A mãe de Sofia murmurou: "O irmão dela ia se casar, a casa estava muito ocupada..."
"Então, um simples casamento é mais importante que a sua própria filha, que a própria irmã dele?" Mateus interrompeu-a sem qualquer cerimônia, arrancando diretamente sua máscara de hipocrisia.
Do início ao fim, ninguém naquela família se importou com Sofia.
Como ele pôde não ter visto isso? Como ele pôde ter sido tão cego!
Ele ainda deu a essas pessoas a chance de continuar esfaqueando o coração já destroçado de Sofia!
Mateus lançou um olhar gelado para o contrato; provavelmente aquela era a única coisa capaz de fazer aquela família sofrer de verdade.
Não conseguir os bens de Sofia seria mais doloroso para eles do que saber que ela estava morta.
Que patético.
Mateus não disse mais nada, nem olhou novamente para o rosto inexplicavelmente pálido da mãe de Sofia.
Ele deu meia volta e partiu.
De agora em diante, não haveria mais Sofia em seus dias.
Ele e Xiao Huai haviam perdido a pessoa mais importante de suas vidas.
...
Eu estava na sombra, do outro lado da rua, em frente ao prédio.
Observei Mateus partir levando Xiao Huai, e meus olhos escureceram levemente.
Originalmente, eu também planejava levar Xiao Huai comigo.
Mas não tem problema; se o gato desaparecesse do nada, isso poderia despertar a suspeita de Mateus.
Embora ele não gostasse de mim, não seria indiferente a um gatinho.
Está tudo bem assim. Xiao Huai tem um lar e não precisa vagar por aí comigo; assim, minha última preocupação se foi.
Posso deixar este lugar com o coração tranquilo.
Enquanto eu pensava nisso, minha mãe saiu do prédio.
Minha casa ficava no segundo andar, então ouvi toda a conversa entre ela e Mateus.
Ao ouvir o motivo pelo qual ela tinha vindo me procurar, senti-me indiferente.
Afinal, o momento de maior desespero já tinha passado. Por mais que minha mãe me machucasse, agora eu não passava de uma "morta".
Como Mateus levou Xiao Huai, de quem eu mais sentia falta, já não havia motivo para voltar àquela casa fria.
Virei-me e caminhei completamente para dentro da escuridão da noite.
...
Cinco anos depois.
Hospital Qiming.
"Dr. Mateus, o prontuário do paciente do leito 576 está aqui. Sua doença cardíaca é grave, o ideal é realizar a cirurgia o quanto antes."
No escritório, um estagiário relatava a situação de forma metódica a Mateus.
Mateus pegou o prontuário, deu uma olhada e assentiu: "Agende a cirurgia para terça-feira. Quanto ao primeiro assistente..."
Ao longo desses anos, Mateus passou de um médico residente comum para um cirurgião-chefe que nunca falhou.
Mas seus primeiros assistentes continuavam sendo estagiários em sistema de rodízio.
Ao ouvir isso, o estagiário respondeu imediatamente: "Dr. Mateus, eu gostaria de ser seu primeiro assistente."
Essa fala deixou Mateus levemente surpreso.
Mas apenas por alguns segundos; ele recobrou a compostura e assentiu: "Certo, então cuide disso."
Dito isso, fechou o prontuário e devolveu.
No entanto, o estagiário não se moveu.
Mateus, confuso, levantou o olhar e viu que o estagiário corava, sua expressão firme revelando uma decisão tomada: "Dr. Mateus, o que eu quis dizer é... eu gostaria de ser seu primeiro assistente permanentemente."
O olhar de Mateus esfriou instantaneamente: "O motivo."
O estagiário baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar: "Eu... eu sinto que aprendo muito sendo seu primeiro assistente."
Mateus não suavizou o tom: "Você aprende com todos os médicos. Você é esforçado e logo será efetivado; se tiver um bom desempenho, outros médicos poderão lhe dar suporte para ser o cirurgião principal."
"Se você ficar apenas como meu primeiro assistente, perderá essa oportunidade."
O estagiário levantou a cabeça bruscamente: "Estou disposto a abrir mão dessa oportunidade!"
Capítulo 29
A resposta do estagiário foi firme e decidida, como se ele tivesse chegado a um veredito.
E essa fala...
Mateus inevitavelmente pensou em Sofia.
Mas sua expressão tornou-se ainda mais gélida: "Não me importa de quem você ouviu essas palavras, guarde suas intenções. Se você não deseja ser um bom cirurgião cardíaco, vou pedir sua transferência para outro departamento."
Após dizer isso, ele baixou o olhar para suas notas de trabalho, encerrando o assunto: "Saia."
O rosto do estagiário ficou pálido; afinal, recém-formado, ele não estava acostumado a tal rejeição.
Com os olhos marejados, saiu correndo.
Não demorou muito para que a porta fosse aberta novamente.
"Dr. Mateus, de quantos estagiários correndo do seu escritório já perdi a conta este ano?"
Um homem entrou, com um tom de voz descontraído e uma expressão de quem queria ver o circo pegar fogo.
Tiago, que há dois anos solicitou transferência da capital para o Hospital Qiming.
Muitos não entendiam por que ele abriria mão de um futuro promissor na capital para ser apenas mais um médico no Hospital Qiming.
Sua justificativa era: "Ouvi dizer que havia um cirurgião cardíaco incrível por aqui, e eu tinha que ser amigo dele. Além disso, quem disse que o Hospital Qiming é inferior à capital? Com a nossa parceria, a cirurgia cardíaca do Qiming será imbatível!"
Mateus tinha um temperamento frio e falava pouco.
Tiago era o oposto.
Todos no hospital achavam impossível que fossem amigos; afinal, por tantos anos, a única amiga de Mateus era sua amiga de infância, Sofia.
Desde a morte dela, todos sentiam que Mateus tinha se tornado outra pessoa.
Embora já fosse silencioso, ele costumava ter vitalidade. Depois, ele virou uma estátua de gelo viva, que caminhava, respirava e comia, mas exalava um distanciamento cortante.
Essa situação mudou apenas com a chegada de Tiago.
Contra todas as expectativas, eles realmente se tornaram amigos. Embora, na maior parte do tempo, Tiago tivesse que forçar a interação.
Ao ouvir a voz de Tiago, Mateus nem levantou a cabeça: "Também não foram poucos os que saíram correndo do seu escritório."
Tiago ergueu uma sobrancelha: "Ora, está aprendendo a me rebater? Que progresso."
"Mas desta vez você parece particularmente irritado. O que foi? Aquela garota disse algo impróprio?"
Mateus às vezes admirava Tiago.
Ele parecia saber tudo, mesmo sem saber de nada.
"Não." Mateus fechou suas anotações, guardou a caneta e levantou-se.
Tiago o seguiu imediatamente: "Vai almoçar, não vai? Vamos juntos, hoje pagamos com o seu cartão? Esqueci o meu."
Mateus com as mãos nos bolsos: "Vi que estava no seu bolso, não tente se aproveitar."
"Tá bom, tá bom, você tem olhos bons mesmo. Amanhã vou deixar em casa, só para te enganar." Tiago deu de ombros e abraçou o ombro de Mateus.
Mateus se desviou e continuou caminhando: "Como você me avisou, esse truque não vai funcionar."
Tiago riu: "Não sei o que fazer com você. Finja que não ouviu, pode ser?"
Os dois chegaram ao refeitório. Todos já estavam acostumados a vê-los juntos.
Desde a partida de Sofia, circulavam boatos de que Mateus a amava. Afinal, ele estava sempre mergulhado no hospital, mas voltava para casa todo dia. Alguns achavam até que ele tinha uma esposa escondida em casa. Mateus, odiando fofocas, explicou que voltava para cuidar do gato.
Em cinco anos, o gato Xiao Huai cresceu e teve crias, que Mateus doava. O gato formava pares, mas Mateus continuava solteiro. Muitos tentaram se aproximar, e todos foram rejeitados. Até tentaram marcar encontros, todos negados. Quando Tiago apareceu, alguns começaram a especular: será que Mateus gosta de homens?
Capítulo 30
Esse boato foi rapidamente desmentido por Tiago, que afirmou em alto e bom som que gostava de mulheres, e mulheres bonitas. Ele e Mateus eram apenas amigos de alma. Mateus não ligava, mas, pela expressão, parecia querer dizer: "Não é exatamente isso".
Mateus comia leve, enquanto o prato de Tiago estava cheio de carne. Durante o almoço, Tiago comentou: "Ah, ouviu falar? Alguns cirurgiões cardíacos dos Estados Unidos vêm hoje à tarde para um intercâmbio."
Tiago estava entusiasmado: "Espero que venham médicas bonitas, para podermos fazer um 'intercâmbio internacional'."
Mateus respondeu com um seco "humm", sem muito interesse.
Tiago, acostumado à "cara de monge" do amigo, zombou e mostrou uma foto no celular: "Eu consegui a foto, olha só."
Mateus olhou por impulso, querendo desviar o olhar logo depois.
Mas, em meio aos rostos caucasianos, ele avistou um rosto familiar.
Ele segurou a mão de Tiago por instinto: "Espere!"
Tiago apagou a tela do celular: "Hehe, você não quis ver. Agora quer? Pois não vou mostrar."
Mateus levantou o olhar, seus olhos estavam frios, mas suas pálpebras estavam levemente avermelhadas.
Tiago ficou surpreso: "Não precisa disso tudo... eu sei que se parece um pouco com aquela pessoa, mas não precisa ficar tão emocionado..."
Mateus permaneceu calado e com o rosto frio.
"Está bem, venceu." Tiago desbloqueou o celular e mostrou a tela: "Olhe."
Mateus abaixou o olhar apressadamente. Entre os médicos na foto, havia uma chinesa.
Não era ilusão...
Seu peito ardeu, e o coração, silencioso por cinco anos, disparou.
Aquela pessoa... era idêntica a Sofia!
Se fosse apenas uma semelhança, seria coincidência demais.
Mas Sofia já deveria estar...
Mateus fitou aquele rosto, tentando achar qualquer detalhe que fosse diferente.
Impossível. Ele tinha visto as gravações da base de paraquedismo. Ela não abriu o paraquedas, a queda de mil metros era fatal. Mesmo que o corpo não tivesse sido encontrado, mesmo que houvesse uma chance em mil de cair no rio... ela estava doente. E havia o sistema naquela época...