O ar na Delegacia Central de São Paulo parecia mais pesado do que nos dias anteriores.
Não era apenas a investigação.
Era o nome.
Mariana Costa.
Ele agora estava em todos os lugares — nos papéis, nas conversas interrompidas, nos olhares evitados.
E principalmente… na reação de Rafael Monteiro.
Rafael estava em pé diante da mesa de investigação.
Mas não parecia estar ali.
Seu olhar estava distante, fixo em algum ponto que ninguém mais conseguia ver.
Isabela estava ao lado, rígida, com os braços cruzados, mas com as mãos levemente trêmulas.
E Sofia…
Sofia desenhava silenciosamente na sala ao lado.
O investigador colocou os documentos sobre a mesa com cuidado.
“Precisamos esclarecer uma ligação antiga”, disse ele.
Rafael respondeu imediatamente:
“Não existe ligação nenhuma.”
Mas sua voz não soou firme.
O policial virou uma pasta antiga.
“Mariana Costa não era apenas uma paciente hospitalar.”
Rafael respirou fundo.
“Ela era… o quê então?”
O investigador respondeu sem hesitar:
“Ela era ligada diretamente a você.”
O silêncio foi imediato.
Isabela levantou o olhar de repente.
“Não.”
Foi curto.
Seco.
Quase automático.
Rafael virou-se lentamente para ela.
“O que você sabe sobre isso?”
Isabela evitou o olhar dele.
“Isso já passou.”
Mas ninguém ali aceitou essa resposta.
O investigador continuou:
“Mariana Costa esteve em registros privados associados ao senhor Rafael Monteiro antes do período da gestação.”
Rafael franziu a testa.
“Isso não faz sentido.”
O policial colocou outra folha.
Era um relatório antigo de movimentação de pacientes.
E um detalhe estava destacado:
“Contato frequente entre Rafael Monteiro e Mariana Costa — período pré-gestacional.”
Rafael ficou imóvel.
“Isso é impossível…”
Mas sua voz já não tinha certeza.
Isabela apertou os lábios.
E finalmente falou:
“Ela não deveria ter voltado.”
Todos olharam para ela imediatamente.
Rafael virou-se bruscamente.
“O que você disse?”
Isabela hesitou.
E então falou mais baixo:
“Mariana tinha sido afastada disso tudo.”
O investigador inclinou a cabeça.
“Afastada de quê?”
Silêncio.
Enquanto isso, na sala ao lado, Sofia parou de desenhar.
Ela olhou para o papel.
E disse calmamente:
“Ele está triste.”
Dra. Camila se aproximou.
“Quem está triste, Sofia?”
A menina respondeu sem olhar para ela:
“Meu pai.”
Na sala da investigação, Rafael reagiu imediatamente:
“Isso não é relevante para o caso.”
O investigador o interrompeu:
“Tudo aqui é relevante.”
Ele abriu outro arquivo.
“Mariana Costa não desapareceu apenas do hospital.”
Ele pausou.
“Ela desapareceu do convívio social ao mesmo tempo em que sua gravidez avançava.”
Rafael ficou pálido.
“Avançava?”
O policial assentiu.
“Ela estava grávida.”
Isabela fechou os olhos com força.
Rafael virou-se lentamente para ela.
“Você sabia disso.”
Não era pergunta.
Era acusação.
Isabela respirou fundo.
“Eu não sabia de tudo.”
O investigador continuou:
“Há registros de conflito familiar na época.”
Ele leu:
“Interferência direta de terceiros na permanência da gestante.”
Rafael deu um passo para trás.
“Interferência?”
O policial respondeu:
“Pressão para retirada do hospital.”
Isabela finalmente explodiu:
“CHEGA!”
Sua voz ecoou pela sala.
“Vocês não entendem o que estão mexendo!”
O silêncio que seguiu foi imediato.
Rafael virou-se para ela.
“Então explica.”
Isabela hesitou.
E então disse:
“Mariana não era apenas alguém da sua vida.”
O investigador observou:
“Ela era sua parceira?”
Isabela não respondeu imediatamente.
Mas o silêncio respondeu por ela.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
E quando abriu, havia algo diferente no olhar.
“Por quanto tempo?”
Isabela sussurrou:
“Tempo suficiente para isso virar um problema.”
O investigador anotou algo.
“E a gravidez?”
Isabela respondeu com dificuldade:
“Ela nunca deveria ter chegado até o final fora do controle da família.”
Rafael levantou a voz:
“O que isso quer dizer?”
Isabela finalmente olhou para ele.
E disse:
“Quer dizer que ela não era aceita aqui.”
O silêncio que seguiu foi absoluto.
Na sala ao lado, Sofia continuava desenhando.
Mas agora o desenho havia mudado.
Camila percebeu imediatamente.
“Sofia… o que mudou?”
A menina apontou para o papel.
“Ele não está mais sozinho.”
Camila se aproximou.
“Quem não está sozinho?”
Sofia respondeu:
“Meu irmão.”
Na sala principal, o investigador colocou uma nova folha na mesa.
“Temos outra linha de investigação.”
Rafael perguntou imediatamente:
“Qual?”
O policial respondeu:
“Registros de nascimento alternativos.”
Isabela congelou.
O investigador continuou:
“Há indícios de que a criança associada a Mariana Costa não foi registrada no sistema familiar principal.”
Rafael franziu a testa.
“O que isso significa?”
O policial respondeu:
“Que essa criança pode não estar legalmente vinculada à família Monteiro.”
O silêncio caiu pesado.
Isabela deu um passo para trás.
“Não…”
Rafael olhou para ela.
“Fala comigo.”
Mas ela não conseguiu responder.
O investigador concluiu:
“Isso significa que a criança pode ter sido registrada em outro nome.”
Rafael respirou fundo.
“Outro nome de quem?”
O policial olhou diretamente para ele.
E respondeu:
“De outra família.”
O silêncio que se seguiu não foi apenas desconforto.
Foi ruptura.
E na sala ao lado, Sofia parou de desenhar novamente.
Ela olhou para o papel.
E sussurrou algo quase inaudível:
“Ele não é daqui.”
Camila se aproximou rapidamente.
“O que você disse?”
Sofia levantou os olhos.
E repetiu com calma:
“Ele não é dessa família.”
Na sala da investigação, Rafael ouviu essas palavras ecoando do corredor.
E pela primeira vez desde o início do caso…
ele não teve resposta para o que estava prestes a descobrir.