Antes, ele conseguia ver a si mesmo nos olhos de Lívia; mesmo naqueles quatro anos de mal-entendidos, ele ainda via o desapontamento e o amor dela.
Mas agora, mesmo ao encará-la, ele não via o menor sinal de sentimento.
O pai de repente silenciou e sentou-se lentamente no banco.
Depois de um bom tempo, soltou um riso amargo: — Quem diria, nós dois trilhamos o mesmo caminho.
Ao ouvir isso, Felipe olhou para ele com estranheza.
O pai mantinha as mãos firmemente entrelaçadas, e sua voz rouca carregava um ar de impotência.
— Sua mãe me amou muito, mas, no fim, odiou-me tanto que, até no último momento, não permitiu que eu a visse.
Capítulo 23
Felipe olhava para o pai, que parecia imerso em lembranças dolorosas, sem conseguir processar a informação.
Como a mãe poderia odiá-lo?
Até hoje, ele lembrava que ela chamou pelo nome do pai antes de morrer.
Antes que Felipe pudesse perguntar, o pai recuperou a compostura, levantou-se e deu um tapinha em seu ombro: — Lívia apenas ainda não se recuperou do baque. Fique ao lado dela e dê-lhe tempo.
Dito isso, virou-se e saiu.
Ao observar a silhueta do pai, que transmitia uma certa solidão, Felipe sentia-se tomado por uma mistura de sentimentos.
Retirou a foto de Lívia e acariciou suavemente o sorriso na imagem com as pontas dos dedos.
Seja na escola ou na sociedade, ele sempre fora orgulhoso e autoconfiante.
Mas agora, havia apenas uma ansiedade e insegurança sem fim...
Após um longo tempo, Felipe recompôs suas emoções e entrou no prédio da internação.
No quarto.
Eu estava encostada nos travesseiros, tentando pela sétima vez mover as pernas, mas, mais uma vez, falhei.
— Lívia.
Ao ouvir a voz e levantar a cabeça, vi Samuel entrando com uma sacola de frutas.
Suspirei e disse, resignada: — Este quarto logo vai ficar lotado com as coisas que você traz.
Samuel colocou as frutas na mesa: — É você quem come devagar demais.
Sorri, baixando o olhar; agora, eu só conseguia rir e brincar com Samuel.
Lembrando-me da dormência nas pernas nos últimos dias, não pude evitar perguntar: — A propósito, por que ainda não consigo sair da cama? Minhas pernas...
Apertei meus joelhos e franzi a testa: — Parecem sempre estar sem força.
Ao ouvir isso, a fisionomia de Samuel travou.
Ele forçou um sorriso que parecia leve: — Uma fratura leva cem dias para curar, imagine depois de um acidente de carro tão grave.
Após uma pausa, acrescentou: — O doutor Zhang, da neurologia, já preparou o seu tratamento. Quando estiver melhor, poderá iniciar diretamente as terapias.
Ao ouvir isso, minha expressão mudou levemente, e meus pensamentos divagaram.
Após um silêncio de dez segundos, Samuel observou meu perfil distraído e falou suavemente: — Lívia, se lhe dessem a chance de escolher novamente...
Ao encontrar meu olhar confuso, ele respirou fundo: — Você estaria disposta a aceitar o futuro que outra pessoa tem a oferecer?
Em um instante, o quarto mergulhou em um silêncio sutil.
A pergunta, levemente direta, pegou-me de surpresa.
Ao observar o olhar ardente de Samuel, desviei o rosto instintivamente.
Antes, meu coração estava tão preenchido por Felipe que eu mal conseguia pensar em outra coisa.
Mas, nestes dias, descobri o quanto Samuel se importava comigo, e vi naquele olhar algo que se parecia muito com o modo como eu costumava olhar para Felipe anos atrás.
— Samuel...
Mordi os lábios, escolhendo as palavras: — Eu sei o que sente, mas sinto muito, não posso retribuir.
Ao ouvir isso, o coração de Samuel afundou, e ele deixou escapar: — Por quê?
— Você sabe, sou alguém que recebeu uma sentença de morte suspensa pelo destino. Do jeito que estou, serei um peso para qualquer um.
Sorri com amargura: — Além disso, eu já amei o suficiente.
Um Felipe foi o bastante para me tornar inesquecível.
Meu coração, que o amara profundamente, já estava exausto e incapaz de amar outra pessoa.
Ouvindo minha recusa, um traço de amargura passou pelos olhos de Samuel.
Ele já esperava por esse resultado, mas o coração ainda doía.
Samuel respirou fundo, tentando relaxar ao máximo: — Entendo. Só não queria carregar arrependimentos. Não leve isso a sério.
— E você não é um peso. Todos nós queremos que você melhore logo.
Ao ouvir isso, levantei a cabeça e disse sinceramente: — Obrigada.
Enquanto falava, meu tom trazia um pedido de desculpas.
— Durma bem.
Samuel levantou-se e saiu. Assim que virou as costas, o sorriso que ele forçava desapareceu em meio à melancolia.
Ao abrir a porta, a figura de Felipe, que estava do lado de fora, deixou os presentes no quarto atônitos.
Capítulo 24
Olhei para Felipe, que não sei desde quando estava parado na porta do quarto, e meu coração oscilou.
Não sei que destino era esse que fazia com que nós três sempre nos encontrássemos.
Talvez por sentir que Felipe tinha ouvido o que acabara de dizer, a expressão de Samuel não era nada boa.
Ele me olhou, passou por Felipe e saiu.
Felipe entrou sem expressão e serviu um copo d'água para mim.
Como de costume, não aceitei.
Ao ver a frieza dela e lembrar-se da frase "já amei o suficiente", o pânico que invadiu seu peito o deixou impotente.
— Lívia...
Ele sentou-se lentamente. As súplicas que rondavam sua boca não sabiam como ser pronunciadas.
Naquele momento, ela era como o vento que se afastava a qualquer instante, impossível de reter.
Diante de uma Lívia assim, ele não tinha saída.
Finalmente, fixei meu olhar no homem ao meu lado.
Aquele olhar frustrado e triste, que antes pertencia apenas a mim, agora estava estampado nos olhos dele.
Forcei um sorriso: — Sente-se injustiçado? Mas não foi exatamente essa a postura que você adotou comigo durante quatro anos?
A pergunta, leve como uma pluma, pareceu abrir uma ferida de anos de amargura contida.
Olhei para Felipe, que estava paralisado, e minha voz tremia: — Eu sou apaixonada por você desde o primeiro ano do ensino médio e só tive coragem de revelar meus sentimentos após a formatura. Você não respondeu; pensei que não seríamos possíveis, mas, ao nos reencontrarmos, a primeira coisa que você disse foi que queria casar comigo. Aquele foi o momento mais feliz da minha vida.
— Mesmo que minha mãe tenha cortado laços comigo, achei que casar com você era a escolha certa. Mas não imaginei que cometeria um erro imperdoável, um erro que me fez perder a mim mesma, perder meu filho e perder a oportunidade de ver minha mãe pela última vez. E você? Nestes quatro anos, houve um único dia, sequer um minuto, em que você me amou como Lívia? Me respeitou como esposa?
— Aos seus olhos, eu sou apenas uma mulher interesseira que, contanto que receba dinheiro, não se importa com nada e aguenta tudo? Ou sou apenas um substituto para as costas de Mirella?
Enquanto falava, meus olhos ardiam e uma súplica de acusação saiu sem forças: — Felipe, você sabe? Você me fez sentir que sou a mulher mais barata do mundo.
Cada palavra era como uma agulha perfurando o coração de Felipe.
Ele cerrou os punhos, tentando aliviar a dor profunda, mas as palavras travadas se resumiram a um: — Desculpe...
Ergui levemente a cabeça, soltei um suspiro exausto e contive as lágrimas antes que rolassem.
— Assim que vejo você, lembro-me daquelas memórias que parecem pesadelos. Por isso, digo claramente: nunca vou perdoar você nesta vida, e muito menos perdoar a mim mesma. O nosso melhor desfecho é nos separarmos de forma civilizada.
Um som de "Crash!".
O copo na mão de Felipe caiu no chão devido à perda de forças.
A água se espalhou por toda parte; o copo não se estilhaçou, mas ficou coberto de rachaduras.
Virei-me e ordenei calmamente: — Obrigada por ter cuidado de mim estes dias, mas espero que, quando eu acordar amanhã, você não esteja mais aqui.
Não sei quanto tempo se passou até que Felipe soltou um suspiro profundo, como alguém que, após muito tempo submerso, finalmente conseguia respirar.
Ele pegou o copo e o colocou sobre a mesa, sentindo-se gelado por inteiro.
Quase exaurindo toda a sua energia, ele conseguiu controlar seus nervos para dizer: — Está bem.
O som de passos pesados se afastou gradualmente, e o quarto ficou em silêncio.
Agarrei a ponta do cobertor, apagando silenciosamente tudo o que vinha do passado em minha mente.
Repetia para mim mesma: despedir-me de Felipe é por um amanhã melhor.
Ainda tenho tempo; antes de ficar totalmente incapaz de me mover, vou me amar bem, assim como minha mãe fazia, e viver bem.
Virei o rosto, olhei para o copo rachado sobre a mesa e sussurrei:
— Jamais perdoarei...
Capítulo 25
Eu achava que Felipe insistiria em ficar por perto, mas durante três dias inteiros, não o vi mais.
Embora eu me sentisse aliviada, meu peito não conseguia evitar um certo sentimento de perda.
Mas, pensando bem, não era exatamente isso que eu queria?