A maioria dos pais revisava as notas com atenção. Apenas Tiago não tocou nos documentos e continuou olhando fixamente para Joana.
Assim que terminou, Joana saiu apressada da sala, e a sensação de inquietação só desapareceu ao sair do ambiente. Suspirando, preparou-se para a próxima sala quando uma figura bloqueou seu caminho.
Era alguém familiar: Bianca. ...Então, eles tinham vindo juntos.
Como apenas um responsável podia sentar, se ambos viessem, precisavam combinar quem esperaria fora. Joana levantou a cabeça, impassível, esperando que Bianca falasse.
Bianca ainda tinha aquele ar doce, mas seu tom de voz não era tão gentil.
"Joana, nos vemos de novo."
Joana pensou que ela diria algo mais importante, mas, como era apenas um cumprimento, passou por ela sem expressão.
Ao ver Joana ignorá-la, Bianca sentiu uma raiva repentina e disse para as costas de Joana: "Joana, vou me noivar com Tiago."
"Quando acontecer, posso te convidar para o banquete de noivado?"
O clima esquentava e o sol entrava pelas frestas do corredor, trazendo um calor suave. A voz de Bianca não era alta e, como o local não estava em silêncio, ninguém mais ouviu.
Mas Joana ouviu. Ela parou, inclinou a cabeça levemente, não respondeu e seguiu para a próxima sala.
Capítulo 24
Após concluir as reuniões de pais das três turmas, Joana sentiu suas forças esvaírem-se e caminhou de volta para o escritório.
Ao passar pela sala de aula de Estela, Joana olhou subconscientemente para a mesa dela. A reunião ainda acontecia, mas Tiago já não estava lá, nem Bianca.
Joana baixou o olhar rapidamente, repreendendo-se mentalmente: por que ela estava fazendo isso? Já que terminaram, não deveria prestar atenção a coisas supérfluas.
Ela seguia em frente, sem prestar atenção aos arredores, quando uma voz clara a chamou de repente: "Professora Joana."
Joana desviou o olhar e viu Estela. Estranhando o fato de ela não ter ido embora com Tiago e os outros, estava prestes a abrir a boca quando Estela a interrompeu.
A menina aproximou-se e perguntou com curiosidade: "Professora, você terminou com meu primo?"
"Sim", Joana respondeu, pensando que Estela temia ser repreendida por ela. "Mas isso não tem nada a ver com você; continuamos sendo professora e aluna normalmente."
Não se sabe por que, Estela pareceu desapontada com a confirmação, mas logo se animou novamente: "Por que, professora?"
Joana disse que crianças não entenderiam.
Ao ver que ela não respondia, Estela começou a especular por conta própria: "Deve ser porque você não suporta o gênio dele, né? Do jeito que ele é, eu também não suportaria."
"Eu tinha até pedido dispensa ao professor dizendo que meus pais estavam ocupados, mas ele ouviu e insistiu em vir participar da reunião de pais."
Estela fez bico, irritada: "Agora pronto, capaz das minhas amigas 'de fachada' descobrirem como minhas notas estão baixas."
As pálpebras de Joana tremeram levemente. Então, foi Tiago quem quis vir à reunião?
Estela, sem notar a expressão de Joana, continuou falando sozinha: "Embora ele agora esteja com a irmã Bianca, ainda acho que meu primo gosta de você. Se não, por que ele faria tanta questão de vir?"
As palavras da criança, sem filtro, feriram Joana. Ela forçou um sorriso e disse a Estela: "Você ainda é pequena, esses assuntos não são para você considerar. O importante é estudar."
"Os professores no escritório disseram que você entregou a prova em branco de novo. É melhor pensar em como explicar isso aos seus pais."
Estela fez uma careta: "Eu não expliquei justamente porque queria irritá-los!"
Depois de se despedir de Joana, Estela saiu saltitando para brincar com os amigos.
Joana olhou para as costas dela, balançou a cabeça e voltou ao escritório com o coração pesado.
...
Com as férias de verão, Joana teve mais tempo para ficar em casa cuidando da mãe.
A quimioterapia era feita uma vez por mês, e a mãe já tinha realizado a primeira sessão antes do verão.
Em meados de julho, o médico revisou a saúde dela e considerou que ela poderia fazer a segunda sessão. Joana não ousou atrasar e, no dia seguinte, providenciou a internação.
O processo de quimioterapia era simples: apenas administrar o medicamento intravenoso; o procedimento todo levava menos de dez minutos.
Mas foi essa dose que fez o cabelo da mãe cair aos punhados, tirou-lhe o apetite e a deixou prostrada na cama o tempo todo.
Joana sentia-se impotente e, aproveitando o período de observação, perguntou à enfermeira o que deveria fazer.
A enfermeira, acostumada com a situação, disse num tom natural: "Não há como evitar essa reação. O que você pode fazer é verificar se é possível mudar para um medicamento mais suave."
Joana mostrou-lhe a lista da quimioterapia: "É possível trocar este medicamento?"
A enfermeira pegou a lista e examinou atentamente: "Se pode trocar, não sei dizer; você precisa perguntar ao médico... Mas não me lembro de termos esse medicamento de quimioterapia aqui no hospital."
Joana soltou um "ah". A enfermeira continuou: "Este é um medicamento importado, bastante caro, considerado especialmente suave. Veja os outros pacientes; eles mal conseguem ficar de pé e levam uma semana para se recuperar."
Não havia esse medicamento? Seria um lote novo?
Joana balançou a cabeça. A enfermeira certamente sabia mais do que ela. Gradualmente, um pensamento emergiu:
...Seria Tiago?
Capítulo 25
Joana voltou ao quarto e, vendo que a paciente da cama ao lado estava acordada, perguntou que medicamento usavam na quimioterapia.
Descobriu que o da mãe era, de fato, diferente. Os medicamentos usados no hospital eram limitados a três tipos comuns, nenhum igual ao da mãe.
Além de Tiago, ela não conseguia imaginar mais ninguém que a ajudasse.
Ao perceber isso, Joana sentiu um nó na garganta. Queria entrar em contato com Tiago, mas não sabia por onde começar.
Vendo que a mãe dormia, decidiu sair para tomar um ar, pedindo ao familiar da cama ao lado que ficasse de olho.
Fora do prédio do hospital, Joana não sabia para onde ir. Pensando em não se afastar muito, começou a dar voltas lentas ao redor do prédio.
Ao chegar a uma esquina, viu uma pessoa sentada em um banco de hospital e parou estática.
Não chovia há muito tempo. Havia muitas árvores no hospital e, no fim da tarde, o som das cigarras trazia um pouco de vida àquele ambiente lúgubre.
Tiago parecia não esperar que ela aparecesse de repente. Ele se levantou, parecendo uma criança de castigo, segurando um cigarro que soltava fumaça; ele o apagou e jogou-o na lata de lixo próxima.
Os dois permaneceram parados entre o som dos insetos, sem que ninguém desse um passo à frente.
Um não sabia como começar, o outro não sabia o que dizer.
Alguém passou empurrando um carrinho de bebê, e Joana deu espaço.
Havia quase um mês que não se falavam ou se viam; a última vez fora na reunião de pais. Joana se virou e tomou a iniciativa: "Por que você veio aqui?"
E... tinha aprendido a fumar.
Os olhos de Tiago eram profundos como um abismo, encarando-a sem desviar: "Eu... estava apenas de passagem."
Uma mentira deslavada. Quem passaria pelo hospital, justo no prédio onde a mãe dela estava internada?
Joana subconscientemente enganchou o dedo na bainha da blusa, o atrito acalmando um pouco seu calor interno. Ela desviou o olhar, evitando o de Tiago: "Obrigada, Tiago."
Sem contato visual, sentia que o agradecimento não parecia sincero.
Tiago sabia sobre o que ela falava e não se importou, apenas surpreso por ela ter descoberto tão rápido.
Ele acenou com a cabeça. Já que Joana sabia, ele não se esquivou: "Vocês precisam de algo mais?"
Joana respondeu baixinho: "Não falta nada."
O silêncio voltou a pairar. Para duas pessoas que antes não paravam de conversar, aquele momento era doloroso para Joana.
"Se não há nada, vou voltar. Minha mãe terminou a quimioterapia hoje à tarde."
Joana virou-se e tentou sair às pressas.
A voz de Tiago surgiu instantaneamente: "Joana, na verdade, eu tinha decidido não te procurar durante esse tempo."
Joana parou bruscamente.
"Mas eu não aguentei."
Quando ela disse que queria se casar, Tiago ficou louco no trabalho. Ele tinha prometido a si mesmo esperar até que tudo estivesse resolvido, mas não conseguia evitar; sempre que estava livre, pensava nela.
Na reunião de pais, disse a Estela que queria ir sem nem pensar, embora não se importasse com a prima. Ele só queria ver Joana.
Passou pelo condomínio dela tantas vezes, querendo apenas vê-la de forma legítima.
"O noivado com Bianca é falso. Foi uma promessa verbal unilateral das famílias; eu nunca aceitei."
"Levá-la da última vez foi para te irritar, mas acabei irritando a mim mesmo." A risada autodepreciativa de Tiago penetrou no coração de Joana, deixando-a sem fôlego.
Capítulo 26
"Joana, vamos fazer as pazes. Não sei por que você terminou comigo antes, mas sei que a culpa deve ter sido minha."
Ao ouvir isso, Joana balançou a cabeça internamente: a culpa não era dele, era dela.
Ela era covarde demais, insegura, sensível, sem coragem para resistir ou mudar.