《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 23

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• Ana Gabriela

Foi um surto.

Eu não pensei.

Não respirei.

Não raciocinei.

Eu só… fui.

Arrastei as malas pelo corredor do hotel com pressa, como se, se eu parasse por um segundo, tudo fosse desmoronar de vez.

Porque já estava desmoronando.

Era quase uma e meia da manhã quando apertei o botão do elevador.

Brasil.

Eu precisava voltar.

Pro Brasil, pro Corinthians, pra minha vida… pra ele.

Eu não ia passar por isso.

Não ia.

O elevador se abriu e eu entrei sem olhar pra trás.

Mas, no fundo, eu já sabia.

Não ia ser tão fácil assim.

Quando as portas se abriram no térreo, a realidade veio de uma vez só.

Eu parei.

O corpo travou.

A seleção inteira estava ali.

No hall.

Como uma barreira.

Como um muro.

Como se ninguém ali fosse me deixar sair.

Alguns rostos eu mal conhecia — como Casemiro e Militão — mas ainda assim estavam ali.

Por mim.

Ou contra mim.

Nem eu sabia mais.

— Não precisava ter todo esse trabalho, sabia?

A voz do Neymar veio leve.

Quase debochada.

Eu nem tive força pra responder.

— Tia Ana!

Lorenzo correu na minha direção, animado, inocente.

Eu não me movi.

Não consegui.

— Me deixa ir embora… — pedi baixo.

A voz falhou.

Eu queria chorar.

Mas já tinha chorado demais.

Neymar se afastou um pouco, dando espaço.

E então o Antony veio.

Pegou o filho que estava perto de mim, como se estivesse tirando ele daquela situação.

Ou talvez me protegendo.

— Ele devia estar com a mãe.

Minha voz saiu seca.

— Ele quis brincar um pouco antes de dormir — Antony respondeu, tranquilo.

Mas o olhar dele não estava.

— Me dá um motivo que não envolva seu namorado pra você ir embora… e eu deixo.

Eu levantei o olhar.

— Você não manda em mim.

Ele não respondeu.

Só virou o rosto.

— Martinelli.

E então ele apareceu.

Calmo.

Sério.

Controlado.

— Você não tá aqui como atleta, nem como parte da comissão — ele começou — não é como se pudesse simplesmente ir embora.

Eu franzi o cenho.

— Você assinou um contrato. Comigo e com a CBF. Se sair antes do último jogo… paga multa.

O mundo parou.

— O quê?

Minha voz saiu mais alta do que eu queria.

As lágrimas vieram na mesma hora.

— É padrão FIFA — ele falou, mais baixo agora — me desculpa… eu não quis te prender aqui. Desde o começo eu disse que, se você quisesse ir embora… eu pagaria.

— Então me deixa ir.

Ele me encarou.

E pela primeira vez naquela noite… parecia cansado.

— Eu deixo você ir quando for uma decisão sua.

Uma pausa.

— Não quando for desespero por causa de um cara.

Aquilo doeu.

Mais do que devia.

As lágrimas caíram sem controle.

Eu queria sumir.

Ali.

Na frente de todo mundo.

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De repente, senti braços ao meu redor.

Paquetá.

E Duda.

— A gente tá aqui, Ana — Duda disse, firme — ninguém vai te julgar.

— Mas você precisa deixar a gente te ajudar — ela continuou — mesmo que doa.

Eu fechei os olhos.

Doía.

Tudo doía.

— Você não queria ser adotada? — Paquetá tentou aliviar — pronto, eu e a Duda cuidamos de você.

Eu ri.

Fraco.

Mas ri.

E me deixei ser levada.

Sem resistência.

Sem força pra lutar.

— Deixa ela com a gente, Martinelli — Duda disse — leva as malas.

Eu não olhei pra trás.

Se olhasse…

Talvez eu desistisse.

De tudo.

Subimos de elevador.

E quando percebi…

Estava de volta.

No quarto que eu conhecia bem demais.

— Acho que ela preferia dormir com o Antony — Paquetá comentou, baixo.

— Não.

Eu respondi rápido.

— Eu quero o Martinelli.

Os dois me olharam.

Surpresos.

Eu me encolhi.

Porque, no fundo…

Era verdade.

Com ele… eu me sentia menos errada.

Menos… culpada.

— Tá bom — Duda assentiu — vem.

Fomos até o quarto dele.

Ele estava chegando.

Cansado.

Exausto.

Mas, ainda assim… ali.

— Ela quer dormir com você — Lucas avisou.

Gabriel soltou um suspiro.

Pesado.

— Eu tô cansado… promete que vai se comportar?

Assenti.

Sem discutir.

Sem forças.

Eles saíram.

E ficamos só nós dois.

Ele foi até o guarda-roupa e pegou uma camisa da seleção.

Com o nome dele.

E uma cueca nova.

— Toma um banho — disse — você precisa relaxar.

Eu só obedeci.

Sem questionar.

A água quente ajudou.

Um pouco.

Mas não o suficiente.

Nada era suficiente.

Quando saí do banheiro, ele estava me olhando.

E por um segundo…

Só olhando.

O olhar dele desceu.

Subiu.

E ele desviou rápido.

— Cacete… — murmurou — é… eu vou dormir no chão.

— A cama é de casal — falei, indo até ela — você tem treino amanhã. Não complica.

Ele hesitou.

Mas cedeu.

Cada um ficou em um canto.

A luz apagada.

Silêncio.

Mas não por muito tempo.

— Quando foi que eu saí do seu lado?

A voz dele veio baixa.

Eu fechei os olhos.

— Quando você começou a me ligar uma vez por mês.

Engoli seco.

— Quando suas mensagens viraram obrigação.

Me virei pra ele.

— Você tinha tempo pra tudo… menos pra mim.

Minha voz falhou.

— E foi ali que eu entendi… que ninguém nunca ia me amar o suficiente.

Ele ficou em silêncio.

— Desculpa…

— Minha mãe dizia que eu era louca por pensar assim.

Respirei fundo.

— Talvez eu seja.

Olhei pra ele.

— Mas eu também não tô completamente errada.

Ele virou de costas.

Ficou alguns segundos em silêncio.

E então falou.

— Eu fiz meu discurso de formatura falando de você.

Meu coração travou.

— Você não foi… mas eu falei.

A voz dele saiu mais baixa.

Mais sincera.

— Falei por vinte minutos que o meu ensino médio valeu a pena por sua causa.

Eu prendi a respiração.

— Minha mãe perguntou por quê.

Ele respirou fundo.

— E eu disse que você era a única pessoa que realmente importava.

Silêncio.

Pesado.

— Eu sempre te amei mais do que você imaginou.

Meu coração disparou.

— O que você quer dizer com isso?

Ele virou pra mim.

E, dessa vez…

Não desviou.

— Que ser seu amigo sempre doeu.

As palavras me acertaram em cheio.

— Porque eu te colocava num pedestal… e você se colocava no lixo.

Eu não consegui responder.

— Te amar nunca foi suficiente.

Ele respirou fundo.

E suavizou.

— Mas tudo bem.

A voz dele ficou mais calma.

Mais firme.

— Eu vou continuar te amando… até você aprender a se amar.

Eu fiquei em silêncio.

Sem reação.

Sem resposta.

Porque, pela primeira vez…

Eu não sabia o que sentir.

— Boa noite.

Ele virou de costas.

E o silêncio voltou.

Mas, dessa vez…

Ele gritava.

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