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《O Segredo que Veio no Choro》PARTE 2

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Na manhã seguinte à ida da família Monteiro à Delegacia Central de São Paulo, o clima dentro da casa em Morumbi já não era o mesmo.

O silêncio parecia mais pesado, quase sólido, como se tivesse ocupado cada canto da residência.

Isabela Monteiro não havia dormido.

Rafael também não.

Mas o motivo era diferente para cada um.

Para Rafael, era a sensação crescente de que algo havia escapado completamente do controle.

Para Isabela, era o medo de que algo enterrado há muito tempo estivesse prestes a voltar à superfície.

E para Sofia… era como se a realidade estivesse começando a se partir em duas.

Ela estava sentada no sofá, abraçando um travesseiro pequeno, olhando fixamente para o chão.

Sem falar.

Sem piscar muito.

Apenas ouvindo vozes distantes dos adultos que tentavam entender o que estava acontecendo com ela.

Na delegacia, o relatório inicial já havia sido aberto.

O policial responsável pela triagem folheava os documentos com expressão séria, enquanto outro agente verificava rapidamente os registros da família Monteiro.

“Não existe nenhum irmão registrado”, disse ele, sem levantar a voz.

O silêncio na sala ficou imediatamente desconfortável.

Rafael inclinou-se para frente.

“Como assim não existe?”

O policial virou a tela do computador.

“Registro civil da Sofia Monteiro: filha única. Nenhum nascimento adicional na mesma família. Nenhuma adoção registrada. Nenhum irmão biológico ou legal.”

Isabela levou a mão à boca.

“Isso… isso não pode estar certo.”

O policial manteve o tom profissional.

“Os registros são do cartório de São Paulo. Cruzamos com hospital, maternidade e histórico de residência. Não há nenhum irmão.”

Rafael passou a mão no rosto, tentando organizar os pensamentos.

“Ela fala dele como se fosse real. Não é só imaginação.”

O policial respondeu de forma neutra:

“Crianças nessa idade podem criar figuras complexas. Mas precisamos descartar qualquer possibilidade de trauma, exposição ou… manipulação.”

A palavra “manipulação” ficou no ar por alguns segundos a mais do que deveria.

Isabela reagiu imediatamente.

“Você está insinuando o quê?”

“Não estou insinuando nada”, respondeu o policial. “Estou seguindo protocolo.”

Naquela mesma hora, Sofia estava sendo levada para uma sala reservada dentro da delegacia.

Uma psicóloga infantil havia sido chamada com urgência.

Dra. Camila Ribeiro entrou com uma pasta simples, cabelo preso, olhar calmo demais para o ambiente ao redor.

Ela se abaixou na frente da menina.

“Oi, Sofia. Eu sou a Camila. Posso conversar com você um pouquinho?”

Sofia não respondeu de imediato.

Ela apenas olhou para a porta, como se esperasse alguém entrar.

Depois, sussurrou:

“Ele não gosta quando eu falo.”

A psicóloga manteve a voz suave.

“Quem não gosta?”

Sofia apertou os dedos.

“Meu irmão.”

Enquanto isso, na casa dos Monteiro, uma equipe discreta da polícia havia sido autorizada a fazer uma inspeção inicial.

Rafael estava presente, andando de um lado para o outro, claramente desconfortável.

Isabela permanecia sentada, imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo dentro dela.

Um dos policiais analisava os cômodos com atenção.

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Tudo parecia normal… demais.

Quartos organizados.

Fotos de família.

Brinquedos infantis.

Uma vida comum.

Até que um detalhe chamou atenção.

Um desenho colado na geladeira.

Era feito com giz de cera.

Duas crianças.

Uma menina claramente Sofia.

E ao lado dela… um menino.

O policial apontou.

“Isso foi desenhado por ela?”

Isabela se levantou rapidamente.

“Sim… ela faz isso há algum tempo.”

Rafael se aproximou.

“Mas isso não prova nada. Criança desenha qualquer coisa.”

O policial observou o desenho por mais alguns segundos.

“O que chama atenção não é o desenho em si… é a repetição.”

Ele mostrou outros papéis encontrados no quarto de Sofia.

Todos tinham o mesmo padrão.

Duas figuras.

Sempre duas.

Sempre juntas.

Na delegacia, a sessão com a psicóloga continuava.

Sofia agora desenhava em silêncio.

Camila observava atentamente.

O traço da criança era firme demais para alguém da idade dela.

“Ele está aqui?”, perguntou a psicóloga suavemente.

Sofia não respondeu.

Mas desenhou uma linha reta abaixo das figuras.

“Isso é o quê?”, perguntou Camila.

Sofia sussurrou:

“É onde ele mora.”

Camila inclinou a cabeça.

“Onde ele mora, Sofia?”

A menina hesitou.

Depois respondeu:

“No lugar escuro.”

No mesmo instante, o relatório da casa Monteiro chegou à delegacia.

O policial responsável leu em voz baixa:

“Subsolo da residência identificado. Acesso físico restrito. Porta metálica sem uso aparente há anos. Tranca externa antiga.”

Rafael, ao ouvir isso, ficou rígido.

“Subsolo?” ele repetiu. “Isso não é usado há muito tempo.”

O policial levantou o olhar.

“Por que está fechado?”

Rafael hesitou.

“Era… depósito antigo. Nada importante.”

Isabela, porém, não respondeu.

Ela apenas olhou para o chão.

E esse silêncio foi o que mais chamou atenção.

A equipe policial foi autorizada a ir até a casa imediatamente.

Quando chegaram ao Condomínio Jardim Europa, o clima parecia ainda mais pesado sob a luz do início da tarde.

A porta do subsolo ficava no corredor lateral da casa.

Uma estrutura de metal antigo.

Pintura desgastada.

Tranca dupla.

Um dos policiais colocou a mão na maçaneta.

“Está fechado há muito tempo”, comentou.

Rafael ficou parado atrás deles.

“Não há nada ali”, disse ele rapidamente.

Mas ninguém respondeu.

O silêncio era diferente agora.

Mais técnico.

Mais atento.

Mais definitivo.

Isabela se aproximou lentamente da porta.

E parou.

Por um segundo longo demais.

Como se estivesse ouvindo algo do outro lado.

Rafael percebeu.

“Isabela?”

Ela piscou, como se voltasse ao presente.

“Eu… não entro lá há anos”, disse ela.

O policial olhou para ela diretamente.

“Por quê?”

Ela não respondeu.

Na delegacia, Sofia parou de desenhar.

Ela levantou o olhar de repente.

Como se tivesse sentido algo.

Camila observou.

“O que foi?”

Sofia sussurrou:

“Ele está indo para lá agora.”

“Quem, Sofia?”

A menina apertou os olhos.

“Meu irmão.”

Na casa dos Monteiro, o policial colocou a mão na fechadura antiga do subsolo.

E, pela primeira vez, a casa inteira pareceu prender a respiração.

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