Como um estrondo, Felipe sentiu um ruído violento ecoar nos ouvidos. Suas feições inicialmente indiferentes tornaram-se afiadas em um instante, encarando Samuel como lâminas.
Após um longo silêncio, ele soltou uma frase: — Com esse talento para inventar histórias, é um desperdício você ficar escondido em um hospital.
Suas palavras demonstravam descrença, mas suas mãos fechadas em punhos firmes revelavam a agitação interna.
E Samuel não continuou a falar.
Contudo, a inquietação no íntimo de Felipe aumentava a cada segundo. Ele afrouxou a gravata com irritação; aquilo com certeza era mentira, ele não precisava se desgastar por causa de uma mentirosa.
Nesse exato momento, a luz da cirurgia se apagou, e a porta da sala de emergência foi aberta.
Felipe deu um passo à frente, fixando os olhos na abertura, e viu duas enfermeiras empurrarem lentamente uma maca. O corpo sobre a cama estava coberto por um lençol branco —
— Lamentamos. No meio da cirurgia, a paciente sofreu uma crise da doença degenerativa, e as funções do corpo paralisaram quase por completo. Não conseguimos reverter a situação...
Capítulo 12
O ar ao redor pareceu desaparecer em um instante, e um imenso peso fez Felipe cambalear um passo para trás.
Quando a maca passou diante dele, um sopro de vento ergueu a barra do tecido branco, revelando uma mecha de cabelo escuro.
Com um som firme, ele segurou abruptamente a estrutura da maca.
A enfermeira exibiu uma expressão de choque: — Senhor, o que está...
A respiração de Felipe estava pesada, e seus olhos avermelhados traziam um pânico que ele nunca havia sentido antes.
Sua mão estendida ao lado do corpo parecia ter perdido a sensibilidade, sem forças para erguer o tecido branco.
Samuel, olhando para a hesitação em seus olhos, usou um tom sarcástico: — Você teve a coragem de tirar a vida do seu próprio filho, e agora não tem coragem de olhar para a Liv pela última vez?
Aquelas palavras entraram como uma lâmina no coração de Felipe, fazendo seu rosto empalidecer de dor.
Seu coração já apertado perdeu toda a coragem; parecia que, se erguesse o lençol, seria realmente a última visão...
Reunindo todas as forças, ergueu a mão fria para segurar a ponta do tecido.
Quando estava prestes a revelar o rosto, um choro desesperado interrompeu seus movimentos.
Virando o rosto, viu uma mulher de meia-idade vestida de forma simples correr chorando: — Minha filha...
Ela debruçou-se sobre a maca, puxando o lençol branco com as mãos trêmulas.
Ao ver aquele rosto jovem e pálido, começou a chorar copiosamente: — Filha, a mamãe está aqui, abre os olhos e olha para a mamãe!
O rosto desconhecido fez Felipe congelar, e sua estrutura tensa relaxou subitamente.
Não era a Lívia!
A porta da sala de cirurgia abriu-se novamente no momento exato, e o médico vestindo o traje cirúrgico saiu: — Os familiares de Lívia estão presentes?
Antes que Samuel pudesse falar, Felipe adiantou-se: — Eu sou o marido dela. Como ela está?
Samuel olhou para ele, contraindo as feições.
O médico retirou a máscara: — A paciente não corre risco imediato de morte, mas ainda precisa ir para a Unidade de Terapia Intensiva para observação. Se não acordar em setenta e duas horas, pode entrar em um estado de coma prolongado...
Assim que terminou a fala, Lívia foi empurrada para fora.
Ela trazia uma faixa de gaze na cabeça, e seu corpo emagrecido parecia fundido à estrutura da maca, com a máscara de oxigênio cobrindo quase a totalidade do rosto.
O coração de Felipe se apertou.
A Lívia de agora estava mais vulnerável do que em qualquer outro momento na memória dele.
Perto do corredor, Mirella assistia a tudo com o rosto completamente pálido.
O suor frio cobria sua testa, e uma sensação de choque percorria sua espinha.
Ao ver Felipe seguir a maca, ela virou as costas e fugiu desesperada.
Observando Felipe se distanciar, Samuel finalmente perguntou: — Doutor, qual o real estado da Lívia?
Por intuição profissional, ele percebeu que o médico havia omitido parte dos resultados.
O médico manteve o silêncio por um momento antes de responder: — Ela nunca mais poderá engravidar.
Samuel estancou os passos: — O quê?
O médico exibia uma expressão séria: — O corpo dela ainda não havia se recuperado do procedimento anterior, e o impacto do acidente causou danos severos ao útero. Portanto, é impossível que ela carregue outra gestação.
Ouvindo aquelas palavras, Samuel sentiu um aperto ainda maior no coração.
Em poucos dias, ela havia perdido o filho, a mãe e agora a oportunidade de ser mãe novamente. Será que ela realmente suportaria tudo isso?
Diante da preocupação explícita nele, o médico soltou um suspiro: — É melhor esperar que o estado emocional dos familiares esteja estabilizado antes de contar.
Samuel assentiu, agradeceu e caminhou em direção ao consultório.
O coração acostumado com perdas e sofrimentos humanos não deveria se abalar tanto, mas, tratando-se de Lívia, era impossível controlar as emoções.
Ele parou os passos, olhando para fora da janela.
Seu olhar escurecido carregava um traço de culpa.
Se naquele ano ele tivesse tido a coragem de dar o passo à frente, talvez o homem ao lado dela fosse ele mesmo, e ela não precisaria passar por tantos sofrimentos...
A noite caiu aos poucos.
Na UTI, os sons dos equipamentos médicos alternavam-se no ambiente.
Através do vidro de observação, Felipe fixava os olhos no rosto pálido de Lívia, fechando as mãos lentamente em punhos.
Sem que percebesse, Samuel colocou-se ao seu lado.
Após um instante de silêncio, Samuel quebrou o silêncio de repente: — A partir de agora, eu cuidarei da Lívia.
Capítulo 13
Diante do surgimento de Samuel, Felipe a princípio quis fingir que não o via, mas não imaginava que o outro diria aquelas palavras.
— Samuel, com que identidade e com que direito você diz uma coisa dessas?
Sua postura altiva e orgulhosa parecia desprezar uma farsa.
Samuel desviou o olhar para encarar diretamente os olhos gélidos de Felipe: — Ela já foi machucada o suficiente por você. Será que você ainda não pretende deixá-la em paz?
Os olhares eram como água e fogo, carregando as arestas de cada um que se recusava a ceder.
Após um longo tempo, Felipe quebrou o silêncio primeiro: — Isso é um assunto entre ela e eu. Ela não pertenceu a você no passado e muito menos pertencerá no futuro.
Dito isso, ele virou-se e afastou-se.
Samuel olhou para aquela silhueta resoluta, com a fisionomia fechada.
Felipe demonstrava a mesma autoconfiança de dez anos atrás, somada a uma arrogância indescritível.
Parecia que, em relação a Lívia, ele já considerava a vitória como certa.
Olhando para os olhos rigidamente fechados de Lívia, Samuel soltou um profundo suspiro.
As luzes da rua estavam opacas, e uma chuva fina começou a cair do céu.
Uma hora mais tarde, no escritório da presidência.
Felipe jogou o casaco de qualquer jeito sobre o sofá e sentou-se com um semblante cansado, massageando o espaço entre as sobrancelhas.
Quanto mais o ambiente silenciava, mais nítida a voz de Lívia ecoava em seus ouvidos.
— Quando nos casamos, você não disse que queria apenas a mim enquanto o casamento existisse?
— Se eu aceitasse, será que não estaria transformando o casamento em uma transação, exatamente como você fez?
— Minha mãe faleceu. O último desejo dela é que nós dois nos divorciemos.
Seu maxilar se contraiu; sentia como se inúmeros nervos em seu cérebro estivessem emaranhados, provocando uma dor súbita.
Depois de um momento, Felipe finalmente conteve a confusão interna e chamou: — Daniel.
O secretário Daniel, ouvindo o chamado, entrou vindo da sala ao lado, usando um tom respeitoso: — Diretor Felipe.
— Na gaveta direita da escrivaninha do meu escritório de casa há um envelope de documentos em branco. Vá buscá-lo para mim.
Ouvindo o comando, Daniel assentiu: — Sim, senhor.
Com os passos se distanciando, Felipe levantou-se e caminhou até a janela, perdendo-se nos pensamentos ao observar os prédios iluminados por neon lá fora.
Se tudo fosse exatamente como Samuel havia dito, será que ele realmente tinha julgado Lívia mal...
Meia hora depois, Daniel retornou e estendeu o envelope de documentos que trazia nas mãos.
Após hesitar por um instante, Felipe finalmente o abriu, e as lembranças há muito tempo trancadas começaram a ressurgir em sua mente.
Uma fotografia amarelada e uma velha carta em um envelope rosa.
Os únicos dois objetos pareciam carregar toda a juventude.
Ao lado, Daniel lançou um olhar para a foto e não pôde deixar de mostrar surpresa: — Esta é... a senhora?
Em toda a empresa, além dele, que precisava auxiliar Felipe com os assuntos particulares, ninguém sabia que Lívia era esposa de Felipe.
Mas era apenas um conhecimento superficial.
Lívia na foto vestia o uniforme escolar, trazia o cabelo preso em um rabo de cavalo e exibia um sorriso radiante no rosto que ainda guardava traços infantis.
Felipe pegou o envelope e retirou a carta de dentro dele.
Sua fisionomia tensa ganhou mais um traço de hesitação.