Capítulo 1
Eu e Lucas crescemos juntos, inseparáveis por dezoito anos.
Ele disse que teria uma surpresa para mim na festa de boas-vindas e insistiu que eu subisse ao palco.
Subi, transbordando felicidade.
As luzes se acenderam, Beatriz, a garota mais popular do curso, aproximou-se com uma tesoura, e Lucas segurou meus ombros por trás.
Clique. Meu longo cabelo caiu em mechas no chão, enquanto todo o auditório explodia em risadas.
Ele ria mais alto que todos. No dia seguinte, quando soube que eu havia pedido transferência, sua expressão mudou instantaneamente.
"Você vai mesmo desistir de tudo por causa de uma brincadeira?"
Virei-me com calma: "Sim."
01
Lucas acenava para mim lá embaixo, com os olhos brilhando de uma forma estranha.
— Nina, vem logo, é a surpresa que eu te prometi.
O lugar estava lotado, e o clima da festa estava no auge. Eu era a apresentadora e acabara de anunciar a próxima atração.
Segurei meu cartão de avisos, sorri para ele e desci os degraus do palco.
Ele correu até mim e agarrou meu pulso com força.
— Não é para baixo, é para cima — disse ele, me puxando. — A surpresa está no palco.
Eu estava confusa. — Que surpresa?
— Você vai ver quando subir. Anda logo, temos apenas alguns minutos entre as apresentações. — Lucas me empurrou para o centro do palco sem me dar chance de contestar.
Um holofote brilhou intensamente no meu rosto, ofuscando minha visão. Tentei cobrir os olhos por instinto.
A plateia ficou na penumbra, não conseguia ver os rostos, apenas ouvia o zumbido de murmúrios.
Fiquei inquieta, com as palmas das mãos suando frio.
Lucas veio para trás de mim e pousou as duas mãos suavemente sobre meus ombros. Era um gesto de conforto; desde crianças, ele sempre fazia isso para me acalmar.
Respirei fundo e afastei as mãos do rosto.
Do outro lado do palco, alguém se aproximou.
Era Beatriz, a garota mais popular do nosso curso. Ela usava um lindo vestido branco, com o cabelo em ondas perfeitas, como uma princesa.
Ela segurava uma tesoura prateada.
Meu coração deu um salto. Não entendi o que estava acontecendo. Seria uma pegadinha?
Virei a cabeça, querendo perguntar a Lucas.
De repente, ele apertou meus ombros com força, como uma garra, impedindo-me de mover.
O sorriso no meu rosto congelou.
Beatriz parou na minha frente, com um sorriso doce. Ela ergueu a tesoura e a balançou diante dos meus olhos.
O público começou a assobiar e a gritar, empolgado.
— Lucas, é esta a surpresa? — a voz de Beatriz ecoou por todo o auditório através do microfone. — Você disse que me daria um presente para provar o que sente.
Senti meu sangue gelar.
Tentei me soltar, mas os dedos de Lucas, como pinças de ferro, cravavam-se na minha pele.
— Lucas, o que você está fazendo?! — minha voz tremeu.
Ele não respondeu, apenas soltou uma risadinha baixa no meu ouvido. Foi um som leve, mas que me espetou como uma agulha.
Beatriz pegou uma mecha do meu cabelo que caía sobre o peito. Meu cabelo era comprido, quase até a cintura, nunca tingido ou alisado; era o que eu mais amava em mim.
— Ouvi dizer que você cultiva esse cabelo há muito tempo, não é? — perguntou ela, com um tom de voz que misturava inocência e crueldade.
Alguém na plateia gritou: "Corta! Corta!"
Em seguida, o coro cresceu: "Corta! Corta!"
Olhei para Beatriz, para aquele sorriso maligno, e tentei desesperadamente olhar para trás, para ver a expressão de Lucas.
Mas eu não conseguia me mover. Clique.
Um som nítido.
Meu mundo silenciou por um instante.
Uma mecha de cabelo negro flutuou diante de mim e caiu no chão brilhante.
Depois, o segundo corte. O terceiro.
Clique, clique, clique.
Beatriz, como uma criança com um brinquedo novo, destruía meu cabelo mecha por mecha com foco total.
Os fios caíam sobre meus ombros e pescoço, causando um formigamento.
Senti um arrepio na nuca; o vento gelado atingia minha pele onde a maior parte do cabelo fora arrancada.
A plateia explodiu em risadas estrondosas e aplausos.
Ouvi Lucas, atrás de mim, rindo também.
Seu peito vibrava, e sua risada era mais alta e mais aguda do que qualquer outra.
Dezoito anos. Eu o conhecia há dezoito anos.
Finalmente parei de lutar e deixei que ele me mantivesse presa, deixando Beatriz destruir meu cabelo.
Fiquei ali, imóvel, observando os rostos borrados e em êxtase lá embaixo.
Não sei quanto tempo passou até que Beatriz finalmente parou. Ela admirou sua obra, jogou a tesoura no chão com um baque surdo.
— Pronto, Lucas, recebi seu presente. — Ela sorriu e, como uma princesa encerrando o espetáculo, correu pelo palco, segurando a barra do vestido.
A pressão nos meus ombros diminuiu. Lucas me soltou.
Ele deu um tapinha na minha cabeça, fazendo mais fios caírem.
— E aí, não foi uma surpresa incrível? — Ele parecia leve e satisfeito, como se tivesse apenas concluído uma brincadeira divertida. — Não fica brava, o cabelo cresce de novo.
Não olhei para ele. Virei-me e caminhei passo a passo em direção aos degraus.
Meu cabelo estava leve, cortado de forma desigual, parecendo ter sido mastigado por um animal.
As risadas continuavam.
Desci do palco, atravessando aqueles olhares divertidos, como se eu fosse um palhaço.
Não chorei. Nem uma única lágrima.
Apenas senti que aqueles dezoito anos não passavam de uma piada.
E eu, eu era a própria piada.
02
Ao chegar ao dormitório, não havia ninguém. Minhas colegas ainda estavam no evento, compartilhando a "piada" da noite.
Caminhei até o espelho.
No reflexo, via alguém com o cabelo curto, bagunçado, com partes quase raspadas e outras com mechas longas. Ridículo e cômico.
Levei a mão à nuca, sentindo a pele exposta; a sensação era estranha.
Olhei para mim mesma sem expressão.
Por um longo tempo.
Então, abri o guarda-roupa, tirei a mala maior e a coloquei no chão.
Comecei a empacotar.
Uma peça. Outra. E outra.
Roupas, dobradas.
Livros, organizados.
Artigos de higiene, em sacos.
Meus movimentos eram metódicos, nem rápidos nem lentos. Exatamente como fizera durante dezoito anos, organizando o quarto e as mochilas de Lucas sempre que ele bagunçava tudo.
O celular vibrava freneticamente na mesa.
Era Lucas.
Não atendi.
Ele enviou mensagens no WeChat:
"Nina, onde você foi? Está brava mesmo?"
"Foi só uma brincadeira, não precisa ser tão mesquinha, né?"
"Eu e Beatriz é só curtição, não leva a mal."
"Ei, responde aí!"
"Cara, precisa disso tudo?"
Li cada palavra na tela, uma a uma, e virei o celular com a tela para baixo.
O mundo silenciou.
Continuei a arrumar minhas coisas.
Durante dezoito anos, minha vida parecia girar em torno dele. Para estudar na mesma escola primária, implorei à minha mãe que usasse seus contatos. Para ir ao mesmo ensino médio, estudei até a exaustão. Para entrar na mesma universidade, desisti do curso que realmente combinava comigo.
Ele dizia: "Nina, estaremos juntos para sempre". Eu acreditei.
Ele dizia: "Nina, na universidade eu cuidarei de você, ninguém vai te provocar". Eu também acreditei.
Ele dizia: "Nina, hoje à noite tenho uma surpresa". Eu fiquei radiante.
A mala logo estava cheia. Fechei o zíper e a coloquei perto da porta.
A porta do dormitório se abriu e uma colega entrou.
Ao me ver, e depois a mala, ela hesitou.
— Nina, você... o que está fazendo?
O olhar dela pousou no meu cabelo, com um misto de constrangimento e pena.
— Nada demais — respondi calmamente. — Vou para casa.
— Ah... e o seu cabelo... quer que eu te ajude a dar um jeito no salão? — ela perguntou com cautela.
— Não precisa — respondi. Já não havia necessidade.
Dormi muito bem naquela noite. Sem sonhos, sem lágrimas.
Na manhã seguinte, ao amanhecer, acordei.
Sem acordar minhas colegas, me arrumei, troquei de roupa e saí do dormitório arrastando a mala.
O campus, ao amanhecer, estava silencioso; apenas o som dos pássaros e da vassoura do zelador.
Fui ao prédio da administração.
A porta do escritório do orientador ainda estava trancada. Sentei-me no banco do corredor e esperei.
Às oito, o orientador chegou bocejando. Ele ficou surpreso ao me ver.
— Nina? Tão cedo? E esse cabelo... — Ele claramente já sabia o que tinha acontecido.
— Professor, quero cancelar minha matrícula — disse, levantando-me e entregando o documento que eu havia preparado na noite anterior.
O orientador mudou a expressão de surpresa para choque.
Ele tirou os óculos, esfregou os olhos e os colocou de volta, observando-me com atenção.
— Cancelar? Por quê? Nina, você entrou faz apenas um mês! Suas notas não são excelentes?
— Motivos pessoais — mantive a resposta.
— Tem a ver com o que aconteceu ontem? — ele baixou a voz. — O que Lucas e Beatriz fizeram foi terrível. Eu já ia chamá-los para uma conversa hoje, para exigirem um pedido de desculpas público.
— Não precisa, professor — balancei a cabeça. — Não tem nada a ver com eles, é uma decisão minha.