《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 29

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Point of View — Gabriel Martinelli

A comemoração pós-jogo aconteceu na piscina do hotel.

O ambiente estava leve, animado, cheio de risadas. Música baixa, conversa alta, gente espalhada entre cadeiras, água e copos.

Mas eu… não estava exatamente ali.

Isabella estava sentada no meu colo, distraída, enquanto minha mãe falava sem parar sobre alguma coisa do futebol europeu. Eu ouvia, mas não prestava atenção.

Meu olhar fugia.

Sempre para o mesmo lugar.

Na piscina, Antony brincava com Lorenzo. E, ao lado deles, Ana.

Ela ria de alguma coisa, jogando água no pequeno. Parecia leve. Como se nada tivesse acontecido.

— Vem pra piscina, Martinelli! — Vinícius passou por mim, rindo. — Só porque a patroa chegou, virou menino comportado?

Isabella riu.

— Pode ir, se quiser.

Balancei a cabeça, negando, e a abracei mais forte.

— Prefiro ficar aqui.

Ela apoiou o rosto no meu ombro.

Por alguns segundos, ficou tudo em silêncio.

Até que…

— A Ana está bem… pra quem terminou um namoro — Isabella comentou, observando a mesma direção que eu.

Fiquei quieto.

Ela não fazia ideia.

— Ela traiu mesmo o Higor com o Antony, né? — continuou, despreocupada. — Não esperava isso dela…

Meu maxilar travou.

— Ela não traiu — falei, direto. — Para de opinar na vida dos outros.

Isabella me olhou surpresa.

— Eita… calma aí, jogador. Só comentei.

Ela me deu um selinho, tentando aliviar.

Mas o clima já tinha mudado.

Pesado.

Desconfortável.

Desviei o olhar.

— Quero subir pro quarto — murmurei no ouvido dela.

O sorriso dela voltou na mesma hora.

— Agora?

Assenti.

E a gente saiu.

---

Quatro dias depois…

Café da manhã coletivo.

Obrigatório.

Hoje era dia de jogo contra a Suíça.

Eu mal tinha visto minha mãe e a Isa nesses últimos dias. O hotel da seleção estava cheio, então precisei arranjar outro lugar pra elas ficarem. Isso significava distância.

E eu odiava isso.

Os jogadores que estavam com família no hotel ocupavam uma mesa maior.

Eu me sentei, mas meu olhar não demorou muito pra escapar.

Ana estava sentada no chão, brincando com os filhos do Paquetá.

Bê e Pippo.

Ela fazia careta, os dois riam. Aquela cena… era tranquila demais.

Por alguns segundos, tudo parecia normal.

Até um grito cortar o ambiente.

— ME SOLTA!

Todo mundo virou na mesma hora.

Na entrada, uma ruiva completamente descontrolada se debatia entre dois seguranças.

— EU TENHO DIREITOS! — ela gritava em português. — CADÊ MINHA AMIGA? ANA GABRIELA, CHAVEIRINHO DE JOGADOR, CADÊ VOCÊ?

Silêncio.

Todos olharam para Ana.

E, se eu disser que ela ficou pálida… é pouco.

— Conhece? — Neymar perguntou, já se levantando.

Ana respirou fundo.

— Conheço… pode mandar soltarem. É a Amanda, minha amiga da faculdade.

Neymar foi até lá.

Os seguranças soltaram a garota.

E ela… simplesmente entrou como se fosse dona do lugar.

Cheia de atitude.

Cabelo ruivo, tatuagens, óculos escuros, saída de praia… parecia personagem de filme.

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Ela parou na frente da Ana.

Olhou.

Analisou.

E…

— Sua maldita!

Tapão.

Eu segurei o riso.

— Eu te deixo ir pra Europa e você aparece com a seleção? — ela continuou, indignada.

— Maldita é você! — Ana rebateu, fazendo bico. — O que você tá fazendo aqui?

— Tirei semestre sabático — deu de ombros. — Não tinha nada pra fazer… vim ver minha amiga na Copa.

Ela então olhou ao redor.

Para nós.

— Oi, meninos.

— Oi — respondemos, quase em coro.

Ela tirou os óculos.

Olhou direto pra mim.

Eu soube, naquele momento, que vinha problema.

— Esse é o Martinelli?

Ana assentiu.

A garota me analisou de cima a baixo.

— Que melhor amigo estranho… imaginei mais bonito.

A mesa inteira riu.

— Eu te mostrei foto — Ana retrucou.

— Prefiro o Jesus — ela disse, simples. — Aliás… OI, GABRIEL! Me passa seu número!

A risada foi geral.

— Vem comigo, sua doida — Ana puxou ela pelo braço. — Desculpa, gente!

Elas saíram.

— Eu me apaixonei — Vinícius comentou. — Tem cara de quem vai pisar em mim. Eu gosto.

Neguei com a cabeça, rindo.

Mas, no fundo…

Eu só conseguia pensar que aquilo ia dar problema.

---

Point of View — Ana Gabriela

Talvez eu tenha esquecido de mencionar um detalhe importante sobre a Amanda.

Ela era completamente maluca.

— EU VOU TE MATAR! — gritei, assim que a porta fechou.

— Não vai — ela respondeu, tranquila. — Porque, tirando o feio do Martinelli, eu sou sua única amiga.

Revirei os olhos.

— Eu senti sua falta, sua desgraçada — ela continuou, se jogando na cama. — Agora senta aqui e me explica. Traição, Antony, seleção… o que aconteceu com a Ana quietinha?

Suspirei.

— Eu errei — falei, simples. — Me deixei levar… gostei, mas me arrependi. Baguncei tudo.

Ela me encarou, sem paciência.

— Você me irrita, sabia?

— Obrigada.

— Você teve chance com o Yuri Alberto e ignorou — ela apontou. — Você não tem moral nenhuma pra falar de erro.

Soltei um riso fraco.

Ela abriu a bolsa, pegou um cigarro e acendeu.

Tragou.

Me entregou.

Aceitei.

O silêncio veio, pesado… mas confortável.

— Relaxa — ela disse. — Tô aqui agora. Tirei semestre sabático e vou ficar com você.

Balancei a cabeça.

— Você vai me colocar em problema.

— Eu sou o problema — ela corrigiu.

Traguei de novo.

— Não consegui quarto aqui — ela continuou. — Vou ficar num hotel perto.

— Tá bom… só tenta não ser presa, por favor.

Ela riu.

— Sem promessas.

— Você ainda vai me explicar esse negócio com o Ant—

Batidas na porta.

Antes que eu levantasse, Amanda já tinha aberto.

— Ah… você de novo — ela falou.

Olhei.

Martinelli.

— Pode sair — Amanda disse, cruzando os braços. — A gente tá ocupada.

E… bateu a porta na cara dele.

— Essa menina é louca — murmurei.

— Ele não tem namorada pra ocupar o tempo, não? — ela se jogou na cama. — Ele falou alguma coisa de ônibus em cinco minu—

Nem esperei terminar.

Saí correndo.

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Entrei no ônibus ofegante.

Os meninos me olharam.

— Você não tem uma amizade normal? — Antony riu quando sentei ao lado dele. — O Martinelli é meio estranho… mas essa aí é nível avançado.

Ri, encostando a cabeça no banco.

— Você não viu nada ainda.

— Imagino.

Fechei os olhos por um segundo.

O ônibus começou a andar.

Meu celular vibrou.

Mensagem da Amanda.

"Garotaaaaa, eu vou pro jogo."

Suspirei.

Forte.

Porque conhecendo ela…

Ou ela ia destruir minha vida de vez.

Ou ia resolver tudo.

Não existia meio termo.

Ela era tipo aquelas fadas caóticas de filme.

A vida tá um desastre?

Ela aparece.

E explode tudo.

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