Point of View — Ana Gabriela
Se eu disser que fui expulsa do meu próprio quarto, vocês acreditam? Amanda conseguiu desviar o Pedro e, bom… acho que ela estava fazendo umas "rezas especiais" no meu quarto.
E lá estava eu, quase cinco da tarde, sentada no corredor. Depois de um tempo entediada, resolvi fazer o que faço de melhor: irritar o Paquetá.
Fui saltitante até o quarto dele, bati duas vezes, e ele abriu com cara de poucos amigos.
— Oi, ídolo — sorri, tentando não demonstrar que já sabia que ele estava irritado.
— Não quero papo contigo até você resolver a parada com o Martinelli — foi seco. Quase chorei.
— Lucas…
— Não tem Lucas aqui — ele interrompeu, cruzando os braços. — Eu falei que tinha te adotado junto com a Duda, então, como nossa cria, vou te colocar de castigo.
E, como se fosse parte do pacote, Duda surgiu atrás dele.
— Olha, Ana, não teve um dia em que eu não me senti culpada por desafiar você e Antony naquela brincadeira — disse ela. — Fui infantil, esqueci que você tinha um relacionamento… Mas de certa forma, aquela atitude irracional começou a colocar as peças no lugar, sabe?
— Não foi sua culpa — balancei a cabeça.
— O Martinelli se mordeu de ciúmes. Você terminou o namoro, se envolveu com Antony… Fazia parte, entende? — ela continuou. — Agora tudo finalmente se encaixou, e você simplesmente tá ignorando a última peça do quebra-cabeça, linda…
Cruzei os braços, feita uma criança birrenta.
— É… se eu quiser o Antony?
Juro que pelo olhar que Lucas me deu, eu pude imaginar ele me catando pelos cabelos e me mandando para um cantinho para pensar.
— Você e o Gabriel parecem ter cinco anos — Lucas revirou os olhos. — Fui falar com ele, ele fez o mesmo bico e disse: "se ela quiser ficar com o Antony, ela pode".
Duda riu, e eu descruzei os braços, encarando Lucas.
— É sério, Ana. Eu entendo que você tá machucada com tudo que aconteceu. Não tô falando "entra num namoro". Só digo: para de fugir de um sentimento verdadeiro. Pode não dar certo, ou você pode descobrir que não sente nada pelo Gabriel…
— Mas só vai saber se tentar — Duda completou. — Não é o momento perfeito, mas deixa acontecer. Deixa ele te ajudar a se curar, porque é isso que ele quer. Gabriel quer te amar até você se amar… depois você pode amar ele.
Senti as lágrimas escorrerem pelo rosto.
— Obrigada — murmurei, virando de costas.
Fui até o elevador, subi para o segundo andar, quarto 205. Cinco batidas, até que Gabriel abriu a porta. Estava apenas de bermuda, com a cara cansada, amassada.
— Me desculpa por tudo — falei rápido. — Tô com tanto medo de tudo dar errado… a ideia de você ser a pessoa certa e eu conseguir te amar me assusta.
— Eu também tô com medo — ele deu dois passos para fora do quarto, fazendo nossos corpos se encontrarem.
— Preciso que você seja paciente… Para de me pressionar — falei, dando um passo para frente, pisando levemente em seus pés para alcançar melhor sua altura.
Meu rosto batia quase na altura da mandíbula dele. Dois ou três centímetros a mais, e nossas bocas estariam juntas.
— Tudo bem — ele segurou minha cintura, impedindo qualquer afastamento. — O amor é paciente…
— Se eu sou caos, você é calmaria — sussurrei.
Ele riu, inclinou levemente a cabeça, e me encarou com intensidade.
— Seu primeiro beijo foi comigo — disse.
Eu o encarei, confusa.
— Não foi…
— Foi sim. Na primeira festa que fomos juntos. Você tinha 16, bebeu demais, te levei para minha casa, e pediu para eu te beijar. Acho que eu também estava bêbado.
— Eu nunca servi para beber.
— Isso é fato, mas eu te beijei — tocou meu rosto com cuidado. — Desculpa por ter escondido isso.
— Queria ter raiva de você… mas, de certa forma, foi bom. Se eu soubesse antes, algumas coisas poderiam ser diferentes.
— Como o quê?
— Talvez minha dependência emocional tivesse sido em você — murmurei.
— Não fala isso — ele sussurrou.
Meu olhar passeou por cada detalhe do rosto dele, me lembrando do beijo que eu mal conseguia lembrar.
— Me beija — falei, torcendo para não me arrepender.
Ele sorriu, cuidadosamente me fez descer dos pés dele e me girou no corredor, encostando-me na parede. Uma mão na minha cintura, outra na nuca. Primeiro um selinho, depois, devagar, me pediu passagem. Entrelaçamos nossas línguas, ele riu fraco no beijo.
Era lento… quase uma dança. Gabriel apertou minha cintura; minhas mãos foram para seu pescoço. Ele aprofundou o beijo, e eu precisei me afastar. Faltou ar.
Ele passou a mão pelo cabelo, olhando-me nos olhos.
— Preciso de um lugar pra ficar… Amanda tá no meu quarto com Pedro — murmurei.
— Minha cama cabe nos dois — disse Gabriel, e eu apenas concordei.