Capítulo 3
O coração de Joana caiu no abismo mais profundo.
Apesar de estarmos quase no verão, o vento batendo em seu corpo a fez sentir um frio gelado.
Por que Tiago daria uma carta de amor para a Helena? Ele gostava dela?
Ele não tinha escrito na carta de despedida que gostava dela? Joana olhava para a carta em suas mãos com emoções conflitantes.
O pequeno coração de papel colado no envelope estava frouxo, mas não caía.
Antes que ela pudesse responder, Tiago a girou de volta: "Vai embora."
Joana abriu a boca, mas a palavra "adeus" ficou entalada em sua garganta e, no fim, não conseguiu pronunciá-la.
Ao chegar em casa e ver tudo aquilo, tão familiar e ao mesmo tempo estranho, Joana finalmente percebeu: ela tinha dezoito anos agora.
Não era mais a mulher de trinta anos que morava sozinha.
Porém, mesmo na vida adulta, o desejo de controle de sua mãe nunca diminuíra.
Sua mãe era uma mulher forte que, após o divórcio, depositou todas as suas esperanças em Joana.
Na escola, forçava-a a estudar; ao entrar no mercado de trabalho, forçava-a a casar. Enfim, tudo devia ser feito sob o arranjo materno.
Na vida passada, foi assim que ela foi forçada a ir ao encontro às cegas.
Se não fosse pela notícia repentina da morte de Tiago, talvez ela tivesse cedido, ficado com aquele pretendente e levado uma vida arrastada até o fim.
Ainda bem que sua mãe ainda não tinha voltado do trabalho.
Caso contrário, se a visse chegar tão tarde, começaria a interrogar e suspeitar de tudo.
A severidade de sua mãe quando ela tinha dezoito anos era algo que nem a Joana de trinta anos conseguia lidar.
De volta ao quarto, Joana tirou a carta de amor.
Ela piscou os olhos, colocou a ponta do dedo sobre o pequeno coração, acariciou-o duas vezes e o deixou plano.
Nesse momento, o vento entrou pela janela e virou as páginas do calendário na mesa.
Joana olhava distraída, mas de repente notou algo estranho.
Ela pegou o calendário e viu que as datas das próximas sete páginas, a partir de hoje, estavam escritas em vermelho.
As que vinham depois estavam em cinza. Seria esse o prazo que ela tinha na vida aos dezoito anos?
Com essa dúvida, Joana ficou de olhos abertos esperando até a meia-noite.
Como esperado, assim que o relógio marcou 12, a data daquela página virou cinza.
Isso significava que, em sete dias, ela voltaria para o mundo de seus trinta anos.
Por isso, ela precisava encontrar uma forma de impedir que Tiago enfrentasse o perigo dez anos depois.
Joana olhava para a carta de amor com um misto de sentimentos e, no fim, não se conteu e abriu o envelope.
"Para Tiago: Eu sou a Helena, da turma 5..."
Joana ficou paralisada e continuou lendo. Era uma carta de amor que Helena tinha enviado para Tiago, não o contrário.
Ela soltou um suspiro de alívio, mas ao mesmo tempo sentiu vergonha por ter agido como uma ladra, bisbilhotando a privacidade dos outros.
Guardou a carta rapidamente e saiu para ir à escola.
Quando chegou, ainda era muito cedo. Joana guardou a carta no bolso e foi para a turma 5 esperar por Helena.
Depois de um tempo, as vozes de Helena e suas amigas começaram a vir da esquina.
"Sério? Tiago te convidou mesmo para ver um filme no domingo?"
O corredor estava silencioso; dava para notar a empolgação na voz da amiga, mesmo que tentasse baixar o tom.
Joana sentiu um aperto no coração ao ouvir aquilo e, instintivamente, escondeu-se na sombra ao lado.
Helena sorriu timidamente e acenou: "Sim, ele veio pessoalmente me entregar o ingresso."
"Meu Deus, ele com certeza gosta de você! Só você mesmo, conseguiu conquistar o Tiago tão facilmente!"
Enquanto falavam, elas entraram na sala de aula.
Joana perdeu a melhor oportunidade de chamar Helena e, de repente, perdeu a coragem de entregar a carta a pedido de Tiago.
O que Tiago queria dizer, afinal? Ele não aceita a carta da Helena, mas convida a Helena para ver um filme...
Com a alma vazia, ela voltou para a sala de aula e, ao entrar, esbarrou em alguém.
Quando estava prestes a perder o equilíbrio, a pessoa a segurou rapidamente, com um tom de voz preocupado e ansioso: "No que você está pensando? Presta atenção por onde anda."
Joana olhou para o rosto de Tiago à sua frente e engoliu em seco.
Se fosse a Joana de dezoito anos, ela certamente não teria coragem de fazer aquela pergunta.
Mas ela tinha trinta anos, e só tinha sete dias naquele lugar; precisava esclarecer tudo e fazer com que Tiago acreditasse nela.
Por isso, Joana cerrou as mãos e soltou o que estava em seu coração.
"Tiago, você gosta de alguém?"
Capítulo 4
Joana reuniu coragem para olhar fixamente para Tiago, percebendo que os olhos escuros dele também estavam fixos nela.
O som do vento e o canto das cigarras ao redor desapareceram completamente; o mundo inteiro parecia ter parado, deixando apenas os dois ali.
Após um longo momento, Tiago riu de repente: "Então essa palavra, 'gostar', também existe no vocabulário dessa sua mente de nerd. Eu achava que você só sabia estudar."
Sem obter uma resposta clara, Joana insistiu, ansiosa: "Você gosta? Quem é ela?"
Tiago desfez o sorriso e soltou apenas um: "Adivinha?"
Antes que Joana pudesse responder, ele passou por ela, pegou o uniforme escolar e saiu.
Joana observou a silhueta dele se afastando, sentindo um aperto doloroso no coração.
Durante o resto do dia, ela ficou distraída.
Ainda não sabia como contar a Tiago sobre o futuro.
Naquela tarde, depois da aula de educação física, Joana não viu Tiago até o início da aula seguinte.
Ela escreveu um bilhete perguntando para Clarice, que era a representante de turma, e ela respondeu: 【Tiago pediu dispensa, não sei o que houve.】
Dispensa?
Joana sentiu uma inquietação inexplicável. Ela tinha a sensação de que algo tinha acontecido naquele mesmo dia em sua vida passada.
Ela se esforçou para lembrar a tarde toda e, finalmente, recordou: naquele mesmo dia da vida anterior, Tiago também tinha pedido dispensa para ir à aula de piano.
E foi justamente no caminho de volta para casa, depois da aula, que ele foi atropelado por um carro, quase fraturou as duas mãos e precisou de três meses de reabilitação.
Ao pensar nisso, o coração de Joana disparou.
Assim que o sinal tocou, ela pediu para Clarice avisar o professor, pegou uma autorização de saída e saiu correndo da escola.
Ela ainda se lembrava do caminho que Tiago fazia para ir à aula de piano.
Tinha encontrado com ele ali uma vez, anos atrás, quando ia para um curso extra, e nunca imaginou que aquilo seria útil agora.
Felizmente, o lugar não era muito longe da escola. Joana correu todo o trajeto e, quando chegou, viu exatamente Tiago virando a esquina.
Mas antes que ela pudesse respirar aliviada, um carro preto apareceu do outro lado, vindo em alta velocidade na direção dele.
O coração de Joana subiu à boca; sem pensar duas vezes, ela correu.
"Tiago! Cuidado!"
No último segundo, Joana puxou Tiago para o lado, escapando do veículo.
Ao ver que não teve sucesso, o carro não parou; acelerou e desapareceu em um instante.
Ambos caíram com força, mas Tiago se recuperou primeiro e foi acudir Joana com o rosto cheio de preocupação.
"Você está bem? Você ficou louca? Como teve coragem de se jogar assim, com tanto perigo?"
Joana tinha raspado o braço, que estava sangrando.
Ela franziu a testa de dor, ofegante: "Eu estou bem..."
Tiago a ajudou a levantar e chamou um táxi para ir ao hospital.
Depois de fazerem o curativo, Tiago finalmente perguntou: "O que aconteceu hoje? Você não deveria estar na escola? O que fazia ali?"
Havia muitas suspeitas, e Tiago, sendo inteligente, não seria enganado tão facilmente.
Joana pensou em várias desculpas, mas percebeu que aquele parecia ser um bom momento para ser sincera.
Ela baixou a cabeça, torcendo as mãos nervosamente.
Então, reuniu coragem e olhou para ele: "Porque eu sabia que aquele carro estava vindo atrás de você."
Tiago hesitou por um momento, as sobrancelhas franzidas: "Você sabia? Como você saberia disso?"
Joana respirou fundo e confessou: "Se eu te dissesse que vim do futuro, você acreditaria?"
"Hoje, você deveria ter sido atropelado por aquele carro, machucado as mãos e passado três meses em reabilitação. Eu vim aqui para mudar o seu destino."
"Tiago, você acredita em mim?"
Capítulo 5
Após dizer isso, Joana se preparou para ser alvo de chacota ou ser chamada de louca.
Mas a cena que imaginou não aconteceu. Tiago a observava com muita seriedade, parecendo refletir.
Após um longo silêncio, ele disse de forma estranha: "Sério? Então... como somos no futuro? Me conte."
"Nós?" Joana não esperava que ele perguntasse isso, e seu coração bateu acelerado.
Tiago deu um sorriso gentil: "É, o que eu estou fazendo no futuro, e o que você está fazendo?"