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《Entre o Silêncio e a Redenção》Capítulo 2

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Apenas sentia frio.

Foi mais uma noite sem dormir.

Manhã cedo.

Calculando o tempo, caminhei até a sacada com os cabelos longos e ligeiramente desalinhados, observando mais uma vez o carro de Felipe se distanciar.

Ele foi embora sem sequer tocar no assunto do divórcio. O que ele estava pensando afinal?

Quanto mais tempo permaneço ao lado dele, menos consigo entender Felipe...

Fiquei ali parada por muito tempo, até que o som da campainha me trouxe de volta à realidade.

Arrumei o cabelo depressa e desci para abrir a porta.

Do lado de fora estava um homem vestindo um uniforme de entregador, que perguntou educadamente: — Com licença, esta é a residência do senhor Felipe?

Mostrei confusão: — Quem é você?

— O senhor Felipe encomendou um anel em nossa loja, e o gerente me pediu para entregá-lo hoje.

Dito isso, ele me estendeu a caixa de presente com as duas mãos.

Olhei para baixo, e meu coração parou de repente.

Havia um cartão em formato de coração colado na caixa, onde estava escrito claramente: Mirella, Marry ME!

Capítulo 3

Aquelas poucas palavras perfuraram meus olhos com uma dor aguda.

Quando nos casamos, não houve cerimônia, não houve flores e... não houve anel.

Olhando para a caneta que o homem me estendia, forcei um sorriso: — Desculpe, ele não está em casa. Por favor, entregue na Torre de São Paulo.

Terminada a frase, fechei a porta sob o olhar intrigado do entregador.

Encostei-me na porta, sentindo o cheiro residual de tabaco na casa, e ergui a cabeça para conter as lágrimas que ameaçavam cair.

Felipe, como afinal devo te amar para conseguir fazer você ficar?

Sem aguentar permanecer ali, tomei banho, troquei de roupa e saí.

Fiquei aliviada por ainda ter meu trabalho como professora de música, o que me permitia esquecer o resto por um tempo.

Apenas, assim que cheguei à escola, fui informada de que deveria ir à sala do diretor.

E assim que entrei, vi Felipe sentado lá dentro.

Ele vestia um terno impecável, seu indicador longo folheava a ficha de um aluno, e sua feição fria transbordava uma imponência que afastava qualquer um.

Ao me ver estática na porta, o diretor correu para me puxar para dentro: — Professora Lívia, este é o diretor Felipe, da empresa de entretenimento. Eles pretendem selecionar alunos da sua turma de artes para serem treinados como futuros talentos.

Ouvindo aquilo, lembrei-me de que a escola de Gramado havia sido financiada pelo grupo de Felipe, e que a instituição enviava periodicamente jovens promissores para a agência dele.

Felipe ergueu os olhos, seu olhar distante indicando que não tinha a menor intenção de revelar nossa relação.

Respirei fundo, mantendo a postura profissional: — O senhor pode ficar tranquilo, diretor Felipe. Certamente vou selecionar os que se encaixam nas suas exigências...

— Os alunos da professora Lívia são calouros do primeiro ano, temo que não sejam adequados.

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A negação indiferente travou na minha garganta.

O diretor concordou com um sorriso amarelo: — Sim, sim, o senhor tem toda razão. Professora Lívia, se não houver mais nada, pode se retirar.

Só me restou conter o sofrimento e sair.

Por coincidência, nesse momento Mirella entrou trazendo um sobretudo.

Não pude deixar de olhar para trás, vendo Mirella colocar o casaco sobre os ombros de Felipe, falando em tom íntimo: — Já resolvi a questão do contrato. O tempo está tão frio, cuidado para não se resfriar.

Felipe assentiu.

Uma intimidade típica de um casal pairava entre eles, tornando difícil para mim até mesmo respirar.

Apertei os punhos, as unhas cravando fundo nas palmas das mãos até surgirem traços de sangue.

E ouvi o diretor aproveitar a deixa para comentar: — Já ouvi falar que a senhora é linda e virtuosa, mas não imaginava que resolvesse assuntos de negócios com tanta destreza.

Meu coração se apertou: — Eu...

— Eu só quero fazer o que estiver ao meu alcance para ajudar o Felipe — disse Mirella sorrindo, lançando-me um olhar de soslaio carregado de desprezo.

Fiquei paralisada, meus olhos avermelhados se voltando para Felipe.

Ele também olhou para mim, mas seu olhar trazia apenas uma ordem de expulsão e um aviso.

Mais uma vez, fugi desamparada.

Não consegui me recuperar durante o dia inteiro.

Após o término do expediente, saí desanimada pelos portões da escola, quando notei um Maybach estacionado sob o poste de luz a poucos passos dali.

Felipe estava encostado na porta do carro, fumando. Ao ouvir os passos, seu olhar profundo se voltou na minha direção.

Em quatro anos, aquela era a primeira vez que Felipe esperava que eu saísse do trabalho.

O desânimo sumiu num instante, e corri até ele com surpresa: — Você veio especialmente me esperar?

— Vamos nos divorciar.

O sorriso congelou no meu rosto. Olhei para o homem sem reação, vendo-o soltar uma lufada de fumaça, com a voz grave e descompromissada: — Pode fazer a exigência que quiser.

Ele finalmente havia dito.

Contive a dor súbita no peito, com a voz ligeiramente trêmula: — Me dê um motivo.

— Enjoei.

Felipe apagou a ponta do cigarro com o pé, com uma postura casual, como se tratasse de um assunto sem a menor importância.

As lágrimas contidas avermelharam meus olhos, e por um longo tempo não consegui emitir nenhum som.

Mas o homem estava apenas comunicando, sem se importar com a minha reação. Ele se virou com agilidade, abrindo a porta do carro para entrar.

Aquela postura resoluta foi a gota d'água que destruiu minha lucidez. Avancei e segurei a mão dele: — Se você enjoou, por que me quis ontem à noite?

Felipe hesitou por um instante e olhou para trás, com os olhos sombrios.

Perguntei novamente, com a voz embargada: — Ou será... porque estou no caminho da Mirella?

Assim que terminei de falar, Felipe franziu o cenho bruscamente: — Solte.

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A impaciência entrou como uma lâmina no meu peito, fazendo-me quase sufocar de dor.

No segundo seguinte, Felipe me largou abruptamente. Caí no chão e tentei me levantar, mas meu corpo de repente ficou rígido, incapaz de mover um único dedo.

Só me restou assistir, impotente, enquanto Felipe entrava no carro e o veículo se distanciava.

Não sei quanto tempo se passou, até que o celular começou a tocar, e finalmente recuperei os movimentos.

Por coincidência, era uma ligação do hospital, avisando para eu buscar o resultado dos exames.

Recolhendo minhas emoções, apressei-me em direção ao hospital.

...

Hospital, setor de exames.

De longe, vi meu amigo Samuel parado no corredor, sua postura gentil combinando perfeitamente com a brancura do jaleco que vestia.

Aproximei-me, perguntando surpresa: — Você não tinha ido para o exterior num programa de intercâmbio? Quando voltou?

Samuel me lançou um olhar melancólico antes de me estender o relatório lentamente: — Acabei de voltar. Soube que você tinha vindo fazer exames, então peguei o resultado para você...

Peguei o papel sorrindo, mas quando meus olhos alcançaram o campo do diagnóstico, minhas pupilas se contraíram de forma abrupta: — Esclerose Lateral Amiotrófica?!

Minha avó havia falecido por causa dessa mesma doença.

Era uma enfermidade que torturava a pessoa até que ela não desejasse mais viver. No início, o corpo ficava rígido.

Gradualmente, os ossos se deformavam, trazendo uma dor incessante dia e noite, até que, no final, dependia-se de aparelhos até para respirar...

Olhando para o meu rosto pálido, Samuel, embora penalizado, estendeu-me também o exame de ultrassom: — Nos estágios iniciais da doença ainda há esperança de tratamento, mas o que torna a situação complicada no momento é isto...

Peguei o papel, paralisada.

No segundo seguinte, o suspiro cheio de compaixão de Samuel ecoou nos meus ouvidos: — Você está grávida. Mas, diante das suas condições atuais, não há como manter esse bebê.

Capítulo 4

Quando saí do hospital, a noite já havia caído.

Caminhei pisando na neve, confusa e sem rumo, em direção a casa.

Olhei para os postes de luz com sua iluminação amarelada e, mais uma vez, lembrei-me das palavras de Samuel.

— Liv, sua doença pode piorar a qualquer momento, aceite o tratamento o quanto antes. O problema é que os medicamentos causam grandes danos ao feto. Eu sei que você não quer abrir mão dele, mas, como médico, aconselho você a se tratar.

O impacto de descobrir uma doença terrível misturado à alegria de ser mãe pela primeira vez despedaçava meus neurônios, tornando meus passos cada vez mais pesados.

O que eu deveria fazer? Contaria isso a Felipe?

Mas, todas as vezes que estivemos juntos, eu tomei o remédio. Como explicaria que a pílula do dia seguinte não havia funcionado?

Parei de caminhar lentamente, encarando fixamente o número de Felipe no meu celular.

Após hesitar por muito tempo, finalmente apertei o botão de ligar.

Afinal, Felipe era o pai da criança e tinha o direito de saber.

O tom de chamada parecia um tambor batendo contra o meu coração angustiado, fazendo com que até a minha respiração ficasse mais leve.

Por fim, a voz grave de Felipe ecoou do aparelho, mas suas primeiras palavras foram: — Já pensou nas exigências para o divórcio?

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