《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 18

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Point of View — Antony

— Vem comigo, gata — murmurei baixo, já me levantando.

Ela me olhou por um segundo, como se pensasse em recusar. Mas não recusou.

Segurou minha mão.

Puxei sem olhar pra trás, sentindo os olhares pesarem nas minhas costas — principalmente o do Ney e o do Martinelli. Ignorei.

Subimos em silêncio.

Abri a porta do meu quarto e deixei ela entrar primeiro.

— Senta aí… e desembucha — falei, encostando na porta depois de fechá-la. — Quero a história completa. Do começo ao fim. Sobre você e o meu cunhado.

Ela não hesitou.

Simplesmente se jogou na minha cama, como se já conhecesse aquele lugar há anos.

Fiquei observando.

— Senta, idiota.

Soltei uma risada baixa.

— Calma, amor…

Me aproximei e sentei ao lado dela.

Ela respirou fundo.

E eu já sabia que vinha coisa pesada.

— Eu comecei a namorar o Higor há dez meses… — começou, com a voz mais baixa. — Mas conheci ele um ano e meio atrás. Eu tinha 17… comecei estágio no Corinthians nessa época.

Assenti, prestando atenção.

— Foi quando o Martinelli foi pro Ituano… depois Arsenal.

— Continua…

Ela hesitou.

— O Higor foi meu primeiro namorado.

Me olhou, como se esperasse julgamento.

Não veio.

— Meu primeiro beijo… — ela desviou o olhar — com 17 anos. E também foi minha primeira vez. Ele foi literalmente o primeiro… e o único até hoje.

Fiquei em silêncio.

Ela precisava falar.

— A gente se conheceu no CT… eu beijei ele, enrolei por cinco meses… só depois começamos a namorar. E aí veio tudo.

Tudo.

Sempre tem um "tudo" nesses casos.

— É aquele tipo de relação que sua vida começa a girar em torno da pessoa? — perguntei, me deitando ao lado dela.

Ela se mexeu, desconfortável.

— Eu entrei no ensino médio com 13 anos… — continuou. — Dos 13 aos 15, eu era a menina feia. Nerd. Zoada. Ninguém nunca se interessou por mim.

Apertei os lábios.

— O Martinelli era meu único amigo.

Ela respirou fundo.

— Com 15 eu mudei… fiquei "bonitinha", mas não adiantou muito. Continuei sendo a nerd… só que agora a nerd chata.

— Ana…

— Calado — ela me interrompeu, se aproximando mais. — Deixa eu falar.

Levantei as mãos, rendido.

Ela precisava disso.

— Eu nunca tive pai. Tinha padrasto… mas não é a mesma coisa. Meu melhor amigo foi pra Europa… e eu fiquei sozinha.

Engoli seco.

— O Higor virou tudo pra mim, entende?

Agora os olhos dela estavam cheios.

— Tudo.

Silêncio.

— Minha mãe fala que eu não posso ver ele assim… mas ele sempre cuidou de mim. Sempre. Me protegeu, ficou do meu lado…

A voz dela falhou.

— A ideia de perder ele… — ela respirou fundo — me dá medo. Muito medo. Eu não sei quem eu sou sem ele.

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Aquilo me incomodou.

Muito.

— Alguém que goste de você? — perguntei, olhando direto pra ela. — Vamos falar direito, Ana…

Ela desviou o olhar.

— Não sei explicar… é ele. Sempre vai ser ele. Cada parte minha pede por ele.

Ela se encolheu.

Passei a mão no cabelo dela, devagar.

— Eu não sou o melhor cara pra dar conselho de relacionamento — falei baixo. — Sou meio idiota, inclusive. Mas você não vai morrer sem ele.

Ela ficou em silêncio.

— Você é linda, Ana. Pode ter o homem que quiser.

Ela riu… mas não era um riso feliz.

— Não, Antony.

E aí vieram as lágrimas.

— Qualquer menina branca, de cabelo liso… me tira do jogo. Eu nem sei o que o Higor vê em mim.

Aquilo me pegou de um jeito errado.

Errado mesmo.

— Não vem com esse papo de "todo mundo é lindo" porque não funciona assim.

Respirei fundo.

Segurei a resposta.

— Tá… não vou discutir contigo.

Porque não adiantava.

— Mas você merece ser feliz. E eu… — dei um meio sorriso — definitivamente não sou o caminho certo pra isso.

Ela não respondeu.

— E o Higor… — continuei — tá te machucando. Você sabe disso.

Silêncio.

— Eu amo ele…

Claro.

Sempre essa porra.

Na minha cabeça eu queria falar mil coisas. Sacudir ela. Fazer ela enxergar.

Mas não falei.

Só me inclinei e beijei a testa dela.

— Dorme, neném… eu vou pro chão.

— Eu tenho quarto…

— Eu sei. Mas minha cama é melhor. E você vai mesmo recusar meu serviço de luxo?

Ela sorriu, fraco.

E isso já foi uma vitória.

Me deitei e puxei ela pro meu peito.

Ela não resistiu.

— Amanhã eu vou te apresentar meu filho… — falei, passando a mão nas costas dela. — Ele tá aqui no Catar.

— Um filho…

— Imagina o monstrinho… um mini Antony.

Ela soltou uma risada baixa.

A respiração dela foi ficando mais leve.

Mais lenta.

Até dormir.

Tentei sair sem acordar ela.

Falhei miseravelmente.

Mas, pra ser sincero… acho que nem tentei direito.

Me ajeitei melhor.

E apaguei também.

— ANTONY, SEU FILHO DA PUTA!

Acordei no susto.

— SE TU NÃO ABRIR ESSA PORTA EU VOU ARROMBAR! E SE A ANA TIVER AÍ…

Suspirei.

— Eu te mato!

Levantei, ainda meio zonzo.

Olhei pra cama.

Ela tava toda jogada, ocupando quase tudo.

E eu quase caindo.

Óbvio.

Abri a porta e já saí, fechando atrás de mim.

Martinelli tava vermelho.

— Cala a boca, ela tá dormindo.

— Tu tá maluco?!

Ele veio pra cima.

Desviei.

— Ei! Pera aí!

— VOCÊ TRANSOU COM ELA, SEU BABACA!

— NÃO!

A gente parecia duas crianças brigando no corredor.

— Me ouve, caralho!

Ele parou.

Respirando pesado.

Encostei na parede.

— Ela brigou com o namorado… teve uma crise. Chorou pra caralho. Eu trouxe ela pra cá pra conversar.

Ele ficou em silêncio.

— Ela me contou a história toda… — continuei — ela acha que o cara é o único que vai amar ela. Que se perder ele, vai ficar sozinha pro resto da vida.

O olhar dele mudou.

— Ela tem dependência emocional, mano. E autoestima lá embaixo.

— Como assim?

— Ela acha que é feia por não ser branca e não ter cabelo liso.

Ele ficou sem reação.

E, pra ser sincero, eu também fiquei quando ouvi.

— Aquilo ali me pegou… — murmurei. — Porque ela é linda pra caralho.

Silêncio.

— Eu não sei como ajudar — continuei. — Mas você é o melhor amigo. Fala com ela.

Ele passou a mão no rosto.

— Droga…

Respirou fundo.

— Valeu… e desculpa. Eu… pensei merda.

— Relaxa.

Ele já ia sair quando chamei:

— Martinelli.

Ele virou.

— Antes de se meter com ela… descobre o que você sente.

Ele franziu a testa.

— Se você não quiser… eu quero.

Falei mesmo.

Sem rodeio.

— E não sou só eu.

Ele ficou me olhando.

— Mas eu ainda acredito em você e nela — completei. — Então, por enquanto… é só brincadeira.

Ele não respondeu.

Só virou as costas e saiu.

Fiquei ali parado por alguns segundos.

Respirei fundo.

E voltei pro quarto.

Ela ainda tava dormindo.

E, pela primeira vez na noite…

Parecia em paz.

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