Point of View — Ana Gabriela
Três dias depois…
Depois de chegar em Londres, meu tempo com Gabriel foi curto. Ele precisava voltar aos treinos; o campeonato europeu não esperava.
Eu, por outro lado, descobri que minha dispensa do Arsenal e da faculdade valia até o final da Copa, classificado ou não. Duas semanas livres, um respiro inesperado.
Menos inesperada foi a torção no pé — fruto do meu desespero e ódio no jogo do Brasil. No Catar, a adrenalina me impediu de sentir dor; aqui em Londres, cada passo me lembrava do estrago que fiz.
Naquele momento, eu estava na casa de Gabriel com a mãe dele. Era dia de jogo, e ele só viria para casa na hora do almoço; agora estava no CT treinando. A cozinha cheirava a comida fresca, e eu estava sentada na bancada observando tia Beth finalizar os preparativos.
— Cheguei, família — Gabriel entrou, com aquele sorriso que sempre me deixava sem palavras.
— Oi, meu filho — tia Beth o abraçou, acariciando seu cabelo.
Ele parou à minha frente, e por um instante o mundo pareceu suspenso. Cumprimentar Gabriel nunca foi natural para nós; havia algo mais que amizade, mas eu não estava pronta para dar esse passo.
— Você vai no meu jogo hoje — afirmou, sério, sem abrir espaço para discussão.
— Não tenho uma blusa do Arsenal — murmurei, encolhendo os ombros.
— Eu sei — disse ele, sorrindo de lado. — Por isso trouxe uma.
Puxou meu braço e fomos até a sala. De dentro da mochila, retirou uma blusa azul com seu nome estampado.
— Pra você — entregou-me. — Vou tomar banho.
Sorri e concordei com a cabeça, observando enquanto ele subia correndo. Eu olhei para a blusa, sentindo um calor subir pelo meu peito.
— Oh Ana, por que você é tão má com o coraçãozinho do meu filho? — tia Beth riu, me olhando com ternura. — Ele tá fazendo de tudo por você…
— Aos poucos a gente se envolve, tia — encarei-a com sinceridade. — Juro que não quero magoar ele, mas está sendo difícil pra mim.
— Eu sei, querida — ela se aproximou e segurou minha mão. — Eu amo que você tenha essa consciência de se entender primeiro, antes de tentar entender ele. Gabriel não sabe lidar com sentimentos direito: ou sente demais ou não sente nada.
Assenti, emocionada, e beijei sua bochecha. Subi correndo para o quarto de Gabriel, pronta para vestir a blusa e, de algum jeito, sentir mais próxima dele. Olhei no espelho, sorri para meu reflexo, e foi nesse momento que ele surgiu na porta do banheiro — apenas de bermuda branca de treino, cabelo molhado e aquele sorriso que parecia capaz de me desarmar por completo.
— Ficou linda — disse, e meu coração deu um pulo.
-Tambem achei -Eu sorri.
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@gabriel.martinelli:
⚽????? @ana.cmacedo
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antony00
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@neymarjr:
EFEITO COPA DO MUNDOOOO. Torcida do Arsenal hoje tá linda
@antony00: Vendo assim até me dá vontade de fazer igual.
|Ai você lembra que tem que ser fiel e desiste.
|CORTA A AMIZADE ANDA, SATANÁS
@lucaspaqueta: Gol do Martinelli...
@ana.cmacedo: meu jogador <3
|Dois gols pra você hoje preta.
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Depois de almoçar, fui terminar de me arrumar para o jogo. Passei duas listras vermelhas e brancas em cada bochecha, joguei glitter por todo o corpo e desci, encontrando Gabriel sentado me esperando.
— Tô pronta — sorri, sentindo seu olhar me percorrer.
— Cacete — ele se levantou e me puxou. Antes que eu pudesse me afastar, me beijou rápido — Hoje é questão de honra fazer gol.
Meu corpo aqueceu instantaneamente. Olhei para a mãe dele, que estava sentada ali, e ela apenas sorriu.
— Bom jogo, queridos.
Fomos para o estádio. No caminho, Gabriel dirigia, mas eu não resisti e forcei ele a ouvir meus benditos MTG de BH: "Eu te amo Ws Da Igrejinha". Ele riu, balançando a cabeça.
— Preciso ir para o vestiário — falou, me entregando um crachá — Você vai ficar lá embaixo, nas cadeiras perto da grade.
— Tudo bem — abracei-o rapidamente — Toma cuidado, viu.
— Medo de eu me machucar? — ele riu — Você é que tem que cuidar desse pé.
Olhei para meu pé, protegido por uma faixa. Podia andar, mas pular ou correr era impossível.
— Fisioterapeuta aqui sou eu, não você.
— Chata — ele murmurou, me roubando um selinho antes de sair correndo.
Entrei no estádio e encontrei meu lugar. Tirei algumas fotos para postar depois e esperei o jogo começar. Quando Gabriel entrou em campo, quase surtei. Ele era simplesmente deslumbrante com a blusa vermelha e branca do Arsenal.
O hino foi tocado, o estádio vibrou, e então o jogo começou. O primeiro tempo parecia morno, até que, aos 15 minutos, Gabriel Jesus fez um cruzamento perfeito na grande área, e Martinelli, com a pontinha do pé, colocou a bola no fundo do gol.
Eu não podia pular, mas gritei com todas as forças. Vi Martinelli e Jesus correndo até mim. Jesus levantou Martinelli nas costas, aproximando-o da arquibancada alta.
— Beijo agora ou tenho que marcar o segundo? — ele perguntou, rindo.
Quase respondi "beija", mas o juiz apareceu apitando e deu um cartão amarelo para ele por causa da comemoração exagerada.
— Faz o segundo — eu ri, e ele desceu das costas de Jesus, voltando para o campo com um sorriso maroto.
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continua ..