• Ana Gabriela
Acordei com uma sensação estranha.
Um peso sobre mim.
Por um segundo, meu corpo travou, ainda meio perdido entre o sonho e a realidade.
Até que eu percebi.
Gabriel.
As pernas dele estavam entrelaçadas nas minhas, uma das mãos firme na minha cintura, e o rosto… completamente escondido no meio do meu peito.
Eu fiquei alguns segundos parada.
Confusa.
Aquilo parecia…
Íntimo demais.
Quase como um casal.
— Você tá bem? — a voz dele saiu abafada.
Eu respirei fundo.
— Levanta. Você tem treino.
Ele demorou um pouco pra reagir, como se ainda estivesse acordando de verdade. Então se afastou, me encarando por alguns segundos.
E foi direto pro banheiro.
Eu levantei da cama devagar.
Seis e meia da manhã.
O treino era às oito.
Saí do quarto dele sem dizer nada e fui pro meu.
Tomei banho, me arrumei, mas evitei qualquer contato com o time. Não queria café em grupo, não queria conversa, não queria olhar de ninguém.
Esperei dar o horário.
Só desci quando já não tinha como fugir.
Comi rápido.
Em silêncio.
E logo fui chamada para o carro da CBF.
— O senhor Martinelli pediu pra te entregar isso.
O motorista me entregou uma sacola assim que entrei.
Franzi o cenho e abri.
Um celular.
Novo.
Soltei um suspiro baixo.
Durante o caminho, configurei tudo. Consegui recuperar quase tudo — fotos, contatos, aplicativos.
Menos a sensação de que minha vida estava bagunçada.
Essa não dava pra restaurar.
Cheguei no centro de treinamento e fui direto me sentar para assistir.
Mas nem tive tempo.
— Ana Gabriela.
Levantei o olhar.
Tite.
Respirei fundo e me levantei.
— Podemos conversar?
Assenti.
Me aproximei, sentindo o olhar dele me analisando com calma demais.
— O Neymar falou comigo sobre você.
Já começou assim.
Ótimo.
— Quero que você converse com o psicólogo da seleção.
Fiquei em silêncio.
— Você é importante pros meus jogadores — ele continuou — e, estranhamente, todos eles parecem ter se apegado a você muito rápido.
Quase ri.
Quase.
— Então, a partir de agora, você também é responsabilidade minha.
Eu balancei a cabeça.
— Eu tô bem…
Ele me interrompeu com o olhar.
— Você teve uma crise de ansiedade, Ana.
As palavras foram diretas.
— Tremor, falta de ar, choro descontrolado… você quase passou mal.
Engoli seco.
— Vai até o psicólogo, por favor.
Uma pausa.
— Não me faz precisar transformar isso em ordem.
Soltei o ar devagar.
— Tudo bem.
— Só mais uma coisa.
Eu o encarei.
— Me disseram que isso tem relação com um término. Dependência emocional.
Meu peito apertou.
— Você conquistou esse grupo em uma semana.
Ele sorriu, de leve.
— Nem eu consegui isso.
Eu não soube o que responder.
— Você é incrível. Mas precisa ficar bem.
Eu apenas assenti.
E fui.
A conversa com o psicólogo foi… estranha.
Eu falei.
Tudo.
Do jeito que deu.
Higor.
Gabriel.
Antony.
O que eu sentia.
O que eu não entendia.
O que doía.
Ele ouviu.
Disse que aquilo não ia se resolver em um dia.
Que a gente ia trabalhar nisso durante a Copa.
E depois…
Eu continuaria.
Saí de lá cansada.
Me sentei no banco de reservas e peguei o celular.
Erro.
Meu Instagram estava um caos.
Comentários.
Mensagens.
Ofensas.
"Você merece o Antony."
"Marmita da seleção."
"Interesseira."
"Traiu e quer pagar de vítima."
E, claro…
Os torcedores do Palmeiras.
Porque agora o Higor era jogador de lá.
Fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo.
Abri o direct.
E encontrei uma mensagem que me fez sorrir, mesmo que pouco.
Guedes.
"Fica triste não. Te conheço. Você é incrível. Não liga pra esse povo."
Eu mordi o lábio, respondendo.
"Eu deixei o Antony me provocar."
A resposta veio rápido.
"O cara saiu do Corinthians pro Palmeiras, ele já perdeu na vida."
Eu ri.
De verdade.
"Brincadeira, princesa. Mas ninguém é santo pra te julgar. Manda todo mundo se foder."
Balancei a cabeça, sorrindo.
"Te amo, Guedes."
"Também te amo, pirralha. Se cuida aí no Catar. Esses caras da seleção são tudo doido."
Ri mais uma vez.
Era bom…
Ter alguém que me conhecia de antes.
Minha atenção foi puxada quando alguém parou na minha frente.
Martinelli.
— Pegou o celular?
— Sim. Obrigada.
Ele assentiu.
— O Neymar me contou que você falou com o Tite.
— Eu já resolvi — respondi, direta — não quero falar sobre isso com você.
Ele me analisou por um segundo.
E respeitou.
Só assentiu, bebeu água e voltou pro treino.
Sem insistir.
Sem pressão.
Eu suspirei e voltei pro celular.
Erro de novo.
Abri o perfil do Higor.
Ele não me seguia mais.
Todas as fotos tinham sido apagadas.
Sem aliança na bio.
Agora só… "jogador do Palmeiras".
Simples assim.
Como se eu nunca tivesse existido.
Os comentários eram todos de apoio.
Como se ele fosse a vítima.
Como se eu fosse a errada.
Fechei o aplicativo.
Guardei o celular.
E fiquei olhando pro nada.
O treino acabou.
Voltamos pro hotel.
Eu me sentia…
Vazia.
Mas ninguém ali tinha culpa.
Então, se eu quisesse chorar…
Ia ser sozinha.
Como sempre foi.
— Ei.
A voz do Neymar me fez parar antes do elevador.
— Vai ter festa no meu quarto hoje.
Eu arqueei a sobrancelha.
— Vocês têm treino amanhã.
Ele deu de ombros.
— Cachaça também é treino.
Eu soltei um riso baixo.
— Dez da noite. Cola lá.
— Vou pensar.
Ele ficou sério por um segundo.
— Eu zoei seu namoro… mas não queria te ver assim.
Aquilo me pegou desprevenida.
— Se precisar, tô aqui.
Assenti.
— Obrigada, Ney. Pelo apoio com o Tite também.
Ele sorriu.
E saiu.
Entrei no elevador.
Mas antes da porta fechar…
Antony entrou.
Ofegante.
E sério.
Muito sério.
Ele me encarou.
Sem sorriso.
Sem brincadeira.
— Desculpa.
Simples assim.
Direto.
Eu engoli seco.
— Eu namorava. Eu que devia ter colocado limite.
As lágrimas vieram.
Dessa vez, eu não segurei.
— Você não é santo… mas eu também não sou.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Você não sabia lidar com o que sentia.
Ele me olhou.
— Eu sabia.
A porta abriu.
Saímos.
— Isso me faz pior que você.
Eu balancei a cabeça.
— Para de se desculpar. Eu já me sinto mal o suficiente.
Me aproximei.
E abracei ele.
Forte.
— Idiota.
Ele riu, baixo, e beijou minha testa.
— Sou tão idiota quanto você.
Se afastou.
— Vou buscar meu filho.
Uma pausa.
— Te vejo na festa do Ney?
Eu assenti.
Sem certeza.
Ele saiu.
E eu segui pro meu quarto.
Sozinha.
De novo.
Mas, pela primeira vez…
Sabendo que talvez…
Eu também fosse parte do problema.