《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 37

PUBLICIDADE

Point of View — Gabriel Martinelli

Já era madrugada quando todo mundo saiu da piscina.

O clima tinha melhorado… pelo menos na superfície.

Risos, brincadeiras, conversa leve.Mas eu sabia que aquilo era só… distração.

Quando voltei pro quarto, o silêncio voltou junto.

Tomei um banho demorado, tentando desligar a cabeça.

Não adiantou.

Me joguei na cama.

Virei de um lado.Depois do outro.

Olhei pro teto.

Fechei os olhos.

Nada.

Nenhum sinal de sono.

Só pensamento.

Perder o jogo.Perder a Isa.Perder até a certeza de quem eu era.

Tava tudo indo muito bem.

Soltei o ar com força e levantei.

Saí do quarto.

O hotel estava quase vazio, silencioso, iluminado só pelo básico.Fui andando sem destino, tentando cansar a cabeça.

Até ver ela.

— O que você tá fazendo aqui?

Ana estava sentada no canto da quadra, encostada na parede, como se tivesse se escondido do mundo.

Ela levantou o olhar.

Sorriu de lado.

— Não é óbvio?

Levantou a mão.

Um cigarro.

— Roubei da Amanda. Nem quero saber como ela conseguiu enfiar maconha nesse país.

Eu soltei uma risada baixa, surpreso.

Nunca tinha visto ela fumar.

Me aproximei e sentei ao lado dela.

O silêncio ficou confortável rápido demais.

Ela tragou.

Soltou a fumaça devagar.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela inclinou a cabeça, pensativa.

— Depende… — murmurou. — Algo do tipo seus fãs me xingando no Instagram… ou torcedores do Brasil dizendo que a culpa da derrota foi minha?

Eu virei o rosto pra ela, na hora.

— Meus fãs?

— Saiu fofoca nossa. — Ela deu de ombros. — Agora eu tô estragando sua amizade com o Antony… e destruindo seu namoro.

Meu maxilar travou.

Sem pensar muito, peguei o cigarro da mão dela e levei até a boca.

Traguei.

O gosto veio forte, seco.

Soltei a fumaça devagar.

— Devagar — ela falou, quase rindo.

Balancei a cabeça, devolvendo o cigarro.

— Foi mal.

Passei a mão no rosto.

— Vou ver o que dá pra fazer…

— Não precisa — ela respondeu, calma. — Eu só… tô meio perdida.

Ela desviou o olhar.

— Minha vida virou de cabeça pra baixo. Eu só queria me sentir segura de novo, sabe?

Aquilo me incomodou.

Mais do que deveria.

— Se sentir segura… ou estar presa ao Higor?

Ela ficou em silêncio por um segundo.

Eu continuei, mais baixo:

— Você sempre fala como se sua vida fosse melhor antes de vir pra Europa.

Ela suspirou.

— Não é que era melhor… — disse, escolhendo as palavras. — Era… mais fácil. Diferente.

Ela tragou de novo.

— E, se você quer saber… eu sinto falta dele, sim. Só tô tentando aprender a lidar com isso.

Encostou a cabeça no meu ombro.

— Na teoria, eu já entendi.

— Entendeu o quê?

Ela soltou a fumaça devagar.

— Que existe dependência emocional ali.

Ficou em silêncio.

— Eu sei disso. De verdade. Mas… quando eu fico sozinha, dói. — A voz dela ficou mais baixa. — E quando algo me machuca… dói três vezes mais, porque eu sei que, com ele, isso não aconteceria.

PUBLICIDADE

Eu não tinha resposta pra isso.

— Não quis te pressionar — murmurei.

Ela não respondeu.

Só pegou minha mão.

Brincou com meus dedos… até parar na aliança.

Girou devagar.

Depois puxou do meu dedo.

Ficou olhando.

Colocou no próprio dedo.

Sorriu, fraco.

E devolveu pra mim.

— Não doeu? — perguntou, sem me encarar. — Ela terminar com você?

Soltei um riso sem humor.

— Doeu. Só que… ultimamente tinha tanta coisa doendo que eu meio que ignorei.

Passei a mão na nuca.

— Eu chorei. Mas a Isa… foi sincera. Sempre foi.

Olhei pra frente.

— Eu era o imaturo. Ela era o equilíbrio.

Dei um sorriso fraco.

— Nosso término foi isso. Eu perdido… e ela me dando um choque de realidade, bonita e decidida.

Ana riu baixo.

— É foda… — disse. — Acho que eu nunca vivi de verdade meu namoro.

Ela entrelaçou os dedos nos meus.

— Uns beijinhos com o Antony tiveram mais história do que meu relacionamento inteiro.

Balancei a cabeça, sorrindo de leve.

— Namoro adolescente é bom.

Ela virou o rosto pra mim.

— Não quando você tem 19 anos.

Respirei fundo.

— Se eu namorasse você… te levaria pra casa, pro CT, pra sorveteria…

Ela arqueou a sobrancelha.

— Um namoro adolescente?

Neguei, me aproximando um pouco.

— Festas. Premiações… Copa do Mundo.

Ela me olhou.

Direto.

Silenciosa.

— Seu namoro com a Isa não era assim — ela disse. — Vocês viajavam. Viviam coisas grandes.

Sorriu de lado.

— E tenho quase certeza que a tia Beth não se metia.

Eu ri, de leve.

Fazia tempo que não ouvia aquele apelido.

— Não mesmo.

Respirei fundo.

— Podemos parar de falar de relacionamentos fracassados?

— Podemos.

A mão dela subiu pelo meu braço.

Devagar.

Parou no meu pescoço.

Minha respiração falhou.

Fechei os olhos por um segundo.

— Já pensou em fazer tatuagem? — ela murmurou.

— No pescoço? Nunca… no braço, talvez.

— Por que nunca fez?

Era agora.

Eu sabia.

Eu sentia.

Era só falar.

Simples.

Fácil.

Mas não era.

Minha voz saiu antes que eu pudesse parar.

— Porque eu gosto de você.

Silêncio.

Pesado.

Irreversível.

Quando abri os olhos, ela ainda estava ali.

Mas diferente.

A mão dela ainda no meu pescoço.

Os olhos… mais fechados.

Mais distantes.

Ela passou a unha devagar pela minha pele.

E então se levantou.

— Não é a hora.

Aquilo bateu.

Forte.

— A gente acabou de terminar — ela continuou, calma demais. — No momento, a gente não gosta nem da gente mesmo.

Deu um passo pra trás.

— Não mistura as coisas, Gabriel.

E saiu.

Simples assim.

Eu fiquei ali.

Sozinho.

O silêncio voltou.

Mais pesado do que antes.

Passei a mão no rosto.

Idiota.

Eu devia ter ficado quieto.

---Continua...

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia