Point of View — Gabriel Martinelli
Dois dias depois.
Sabe quando você sente que tem alguma coisa errada… mesmo quando ninguém fala nada?
Era exatamente isso.
Isabella não brigava.Não gritava.Não fazia cena.
Mas aquilo era pior.
Muito pior.
Ela me observava.
Cada movimento.Cada olhar.Cada silêncio.
E, por algum motivo, eu me sentia culpado até por respirar.
Amaldiçoei mentalmente o Neymar quando, depois do treino, ele inventou aquele after na piscina. Como se a gente não tivesse problema suficiente.
E, claro… Isa quis ir.
Eu tentei.
Juro que tentei não olhar pra Ana.
Mas parecia que, quanto mais eu evitava, mais tudo me puxava pra ela.
Ela estava na piscina, rindo, dançando com Amanda, Richarlison, Paquetá e Duda. A música era alta, um funk que ela chamou de "MTG de BH". Eu nem sabia o que era, mas dava pra ver que ela estava no ambiente dela.
Livre.
Leve.
O tipo de leveza que eu não sentia há dias.
E isso… me incomodava mais do que devia.
— TIO TINELLI!
Me assustei quando Lorenzo apareceu correndo, seguido pelos filhos do Paquetá.
— Oi — os outros dois falaram, quase em coro.
Eu ri, sem reação.
— O que vocês querem?
— Meu pai mandou te resgatar.
Olhei para o Antony do outro lado. Ele levantou a lata de cerveja e acenou.
— Pode ir, Gabriel — Isa disse, calma demais. — Eu não tô te prendendo.
Assenti, ainda desconfortável, e fui até ele.
— O que aconteceu? — ele perguntou, me entregando uma cerveja.
— Não quero falar.
— Desabafa.
— Dependendo do que eu falar… ferra sua vida.
Ele deu um meio sorriso.
— Talvez eu já saiba. Mas quero ouvir.
Neguei com a cabeça.
Foi quando olhei de novo… e vi Ana.
Ela virou, encontrou o olhar do Antony… e desceu até o chão no ritmo da música, rindo.
Fechei os olhos por um segundo.
Que inferno.
Passei o resto do tempo tentando me distrair, mas era inútil. Minha cabeça só girava em torno da mesma coisa.
Quando finalmente fui entrar no hotel, senti alguém segurar meu braço.
— Tá tudo bem com você e a Isa? — Ana perguntou.
O olhar dela era sincero.
Preocupado.
— Se ela tiver ficado brava por eu ter cuidado de você, eu posso explicar…
— Não é isso — cortei. — Depois a gente conversa.
Nem esperei resposta.
Eu só… fui.
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Quando entrei no quarto, Isa estava se trocando.
Ela nem me deu tempo de pensar.
— Gabriel, senta.
O tom dela… me travou.
— Isa, pelo amor de Deus—
— Olha pra mim.
Ela se aproximou e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você realmente acha que consegue esconder de mim que tá apaixonado por outra pessoa?
Aquilo me atingiu direto.
Sem defesa.
Senti meus olhos arderem.
— Eu… — não consegui completar.
Ela riu.
Não de deboche.
Mas de alguém que já sabia a resposta há muito tempo.
— Eu tava ignorando isso — ela continuou. — Era confortável estar com você. Era fácil fingir que tava tudo bem.
Engoli seco.
— Mas quando você veio pra cá… eu soube. Eu precisava ver com meus próprios olhos.
Ela respirou fundo.
— E eu vi.
Silêncio.
— Cada olhar. Cada reação. O jeito que você ficou quando viu ela com o filho do Antony… seu olho brilhou, Gabriel.
Fechei os olhos.
— Isa…
— Me deixa terminar.
A voz dela falhou dessa vez.
— Eu fiquei com muita raiva quando você chamou o nome dela… mas não foi surpresa. Só confirmou.
Meu peito apertou.
— Eu já sabia que você não sentia mais o mesmo por mim.
Doeu.
Porque era verdade.
E eu não tinha coragem de admitir.
— Eu sei que você ia continuar — ela disse, mais baixa. — Ia se forçar a ficar comigo… enquanto se destruía por dentro vendo ela com outro.
Ela soltou uma risada fraca, mas os olhos estavam cheios.
— E eu não vou deixar você fazer isso.
Ela tirou a aliança.
E colocou na minha mão.
O mundo parou.
— Acabou, Gabriel.
Eu não consegui reagir.
Ela se inclinou e beijou minha testa.
Com carinho.
Com cuidado.
Como se ainda me amasse.
E amava.
— Eu não sei o que pensar sobre a Ana — ela continuou. — Mas também não importa. O que importa é que você para de ser idiota… e vá atrás do que você sente.
Segurei o braço dela.
— Eu não sei se tô apaixonado por ela.
Ela sorriu.
— O Gabriel de 18 anos dizia exatamente isso… antes de fazer um discurso enorme sobre a garota que ele amava.
Soltei uma risada sem humor.
— Por que você é assim?
— Assim como?
— Tão… tranquila.
Ela deu de ombros.
— Terapia.
Eu ri de verdade dessa vez.
— Me passa o número da sua psicóloga.
— Minha mãe é psicóloga, esqueceu?
Ela me olhou com carinho.
— Eu aprendi a reconhecer a hora de sair… e a entender que amar alguém também é deixar ir.
As palavras dela ficaram.
Pesadas.
Necessárias.
— Não se esconde de você mesmo, Gabriel.
— Ela não sente o mesmo…
— Talvez não — Isa respondeu. — Mas você já viu o que acontece quando amigos se apaixonam?
— Coisa de filme.
— Não — ela disse. — Coisa da vida.
Ela se soltou devagar.
Foi até a porta.
Parou.
Olhou pra mim como se fosse a última vez.
— Vou pedir pra buscarem minhas coisas. Eu volto pra Londres.
Meu peito apertou.
— Eu te amo.
Ela sorriu.
Triste.
— Eu sei. Só não é mais do mesmo jeito.
Uma pausa.
— Eu também te amo… mas vou aprender a lidar com isso.
E então ela saiu.
Fiquei sozinho.
Com a aliança na mão.
E com a certeza mais pesada de todas.
Eu tinha sido covarde.
E agora…
Não tinha mais como fugir.