Point of View of Ana Gabriela
O primeiro tempo acabou, e quando o segundo começou, o jogo parecia mais calmo. Uma troca de passes aqui, uma finalização ali, e eu já estava feliz com a vitória… e com o gol do meu menino.
Mas foi aos 44 do segundo tempo que aconteceu: o gol digno de copa que ele prometeu. Um lateral para o Arsenal, Magalhães cruzou na grande área, e Martinelli, num giro perfeito de bicicleta, acertou o fundo da rede.
Eu gritei feito louca. Gabriel se levantou, conferiu o gol e correu na direção da arquibancada, pendurando-se ali enquanto os meninos do time seguravam para que ele não caísse.
— Deixa eu ver — riu — Prometi dois gols dignos de copa, igual nosso amigo pombo… Consegui!
— Me beija logo, Martinelli! — eu ri, e ele não hesitou.
A torcida gritava, o time comemorava, e o juiz apitou, encerrando o jogo. Gabriel desceu da arquibancada e me ajudou a pular. Comemoramos juntos no campo antes de voltar para casa.
— Gostou do jogo? — perguntou, dirigindo.
— Amei, principalmente meus dois gols — sorri, provocante.
— No dia que você parar de me enrolar, vou te pedir em namoro no meio do jogo. Vou parar tudo e me ajoelhar do nada…
Eu comecei a rir.
— A gente tá caminhando, vamos com calma. Minha terapia ainda não fez milagre.
— Eu sei… — ele me olhou sério — Mas queria te contar uma coisa que talvez possa te ajudar, sabe…
— Hum…
— Espera chegar em casa. Quero contar olhando nos seus olhos — falou, e eu concordei.
Peguei meu celular e tirei uma foto dele, postando no story: "Ganhei dois gols e um beijo hoje. Te amo 'Gabi Tinelli' @gabriel.martinelli <3"
Chegamos à casa de Gabriel. A mãe dele já não estava, e ele foi tomar banho enquanto eu procurava algo para assistir na TV.
— Ana — ele desceu, já de banho tomado — Já escolheu o que vamos assistir?
Concordei com um gesto, e ele se jogou no sofá.
— Vamos assistir One Piece comigo.
— Que porra é isso?
— Mil episódios de anime sobre um pirata que estica — falei, ríspida. Ele revirou os olhos.
— Mas antes, o que você queria me contar?
— Bom… é sobre algo que venho pensando desde que voltamos do Catar. Pode te ajudar a largar a dependência do Higor — ele coçou a cabeça e se acomodou melhor no sofá.
Meu coração disparou. Terapia já era difícil, mas falar sobre Higor abertamente… era outro nível. Respirei fundo, tentando não surtar.
— O Higor estudou com a gente. Estávamos no terceiro ano, ele entrando no primeiro — começou Martinelli — Sempre te zoava, mas nunca diretamente. Era meio pra me atingir, sabe?
Meu peito apertou. Como assim Higor estava entre as pessoas que alimentaram meus problemas de autoestima?
— Explica…
— Sempre que eu passava, ele falava coisas tipo: "Nossa, cadê sua amiga nerd?", "Cadê a feia esquisita que anda com você, Martinelli?", "Esqueceu seu monstro de estimação hoje?"…
Lágrimas começaram a escorrer. Gabriel segurou meu rosto com cuidado.
— Sempre tentei ignorar, e principalmente nunca deixar você ouvir isso. Mas o estopim foi no interclasse, quando ele disse que você estava gostosa… Daria uma foda legal.
Eu vi a veia saltar no pescoço dele. Ele também não estava tranquilo.
— A ideia dele te tocando, tirando sua virgindade e depois te jogando no lixo… me transtornava. Não por que eu era apaixonado por você, mas por que você merecia mais. Toda mulher merece mais — olhou nos meus olhos — Fiz dois gols nele no interclasse, e pedi pro Diego… você lembra dele?
— Uhum…
— Pedi pro Diego bater nele — disse — Nunca quis falar, sempre levei na brincadeira, mas tinha um fundo de verdade. Chamá-lo de jogadorzinho, dizer que você merecia mais… era a minha forma nada adulta de te proteger.
Fiquei em silêncio, absorvendo tudo.
— Não quero que odeie ele — continuou — Te fez feliz por quase um ano, mas pensa: se eu te bater hoje e te beijar amanhã… isso não apaga a dor que você sentiu. O amor que ele te deu não tira a dor que causou.
— Eu te amo — sussurrei. Gabriel se assustou.
— Eu te amo, Gabriel…
Ele sorriu, me abraçou com cuidado e beijou minha testa.
— Vamos começar a ver o One Piece, são mil episódios. Vou enlouquecer — riu.
— Você vai adorar — falei, ainda com o rosto enfiado no seu peito.
— Se você gosta, eu também vou gostar… por que… — afastou meu rosto suavemente, segurando meu queixo — Eu também te amo. Muito.
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Continua....