiu o golpe foi o Sr. Roberto, que até então permanecia em silêncio. Lucas ficou atordoado, cobrindo o rosto e olhando para o pai com incredulidade. Em toda a sua vida, seu pai nunca lhe encostara um dedo.
— Seu moleque desgraçado! Até agora você acha que ela está fazendo birra ou exagerando? — o Sr. Roberto tremia de tanta fúria. — Você humilhou uma garota diante de toda a escola, destruiu o cabelo dela e pisou na dignidade dela, e você chama isso de brincadeira? O que você tem na cabeça!
— Eu... eu só queria me enturmar com o pessoal da Beatriz... foi a Beatriz quem disse que eu precisava provar que tinha cortado de vez os laços com o passado... — Lucas se defendia de forma desconexa, segurando o rosto.