Point of View — Ana Gabriela
Acordei sentindo um carinho leve no rosto.
Abri os olhos devagar e encontrei Antony me olhando, a mão ainda passando com cuidado pela minha bochecha. Ele estava com olheiras… profundas.
Provavelmente não tinha dormido direito.
— Bom dia… — ele murmurou, inclinando-se para beijar minha testa. — Hoje não tem treino. Só amanhã… Vou buscar minha cria, vou ficar com ele o dia todo.
Me sentei na cama, ainda meio desorientada.
E, em questão de segundos, a lembrança da noite anterior veio com tudo.
Vergonha.
Muita vergonha.
— Desculpa por ontem — falei rápido, levantando. — Eu… eu não devia ter…
Ele segurou meu braço antes que eu me afastasse.
— Me solta — pedi, quase no automático. — Tá errado. Muito errado eu estar aqui com você. Eu namoro, Antony.
Ele suspirou.
— Eu sou seu amigo, Gabriela.
O jeito que ele falou meu nome me fez travar por um segundo. Quase ninguém me chamava assim.
— Você não gostou de estar comigo ontem? — ele perguntou, me olhando sério. — Se permite ser feliz um pouco, que saco.
Respirei fundo.
Porque a verdade era uma só:
Eu tinha gostado.
E muito.
Fechei os olhos por um segundo, tentando não me perder de novo.
Mas acabei deixando.
Deixei ele me puxar de volta, me sentando no colo dele.
— Eu tô louco com você… — ele falou baixo, direto. — Não escondo isso. Mas se a tua escolha é continuar namorando… eu fico feliz sendo teu amigo.
Meu coração apertou.
— Só quero te ajudar, tá?
Olhei pra ele.
— Obrigada…
Ele sorriu de leve e se levantou.
— Fica aí. Vou tomar banho… depois te levo pro seu quarto. Hoje você vai passar o dia comigo e com minha cria.
Fiz bico, automaticamente.
— Antony…
Ele só riu, se balançando como uma criança birrenta antes de entrar no banheiro.
Fiquei deitada na cama, olhando pro teto.
Até lembrar do meu celular.
Não estava ali.
Claro.
Eu tinha saído do meu quarto no meio de uma crise.
Suspirei e olhei pro lado.
O celular do Antony estava ali.
Peguei.
A tela de bloqueio era a foto de um cachorro.
Soltei uma risadinha.
Desbloqueei.
Sem senha.
— Corajoso… — murmurei.
O celular já abriu direto no Instagram.
Curiosa, fui ver os stories.
E então parei.
Era uma foto minha.
Dormindo.
Mas não estava nos stories normais.
Era nos melhores amigos.
"Meu pressentimento bom nessa Copa <3"
Fiquei olhando aquilo por alguns segundos.
E sorri.
De lado.
Mas logo desviei.
Aquilo não era bom.
Nada daquilo era bom.
Guardei o celular exatamente onde estava.
Quando ele saiu do banheiro, já estava pronto.
Bermuda preta. Camisa verde. Cheiro de banho tomado.
— Bora?
Assenti.
Fomos até o meu quarto.
Tomei banho, escovei os dentes e, claro, fiz ele esperar quase quarenta minutos enquanto arrumava o cabelo.
Quando saí, ele estava jogado na cama.
— O peso de andar com mulher bonita… — ele se levantou, se espreguiçando. — Bora buscar minha cria.
Revirei os olhos.
Saímos do quarto e, por sorte, não encontramos ninguém no caminho.
— Postei um story com você nos meus melhores amigos — ele comentou, casual. — Tem problema?
— Não…
Tinha.
Mas eu estava cansada demais pra brigar com aquilo.
Preferi fingir que estava tudo bem.
Ele bateu na porta de um dos quartos.
Uma mulher abriu, segurando um menino pequeno — uns dois, três anos.
— Bom dia, Antony — ela disse, me olhando em seguida. — Nova namorada?
— Amiga. Fisioterapeuta do time — ele respondeu, pegando o menino no colo. — À noite eu trago ele.
Ela entregou uma bolsa e se despediu.
Saímos.
O silêncio ficou entre nós.
— O nome dele é Lorenzo — Antony falou, cutucando o menino. — Filhote, essa é a tia Ana… lembra do tio Gabi?
— Gabi Tinelli? — o pequeno falou, todo animado.
Eu ri.
— Isso mesmo — Antony confirmou. — Ela é amiga dele. Você tava com saudade, né?
O menino me olhou.
E, sem aviso, se jogou no meu colo.
— Oi… — sorri, segurando ele. — O que você quer fazer?
— Acordar o tio Tinelli!
O sorriso dele era quase maligno.
— Qual o quarto?
— 205 — Antony respondeu, rindo. — Vou pra mesa do café. Não deixa o Martinelli matar minha cria, eu só tenho um.
Balancei a cabeça, segurando o riso.
Fui até o quarto com o Lorenzo.
Convenci um funcionário a abrir a porta — com muito charme, claro.
Entramos devagar.
O quarto estava silencioso.
E o Martinelli… completamente jogado na cama.
— Tio… — Lorenzo apontou.
Me abaixei.
— No três a gente grita "bom dia" e pula, tá?
Ele concordou, animado.
— Um… dois…
— BOM DIA, TIO!
Ele pulou antes do três.
Direto em cima do Martinelli.
Eu ri.
Muito.
— Que isso?! — ele levantou assustado.
— Mas é um satanás igual o pai — ele disse, puxando o Lorenzo pra fazer cócegas. — Bom dia, coisa linda do tio.
— Saudade… — o menino abraçou ele.
— Eu também.
Então ele me olhou.
— Olha a outra satanás… não pode nem dormir.
— Bom dia, tio Tinelli — falei, me aproximando.
Ele estava só de cueca.
Ignorei.
— Já vi que vou sofrer hoje… — ele pegou o Lorenzo de volta. — Espera aí, vou escovar os dentes.
Fiquei brincando com o Lorenzo na cama enquanto ele se arrumava.
— Tia Ana… você namola o tio Tinelli?
Quase engasguei.
— Não.
— Minha namorada é a Isabella — Martinelli apareceu, pegando o menino. — Lembra dela?
Lorenzo negou.
— Bora descer.
Assenti.
Fomos os três pro café.
Assim que chegamos…
— NÃO É POSSÍVEL QUE VOCÊS NÃO SE PEGAM!
A voz do Neymar ecoou pelo salão.
— Olha isso! Parece uma família!
— O filho é meu! — Antony apareceu, indignado.
— Se o Martinelli não fizer nada, eu faço — Neymar falou, sorrindo pra mim.
Eu ri.
— Eu namoro — Martinelli disse, se sentando com o Lorenzo.
— Tá namorando errado então — Neymar retrucou. — Tu e ela, ó…
Revirei os olhos, rindo.
— Moça bonita… quando terminar com o palmeirense, lembra de mim. Eu não torço pro rival.
Balancei a cabeça, rindo.
Sentei ao lado do Richarlison e do Paquetá.
— Me leva pra ver nossa esposa de novo — cutuquei o Paquetá. — Ontem eu tava estranha… hoje eu peço ela em casamento.
Ele riu.
— Acordou bem, hein. Já quer roubar minha mulher.
— Bom dia.
Sorri.
Porque, pela primeira vez…
Eu estava leve.
E talvez fosse exatamente isso que me assustava.