《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 26

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Point of View — Ana Gabriela

Sabe quando tudo parece ter sido inventado pela sua cabeça?

Ou pior… fruto de cachaça demais?

Acordei no dia seguinte às 09h30, com aquela sensação pesada no corpo e a mente completamente embaralhada. Levei alguns segundos até processar a primeira tragédia do dia: eu estava atrasada para o treino.

Me levantei de um pulo.

Foi aí que percebi.

Aquele não era o quarto do Gabriel.

Fiquei parada no meio do quarto, olhando ao redor, confusa. Demorei alguns segundos para reconhecer… o meu próprio quarto. Meu estômago revirou.

Minha cabeça tentou organizar as lembranças da noite anterior, mas tudo vinha em flashes desconexos, incompletos. Fui até o espelho, observando meu reflexo.

A roupa.

Não era a que eu lembrava de ter colocado depois do banho no quarto dele.

Era uma roupa antiga. De dias atrás. De uma noite em que eu sabia exatamente onde tinha dormido.

Meu coração apertou.

— Não… — murmurei para mim mesma.

Será que eu tinha chegado tão bêbada a ponto de… imaginar tudo?

Imaginar o Gabriel cuidando de mim.

O banho.

O cuidado.

O abraço.

Fechei os olhos com força, tentando puxar qualquer lembrança concreta, mas tudo escapava pelos dedos.

Respirei fundo e fui direto para o banho, na esperança de que a água ajudasse minha mente a clarear.

Não ajudou.

Saí, me arrumei rapidamente e desci ainda mexendo no celular, tentando me distrair da confusão que se instalava dentro de mim.

Foi quando vi.

Uma mensagem.

Enviada de madrugada.

Higor.

Meu peito afundou na mesma hora.

Por um segundo, pensei em não abrir. Pensei em ignorar, fingir que não existia, como se isso fosse apagar tudo. Mas eu não consegui.

Abri.

E cada palavra dele parecia uma facada lenta.

Li tudo em silêncio, sentindo algo dentro de mim se desfazer.

A forma como ele ainda tentava entender.

A forma como ele ainda… me amava.

E pior: a forma como ele me conhecia.

Quando ele falou do Martinelli… eu travei.

Quando ele falou do Antony… doeu.

Mas nada se comparou ao momento em que ele assumiu a culpa.

Como se fosse dele.

Como se a traição fosse consequência de algo que ele não fez.

Minha garganta fechou.

Quando terminei de ler, minhas mãos estavam trêmulas. Bloqueei o celular com força, como se aquilo fosse impedir as lágrimas.

Não foi.

Elas vieram mesmo assim.

Silenciosas.

Pesadas.

Eu já estava no hall do hotel quando percebi que estava chorando. Passei a mão no rosto rapidamente, respirando fundo.

Eu não aguentava mais chorar.

Não aguentava mais sentir.

Fui até o café da manhã quase no automático. Tentei comer alguma coisa, mas parecia que tudo travava na garganta. Desisti depois de algumas tentativas frustradas.

Segui para o treino.

Tarde demais.

Quando cheguei, já tinha acabado.

Parei na entrada, observando o campo. Alguns ainda estavam ali. Meu olhar encontrou Gabriel quase imediatamente. Ele conversava com Antony, aparentemente tranquilo.

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Do outro lado, Richarlison e Paquetá riam enquanto Lucas tentava ensinar uma dancinha para o "pombo".

A cena era leve.

Normal.

E eu me sentia completamente deslocada.

— Bom dia — ouvi alguém dizer.

Olhei para o lado e vi Pedro, do Flamengo, me encarando com um sorriso educado.

— Sou Pedro…

— Eu sei — respondi, tentando sorrir. — Sou Ana.

— A gente não conseguiu conversar ainda… você fez amizade rápido com os titulares.

Soltei um riso baixo.

— Acho que o Antony já falou de você… o amigo da igreja, né?

Ele riu, negando com a cabeça.

— Pior que é verdade. Mas enfim… só vim te cumprimentar mesmo. Prazer.

— Prazer.

Ele se afastou, e foi inevitável: meu olhar voltou para Gabriel.

Como se ele sentisse, levantou os olhos na minha direção.

E então começou a caminhar até mim.

— Oi…

— O que aconteceu ontem?

Não enrolei.

Ele me analisou em silêncio por alguns segundos. Mordeu o lábio, como se estivesse segurando alguma coisa.

Um sorriso de lado apareceu.

— Acho melhor o Neymar te contar o que aconteceu na festa… — fez uma pausa. — O pós, eu te conto depois.

Franzi o cenho.

— Ele estava bêbado. Muito mais que eu.

Gabriel soltou um riso curto.

— Você realmente acha que o Neymar estava bêbado? Cachaça pra ele é água.

Ele deu um passo para trás, passando a mão no rosto.

— Deus… você só me dá preocupação.

Meu estômago afundou.

— O que eu fiz?

Ele desviou o olhar, claramente evitando a resposta.

— Não vou falar… fiquei com vergonha.

E saiu.

Simples assim.

Meu coração disparou.

Vergonha?

— Meu Deus… — sussurrei.

Saí praticamente correndo atrás de Neymar.

Encontrei ele ainda rindo de alguma coisa.

— Ney — parei na frente dele, quase implorando — me fala o que eu fiz ontem.

Ele me olhou, divertido.

— Você subiu no meu pole dance.

Fechei os olhos.

Isso eu lembrava.

— O Antony te chamou de gostosa… — ele continuou, segurando o riso — você xingou ele e disse que o show era pro Martinelli.

Abri os olhos na hora.

— Não.

— Sim.

Passei a mão no rosto.

— Meu Deus…

— Ele deixou você dançar um pouco… — Neymar continuou — mas quando eu fui te tirar, o Martinelli apareceu do nada, te puxou e falou que seu show tinha acabado.

Engoli seco.

Isso… eu lembrava.

Ou pelo menos uma parte.

— Depois disso eu não sei exatamente o que aconteceu — ele deu de ombros — mas considerando que eu ouvi ele gritando com você às três da manhã… você deve ter aprontado bastante.

Levei as mãos ao rosto.

— Ney…

Ele riu.

— Ele chegou atrasado hoje reclamando que você bebe e faz ele perder a sanidade.

— Eu vou morrer.

— Provavelmente — ele concordou, ainda rindo. — Você vai deixar o moleque calvo de estresse.

Me sentei ao lado dele, completamente derrotada.

— Eu não tenho coragem de ir falar com ele…

— Não precisa.

— Como assim?

— Ele já tá vindo.

Fechei os olhos por um segundo.

Ótimo.

Simplesmente ótimo.

— Descobriu, né? — a voz de Gabriel veio acompanhada de um riso baixo.

Levantei o olhar devagar.

Ele parecia… divertido.

O que não ajudava em nada.

— Dá licença, Neymar — ele disse, puxando levemente meu braço — ainda tem mais humilhação pra você saber, amor.

Meu coração disparou.

Eu estava oficialmente com medo.

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